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segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Lord Alfred Douglas




Lord Alfred Douglas

Jader Marques Filho
foto digital

De Profundis (parte 16)

O ódio cega as pessoas. Você não sabia disto. O amor pode ler a mensagem da estrela mais distante, mas o ódio o cegou a tal ponto que você não podia ver além do estreito, emparedado e já sensualmente ressecado jardim dos seus desejos comuns. Sua terrível falta de imaginação, o defeito mais grave do seu caráter, era inteiramente resultante do ódio que vivia em você. Sutilmente, silenciosamente, em segredo, o ódio corroia sua natureza como o fungo que ataca a raiz de uma planta anêmica, até você não conseguir ver nada mais do que interesses estreitos e os mais mesquinhos objetivos. O seu talento, que o amor teria alimentado, o ódio envenenou e paralisou. Quando seu pai começou a me atacar foi como seu amigo privado, e através de uma carta privada para você. Tão logo li a carta, com suas ameaças obcenas e violências grosseiras, vi imediatamente que um perigo terrível pairava no horizonte dos meus atribulados dias. Disse a você que não serviria de saco de pancadas para o mútuo ódio ancestral entre vocês dois; que em Londres eu era muito mais presa para ele do que um Secretário de Assuntos Exteriores em Hamburgo; que seria inadequado me colocar mesmo que por um momento em tal posição; e que tinha algo melhor para fazer da minha vida do que viver cenas com um bêbado, declassé e débil mental como ele. Nada fazia você enxergar isto. O ódio lhe cegava. Você insistiu que a questão não tinha nada na verdade a ver comigo, que você não permitiria que ele regulasse as suas relações pessoais, que seria totalmente inapropriado que eu interferisse. Você já havia, antes de ter me comunicado, mandado para seu pai um telegrama estúpido e vulgar em resposta. Isto, claro, o atrelou a um curso de ação estúpido e vulgar a ser seguido. Os erros fatais da vida não se devem a falta de sensatez de uma pessoa - um momento insensato pode ser o melhor dos momentos. Estes erros se devem a um caminho lógico que um homem segue. Existe uma grande diferença. O telegrama condicionou todas as relações subsequentes com seu pai, e consequentemente toda minha vida. E o mais grotesco de tudo é que era um telegrama do qual o mais comum dos meninos de rua se sentiria envergonhado. De telegramas insolentes a cartas de advogados empertigados foi uma evolução natural, e o resultado destas cartas dos seus advogados para seu pai foi, é claro, levá-lo a ir mais longe. Você não lhe deu opção a não ser ir adiante. Você forçou isto sobre ele como um ponto de honra, ou antes de desonra, para que a sua petição tivesse o máximo efeito. Assim da próxima vez que ele me ataca, não é mais através de uma carta privada e como seu amigo privado, mas em público e como homem público. Eu tenho que expulsá-lo da minha casa. Ele vai de restaurante em restaurante me procurar, para me insultar na frente de todo mundo, e de tal modo que se eu retaliasse ficaria arruinado, e se não reagisse também ficaria.

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Sketchbook




Carl Marx
nos trópicos

Jader Marques Filho
nanquim e caneta
hidrográfica sobre papel

terça-feira, 17 de novembro de 2009

sábado, 14 de novembro de 2009

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

De Profundis (parte15)

Também tive minhas ilusões. Pensei que a vida fosse uma comédia brilhante, e que você seria uma das muitas figuras graciosas atuando nela. Descobri que ela foi uma repelente e repulsiva tragédia, e que o sinistro indutor da grande catástrofe, sinistro na sua concentração de objetivos e no estreitamento do poder do querer, foi você mesmo - despida a máscara de alegria e prazer com a qual você, não menos do que eu, tinha se iludido e se perdido.
Você pode agora entender - pode mesmo, não? - um pouco do que estou sofrendo. Um jornal, o PALL MALL Gazette acho, falando sobre o ensaio final de uma das minhas peças, lhe descreveu como me seguindo feito uma sombra. A memória de nossa amizade é a sombra que anda junto de mim aqui, que parece nunca me deixar, que me acorda de noite para me contar a mesma história sempre, até que sua exasperante repetição faz o sono me abandonar até de manhã, para começar ao amanhecer de novo, ela me segue no pátio da prisão e me faz falar sozinho enquanto ando em círculos. Cada detalhe que acompanhava cada momento horrível sou forçado a lembrar, não há nada que tenha acontecido naqueles desafortunados anos que eu não possa recriar no compartimento do cérebro reservado para a mágoa ou o desespero. Cada nota tensa da sua voz, cada espasmo ou gesto das suas mãos nervosas, cada palavra áspera, cada frase envenenada me voltam - lembro a rua ou o rio por onde passamos, as paredes ou bosques que nos rodeavam, onde estavam os ponteiros do relógio no mostrador, para que lado sopravam os ventos, a forma e a cor da lua.
Há, eu sei, uma resposta para tudo que eu lhe disse, e esta é que você me amava: que através dos dois anos e meio nos quais a Fortuna tecia em uma encarnada trama os fios de nossas vidas antes separadas, você realmente me amou. Eu sei que você me amou. Não importa qual fosse a sua conduta em relação a mim, eu sempre senti que no fundo você realmente me amava. Embora visse claramente que a minha posição no mundo da Arte, o interesse que a minha personalidade sempre gerava, meu dinheiro, o luxo em que vivia, as mil e uma coisas que faziam uma vida tão charmosa, tão maravilhosamente improvável como era a minha, eram, cada um deles e todos somados, fascinantes para você e que lhe faziam se apegar a mim. Mas além disto havia algo mais, uma estranha atração para você: era que me amava muito mais do que amara qualquer outra pessoa. Mas tinha tido, como eu, uma terrível tragédia em sua vida, ainda que de uma natureza totalmente oposta da minha. Você quer saber qual foi? Foi esta - em você o ódio sempre foi mais forte do que o amor. O ódio ao seu pai tinha tal dimensão que ultrapassava totalmente, superava ou obscurecia seu amor por mim. Não havia um conflito entre eles, ou muito pouco, tal era a dimensão deste ódio e tão agigantado. Você não se deu conta de que não existe lugar para ambas as paixões na mesma alma. Elas não podem viver juntas na mesma agradável moradia. O amor se alimenta da imaginação, pela qual nos tornamos mais sábios do que imaginamos, mais nobres do que somos.Pelo qual vemos a vida como um todo e pelo qual, e por ele apenas, podemos entender os outros na suas relações reais e suas relações ideais. Apenas o que é bom, e bem concebido, pode alimentar o amor. Mas nada pode alimentar o ódio. Não teve taça de champanhe que você tomou, nenhum prato requintado que você comeu nestes anos todos, que não tenha alimentado seu ódio e o engordado. Para gratificá-lo, você apostou com a sua vida, apostou com o meu dinheiro, descuidada e inconsequentemente, e indiferente às consequências. Se você perdesse, imaginava, a perda não seria sua. Se ganhasse, seriam suas, você sabia, a exultação e as vantagens desta vitória.

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

sábado, 17 de outubro de 2009


Monitor link



Sketchbook

Reino Natural
1989

Jader Marques Filho

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

De Profundis (parte14)

Você pensou de novo que mandando uma carta de advogado a seu pai para dizer que, em vez de interromper sua eterna amizade comigo, abriria mão da pensão de 250 libras por ano, incluídas as deduções que creio ele fazia do seu débito em Oxford, estaria realizando um ato de fidalguia e amizade, alcançando o nobre topo da auto-privação. Mas sua abdicação da pequena pensão não significava que você estava pronto para dispensar nenhum dos seus luxos mais supérfluos, ou das suas extravagâncias menos necessárias. Muito pelo contrário. Seu apetite por uma vida luxuosa nunca estivera tão aguçado. Minhas despesas durante oito dias em Paris comigo, com você e seu criado italiano foram de quase 150 libras - O Paillard somente custou 85 libras. No ritmo que você queria viver, a sua renda total de um ano - se você fizesse refeições sozinho e sendo bem econômico em sua seleção de prazeres mais vulgares - mal duraria três semanas. O fato de você, num arremedo de bravata abrir mão da sua herança, lhe deu finalmente uma razão plausível para viver às minhas custas, ou o que lhe parecia ser uma razão plausível: em muitas ocasiões você se valeu dela, na sua expressão mais completa. E a drenagem contínua, de mim principalmente, mas também de sua mãe até certo ponto, nunca foi tão lamentável, porque no meu caso pelo menos, sempre desacompanhada de uma simples palavra de agradecimento, ou de qualquer senso de limite...
Vocé pensava, de novo, que atacando seu pai com cartas horríveis, telegramas e cartões postais abusivos, estava realmente lutando as batalhas da sua mãe, mostrando-se como o seu campeão, e se vingando dos sem dúvida nenhuma terríveis sofrimentos e más ações que sofreu na sua vida de casada. Era uma ilusão da sua parte, umas das suas piores na verdade. A maneira de se vingar dos erros do seu pai para com a sua mãe, a se considerar como parte das obrigações de um filho fazer isto, seria ser um melhor filho para ela do que você foi - não a deixando com medo de falar coisas sérias com você, não assinando contas cujo pagamento caiam sobre ela, sendo gentil com ela, e não trazendo mais tristeza para os seus dias. Seu irmão Francis fez grandes reparações pelo que ela havia sofrido com a sua doçura e bondade durante os breves anos da sua florida vida. Deveria tê-lo tomado como modelo. Você estava errado ainda quando imaginou que teria sido uma alegria para sua mãe se tivesse conseguido através de mim colocar seu pai na prisão. Tenho certeza de que estava errado. E se quiser saber o que uma mulher sente quando o seu marido e pai dos seus filhos está vestido de prisioneiro, numa cela de prisão, escreva para minha mulher e pergunte, ela lhe dirá...

terça-feira, 6 de outubro de 2009

De Profundis (parte 13)

Quando eu disse ao advogado que não tinha dinheiro para encarar a gigantesca despesa, você interveio imediatamente. Disse que sua família ficaria feliz em pagar todas as despesas; que seu pai tinha sido um demônio com todos; que eles tinham muitas vezes discutido a possibilidade de conseguir colocá-lo num asilo de loucos para tirá-lo do caminho; que ele era uma fonte diária de tormento e perturbação para sua mãe e para todo mundo. E que se eu apenas me adiantasse em calá-lo, seria visto pela família como seu campeão e seu benfeitor - e que as pessoas ricas relacionados com sua mãe veriam como uma verdadeira benção o ato de poderem pagar pelos custos e despesas decorrentes de tal esforço. O advogado encerrou o expediente imediatamente, e fui apressado para a delegacia policial. Não tinha desculpas para não ir. Fui forçado a ir. Claro, sua família não pagou os custos, e quando sou declarado em falência, é pelo seu pai e por estes custos - a quantia irrisória de umas 700 libras. Neste momento da minha vida minha mulher, magoada comigo por uma importante questão - se eu deveria ter 3 libras ou 3.10 libras por semana para viver - prepara uma ação de divórcio para a qual, naturalmente, novas evidências e um novo julgamento seguidos de providencias ainda mais graves se fazem necessárias. Eu naturalmente, não sei nada dos detalhes. Apenas sei o nome da testemunha em cujo testemunho os advogados da minha esposa se baseiam - é o seu próprio criado de Oxford, a quem empreguei sob seu pedido especial durante nosso verão em Goring.
Mas realmente não preciso ir mais além com mais desdobramentos da estranha Catástrofe que você parece ter trazido sobre mim em todas as coisas grandes ou pequenas. Sinto as vezes como se você fosse apenas uma marionete manipulada por mão secreta e invisível, e para causar eventos terríveis sobre questões terríveis. Mas as marionetes tem suas próprias paixões. Elas agregarão novos temas aqueles que estão representando, distorcendo o roteiro determinado de vicissitudes para enquadrá-las em algum capricho ou desejo próprio. Ser totalmente livre e ao mesmo tempo inteiramente dominado pela lei é o eterno paradoxo da vida humana que vivemos a cada momento e isto, penso sempre, é a única explicação plausível para a sua natureza, se é que existe alguma explicação possível para os profundos e terríveis mistérios da alma humana, com exceção daquela que torna o mistério mais maravilhoso ainda.
Claro que você tinha suas ilusões, vivia nelas na verdade, e através dos seus oscilantes nevoeiros e véus coloridos, via tudo modificado. Você pensou me lembro muito bem, que se devotar a mim, com a exclusão total de sua família e da vida familiar, era uma prova da sua fantástica devoção, e do seu enorme afeto. Sem dúvida parecia ser assim para você. Mas lembre-se de que comigo vinha o luxo, a vida de alto padrão, o prazer ilimitado, dinheiro sem restrições. Sua vida familiar o entediava. O "vinho frio e barato de Salisbury", para usar uma frase sua, era de mau gosto para você. Do meu lado, junto aos meus atrativos intelectuais, estavam os festins do Egito. E quando você não podia me encontrar, as companhias que escolhia para me substituir não eram nada elogiáveis...

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

De Profundis (parte 12)

Quando estava com você em Salisbury, você ficou extremamente alarmado com um comunicado ameaçador de um antigo companheiro seu: suplicou para que eu fosse ver o mandante e lhe ajudasse. Eu fiz isto. O resultado para mim foi Ruína. Sou forçado a carregar nos meus ombros o fardo e responder por tudo que você tenha feito. Quando, não conseguindo obter sua graduação, teve que sair de Oxford, você me telegrafa para Londres e implora para ir até você. Eu faço isto imediatamente.Você me pede para levá-lo a Goring, já que você não quer, nestas circunstancias , ir para casa. Em Goring você vê uma casa que lhe encanta; eu fico com ela para você e o resultado, sob qualquer ponto de vista, é Ruína para mim. Um dia você chega e me pede, como um favor pessoal, para escrever algo para uma revista universitária de Oxford, que estava sendo iniciada por um amigo seu do qual nunca ouvira falar antes. Enviei-lhe uma página de paradoxos que tinham sido destinados originalmente para a Saturday Review. Poucos meses depois eu me encontro no tribunal de Old Bayley por conta do conteúdo da revista. Ela faz parte das acusações da Coroa contra mim. Sou convocado para defender a prosa do seu amigo e seus próprios versos. A primeira eu não posso justificar; a última, eu, leal ao extremo a sua literatura juvenil bem como a sua jovem vida, defendo com vigor, e não vou lhe imprecar como um escritor de indecências. Mas vou para a cadeia, de qualquer maneira, pela revista universitária do seu amigo e por causa do "amor que não ousa dizer o seu nome". No Natal eu lhe dou "um "presente muito bonito", como você diz na sua carta de agradecimento, na qual falava de coração, do valor de 40, 50 libras. Quando chega a minha queda e fico falido, o agente apreende a minha biblioteca e a vende, e o faz como pagamento deste "presente muito bonito". Foi por isto que a execução da minha casa foi realizada. No ultimo e terrível momento, em que sou vilipendiado e compelido pelas suas ofensas a processar seu pai e fazer com ele seja preso, o último refúgio a que me apego no meu esforço melancólico para escapar são as minhas despesas. Eu digo ao advogado, na sua presença, que não tenho fundos, que não tenho como pagar os custos assustadores, que não tenho o dinheiro disponível. O que eu disse era, como você sabe, totalmente verdadeiro. Enfraquecido com a minha ruína, estaria feliz e livre na França, longe de você e de seu pai e ignorando o cartão repulsivo dele e indiferente a suas cartas - se fosse capaz de deixar o Hotel Avondale. Mas o pessoal do hotel se recusou peremptoriamente a me deixar sair. Você tinha ficando comigo por dez dias. Havia além de tudo trazido, mesmo com a minha justa indignação você tem que admitir, uma companhia sua para ficar lá comigo também : a minha conta pelos dez dias era então de quase 140 libras. O gerente disse que não podia deixar minha bagagem sair do hotel até que eu pagasse toda a conta. Isto foi o que me prendeu a Londres. Se não fosse a conta do hotel eu teria ido para Paris na quinta-feira de manhã...

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

De Profundis (parte 11)

Nossa amizade realmente começou com você me pedindo, em uma carta totalmente patética e sedutora, para ajudá-lo numa situação realmente horrível para qualquer pessoa, mais ainda para um jovem de Oxford - eu assim o fiz, e por você reivindicar meu nome como seu amigo junto a Sir George Lewis, comecei a perder a consideração e a amizade dele, uma amizade que durava já quinze anos. Quando fui privado de seus conselhos e ajuda, e da sua consideração, fui privado do grande guardião da minha vida.
Você me manda um poema bem agradável, numa linha do aprendizado do verso, para minha aprovação. Eu lhe retorno em uma carta cheia de conceitos literários fantásticos: comparo-lhe a Jacinto ou Hylas, a Jonquil ou Narciso, ou a alguém que o grande deus da poesia favoreceu e honrou com seu amor. A carta é como uma passagem dos sonetos de Shakespeare, transposta para uma escala menor. Só pode ser entendida por aqueles que leram o Simposium de Platão, ou captaram o espírito portador de um tom grave transformado em beleza para nós nos mármores gregos. Era, tenho que dizer francamente, o tipo de carta que eu teria escrito em um momento feliz e consciente para qualquer jovem interessante de uma universidade que tivesse me enviado um poema de sua lavra, desde que ele tivesse sensibilidade e cultura suficientes para interpretar corretamente frases fantásticas nela contidas. Veja a historia desta carta! Passou das suas mãos para a de uma companhia execrável e desta para um bando de chantagistas: cópias dela são mandadas por ai em Londres, para meus amigos e para o gerente do teatro onde minhas peças são encenadas - todo tipo de suposições são feitos sobre ela, menos as adequadas. A sociedade fica excitada com os rumores absurdos de que tenho que pagar uma quantia enorme por ter escrito uma carta infame para você - isto compõe a base do pior ataque do seu pai. Eu mesmo trago a carta original ao tribunal para mostrar o que ela é realmente, mas é denunciada pelos conselheiros do seu pai como uma revoltante e ardilosa tentativa de corromper a Inocência. A coroa a aceita com prova. O juiz faz dela uma acusação sumária com pouco entendimento e muita "moralidade"- e eu vou para a cadeia graças a ela finalmente. Este foi o resultado de lhe escrever uma carta sedutora.

terça-feira, 15 de setembro de 2009

Walt Whitman

Canção da terra que gira

Ar, terra, água, fogo
,
Estas são palavras
E eu próprio formo uma palavra com elas -
Minhas qualidades com as delas se misturam,
E meu nome para elas é nada.
Ainda que fosse dito em três mil linguas,
O que o ar, a terra, a água e o fogo
Saberiam sobre o meu nome?

Walt Whitman
A song of the rolling earth

Tradução de Yader Marques

sexta-feira, 17 de julho de 2009

De Profundis (parte 10)

Já tinha tudo arranjado na quinta a noite quando na sexta de manhã, tomando o café da manhã antes de partir, abri o jornal e li um telegrama dizendo que seu irmão mais velho, o verdadeiro chefe da família, o herdeiro do título, o alicerce da casa, tinha sido encontrado morto em uma vala com sua arma disparada ao lado do corpo. O horror das circunstâncias da tragédia, que não poderia ser considerada como um acidente, e respingada de sugestões sombrias; o sentimento da perda súbita de alguém tão amado por todos que o conheciam, e quase na véspera do seu anunciado casamento, minha idéia de qual seria a sua dor, ou deveria ser; minha consciência da miséria que aguardava sua mãe com a perda daquele a quem ela recorria para ter algum conforto e alegria na vida, e que, como ela mesmo me dissera um dia, desde o seu nascimento não lhe causara um aborrecimento sequer; minha consciência do seu isolamento, ambos os seus irmãos estando fora da Europa, e você consequentemente sendo o único que sua mãe e suas irmãs poderiam procurar, não apenas para companhia em sua dor, mas também para as maçantes responsabilidades dos entendiantes detalhes que a Morte sempre traz consigo. O mero sentido das lacrimae rerum, das lágrimas de que o mundo é feito, a tristeza de todas as coisas humanas, da conjunção destes pensamentos e emoções se amontoando em meu cérebro veio uma piedade infinita por você e por sua família. Esqueci das minhas próprias mágoas e amarguras contra você. O que você fora para mim na minha doença eu não poderia ser para você na sua adversidade.Telegrafei imediatamente com a minha profunda solidariedade,e na carta que se seguiu convidei-o para vir a minha casa tão logo pudesse. Senti que abandoná-lo naquele momento particular, e ainda formalmente através de um procurador, seria terrível demais para você.
Na sua volta a cidade vindo do local da tragédia ao qual tinha sido convocado, você veio imediatamente até mim muito docemente e muito simples,na sua roupa de luto, e com os olhos opacos pelas lágrimas. Procurou consolo e ajuda, como uma criança. Eu abri para você minha casa, meu lar, meu coração. Fiz da sua mágoa a minha, para que tivesse toda a ajuda para suportá-la. Nunca, mesmo por uma palavra sequer, aludi a sua conduta comigo, as cenas e as carta aviltantes. Sua dor, que era real, parecia lhe trazer mais para perto de mim do que jamais você havia estado. As flores que apanhou comigo para colocar na sepultura do seu irmão se tornavam um símbolo não apenas da beleza da sua vida, mas da beleza que jaz adormecida em qualquer vida e que pode ser trazida a luz...Os deuses são estranhos. Não são apenas dos nossos vícios que eles se servem para nos flagelar. Eles nos levam a ruína através do que em nós é bom, delicado, humano, afetivo. Mas não vou ficar chorando de piedade e afeição por você e pelos seus agora aqui neste lugar terrível onde estou.
Eu é claro, vejo em todas a nossa relação, não o Destino apenas, mas a Desgraça. Desgraça que anda sempre rápido, porque ela procura o derramamento de sangue. Através do seu pai você descende de uma raça com a qual o casamento é horrível, a amizade fatal, e que coloca suas mãos violentas em suas próprias vidas ou nas vidas dos outros. Em cada pequena ocasião em que os nossos caminhos se cruzaram; em cada momento mais importante ou aparentemente trivial em que você veio até mim para o prazer ou para ajuda; em cada contingência, nos pequenos acidentes que parecem em relação a vida ser nada mais do que a poeira que dança no raio de luz ou a folha que balança em uma árvore, a Ruina se apresentava como o eco de um grito sofrido ou a sombra que caça junto aos animais na espreita.

quinta-feira, 11 de junho de 2009

De Profundis (parte 9)

O fato de que a separação era definitiva me trouxe paz. Na terça-feira a febre foi embora, e pela primeira vez jantei no andar de baixo. Na quarta-feira era meu aniversário. Entre os telegramas e mensagens na minha mesa estava uma carta com sua letra. Eu a abri com uma sensação de tristeza pairando sobre mim. Sabia que o tempo em que uma frase bonita, uma expressão de afeição ou uma palavra de tristeza me fariam lhe ter de volta havia passado. Mas eu estava completamente enganado. Tinha subestimado você. A carta que você mandou no meu aniversário era uma repetição elaborada das duas cenas anteriores, e elaborada com esmero, cuidadosamente, em preto e branco! Você zombava de mim com humor vulgar. Sua única satisfação em toda a história foi, disse, que se deslocou para o Grand Hotel, e colocou o almoço na minha conta antes de partir para a cidade. Me congratulou pela prudência em ter saído da minha cama de doente na súbita descida para a sala. "Foi um momento feio seu", você disse, "mais feio do que você imagina". Ah, eu o senti bem fundo, sim. Não sei na verdade o que realmente você tinha em mente: se portava a pistola que tinha comprado para tentar amedrontar seu pai e que, pensando que estivesse descarregada, tinha disparado uma vez num restaurante junto comigo; ou se sua mão estava se movendo na direção de uma faca comum de comer que por acaso estava na mesa entre nós; ou se, esquecendo, na sua raiva da sua estatura e da sua força inferiores, tinha pensado em algum insulto mais pessoal, ou em um ataque mesmo, enquanto eu estava deitado lá doente - é difícil dizer. Até o presente momento não sei dizer. Tudo que sei é que um sentimento de horror profundo me invadiu, e senti que a não ser que deixasse o quarto imediatamente e fugisse, você teria feito, ou tentado fazer, algo que seria para você mesmo um motivo de constrangimento por toda a sua vida. Apenas uma vez antes em minha vida tinha experimentado um sentimento de horror assim em relação a outro ser humano. Foi quando na minha biblioteca em Tite Street, com suas pequenas mãos levantadas em fúria epilética, seu pai, com seu assecla ou seu amigo postado entre nós, vociferava de pé todas as palavras nefastas que sua mente maligna podia conceber, gritava as ameaças nojentas que tão habilmente ele levou a cabo depois. Neste caso, é claro, era ele quem deveria sair do ambiente primeiro. Eu o tirei de lá. No seu caso, eu sai. Não era a primeira vez que eu tinha tido que salvá-lo de você mesmo...
Você terminou a sua carta dizendo : "Quando não está no seu pedestal você não fica interessante. Da próxima vez que você ficar doente eu partirei imediatamente". Que fibra isto mostra! Que falta total de imaginação! Quão insensível tinha se tornado então seu caráter! "Quando não está no seu pedestal você não fica interessante. Da próxima vez que você ficar doente eu partirei imediatamente." Quantas vezes ouvi de novo estas palavras nas celas abjetas e solitárias das várias prisões para as quais fui mandado. Eu as repeti para mim mesmo muitas vezes, e vi nelas, espero que injustamente, parte da razão do seu estranho silêncio. Me escrever estas coisas, quando a doença e a febre que sofria tinham sido adquiridas cuidando de você, é revoltante pela vulgaridade e pela crueza; mas para qualquer ser humano deste mundo escrever assim para um outro seria um pecado para o qual não há perdão, se é que existe algum que não o mereça...
Confesso que quando terminei sua carta me senti quase maculado, como se por me associar a alguém com tal natureza tivesse manchado e envergonhado minha vida irrevocàvelmente. Eu havia na verdade feito isto, mas não saberia até seis meses depois quão completamente. Decidi voltar para Londres na sexta-feira, ir ver pessoalmente Sir George Lewis e pedir a ele que escrevesse a seu pai declarando que havia estabelecido que você não teria permissão, sob nenhuma circunstancia, para entrar na minha casa, sentar-se comigo, andar comigo, ou estar em minha companhia em qualquer tempo ou lugar. Feito isto eu escreveria a você para informá-lo sobre o curso da ação que havia tomado; as razões você inevitàvelmente saberia por você mesmo.

quarta-feira, 3 de junho de 2009

Na Multidão

Walt Whitman

Entre os homens e as mulheres, a multidão,
Percebo alguém que me escolhe por sinais secretos e divinos,
Reconhecendo ninguém (seja pai, esposa, marido, irmão ou filho) mais próximo do que eu;
Alguns ficam perplexos, mas não aquele - ele me conhece.
Ah, amante e perfeito igual!
Eu quis que você me descobrisse assim, pelas minhas sutis indicações;
E agora que lhe encontro, quero lhe descobrir pelo que é similar em você.

Tradução de Yader Marques/ 2009

Retrato de Walt Whitman

segunda-feira, 25 de maio de 2009

In Paris (2)

Dois dias depois voltei a Paris e esqueci o sonho e o estranho encontro com o homem grandalhão. Algumas semanas depois andava pela Rue du Four em direcão ao Boulevard Saint Germain e parei na esquina com a Rue Mabillon, procurando o ateliê de uma amiga modista. E lá estava ele parado do outro lado da rua, me olhando. Vestia um trench coat comprido e tinha o mesmo cachecol preto no pescoço e o mesmo chapéu marron. Me voltei e andei rápido em direção a Rue des Ciseaux, ele me seguia ainda. Eu andava agora em direcão ao Boulevar Saint Germain. Sempre soube que iria vê-lo de novo, de alguma maneira. E perdi todo o medo depois desta constatação. Parei e fiquei esperando que se aproximasse. Ele veio vindo, fez um cumprimento com a cabeça, e disse "Uma bela tarde, madame". Eu disse simplesmente "Sim". Ele replicou " Posso convidá-la para o Café de Flore?" Dei um sorriso e ele disse "Vamos?" Trazia ainda na mão o mesmo livro que eu vira com ele em Madrid. Andamos os poucos quarteirões até o Flore e sentamos em uma mesa na calçada. Pedimos porto. Ele elogiou a cor do meu suéter ( um mauve de cashmere com gola alta que eu usava com uma saia preta ) e falamos do outono e de amenidades, de música, das peças de teatro da estação, nada muito pessoal. O livro que ele colocou sobre a mesa era uma ediçao bastante antiga do Quijote. Ele chamou o garçon, pagou nossa conta, levantou-se e disse me pegando pela mão "Madame...em Paris..." Sem pensar se queria ou não ir com ele, eu fui.
Entramos em um carro preto parado próximo a esquina, o choffeur era um senhor muito sisudo, ele falou alguma coisa com o velho, e o carro correu rápido por ruas que não consigo lembrar. O senhor sem nome sentava-se bem junto de mim e abriu a folha de rosto do livro de Cervantes, um forte perfume, quente e intoxicante, que me lembrava uma praia do México na infância, impregnou o interior do carro. Senti uma sonolência pesada. Imagens de ruas, árvores e casarões se formavam e desapareciam rápido em meus olhos, misturadas a frases inintelígiveis e longas pronunciadas no acento do teatro inglês por Mr.Misterioso. Estava de repente subindo umas escadarias de pedra e chegando com ele à porta principal de uma mansão neo-gótica de pedra escura (seria nos arredores de Paris?). Um mordomo jovem e com feições do leste europeu nos conduziu a uma grande sala, e lembro de estar deitada num sofá de veludo vermelho de encosto alto. Via seu enorme corpo desabado no chão no tapete a minha frente e ele beijava meus pés descalços, tinha tirado minhas meias de seda, subia com a boca pelos tornozelos. Falava coisas que eu mal entendia, com sua voz rouca e grave: "Senhora, preciso chorar, chorar muito... Amar de novo...Poder não chorar mais... Chorar o tempo de um interlúdio"... "Uma eterna festa". Suspiros e mais sussurros ao meu ouvido: "Tempo...Tempo de festa". Lágrimas caiam pelas suas bochechas redondas. "Senhora, chorando não,,,"Para não chorar comigo nunca mais". E em tom quase solene, teatral, perguntava: "No deserto (agora ele ria) podemos ser felizes?" Havia taças de vinho quase vazias e garrafas na mesa ao lado do sofá, um concerto para piano e orquestra (Mendelsohn provàvelmente) tocava em outra sala próxima. "Senhora, vem comigo"! "As cisternas do deserto secaram todo o chôro" cantarolava agora com uma voz que ressoava pela casa toda. Eu nao me lembro de ter chorado, apenas de uma sensação de tristeza e letargia. "Vamos sonhar...no deserto, juntos" ele repetia, num tom um pouco menos dramático. Levantou-se do tapete com uns gemidos, me levantou do sofá e pegou no colo. Atravessamos várias salas com móveis pesados de madeira escura e candelabros de cristal. Tenho a impressão de ter visto empregadas nos olhando através de portas em arco entreabertas. O concerto para piano e orquestra foi ficando mais distante. Seus passos fortes ecoavam no piso de madeira polido da casa. Atravessamos uma grande porta em arco e entramos em um quarto com as cortinas de veludo quase fechadas, de um verde escuro e terroso. Ele me colocou com cuidado na cama de dossel alto de madeira , ajeitou minha cabeça em muitas almofadas marroquinas coloridas, e senti de novo suas mãos grandes e macias subindo pelas minhas pernas.

Estava novamente no deserto perto de Madri,,,, sozinha e deitada na areia quente, ouvindo sua voz e a das pessoas da filmagem em volta. Um jazz tocava alto, era Bud Powell "In Paris". Continuávamos deitados na grande cama, só que agora dentro do Blue Note, o público aplaudia com entusiasmo e nem nos olhava, apesar da cama ocupar quase toda a área das pequenas mesas do clube. Abri os olhos, fazendo um reconhecimento, e me vi em meu quarto no meu apartamento em Paris. Era de manhã cedo ainda pela luz que entrava na janela ao lado da cama. Lisette, minha empregada, entrava no quarto, silenciosa e séria como sempre fazia de manhã, perguntando se eu queria meu café. Demorei a responder, ela me olhava com seu olhar intrigado e triste. Disse que sim e peguei o roupão para ir ao toalete. Voltei de novo para a cama, ainda com uma leve tontura, e afastei a cortina um pouco, olhando a minha rua matinal e familiar, cheia de passantes e alguns carros a esta hora. Mr Desconhecido, Mr. Misterioso ou sei lá o que, acabava de desaparecer na esquina próxima. Era ele com certeza, com seu corpo avantajado de ombros largos, seu casaco esvoaçando ao vento e seu chapéu desabado na cabeça.


Yader Marques Maio/2009 Todos os direitos reservados

Orson Welles e Rita Hayworth





In Paris (1)

In Paris

por Yader Marques

Quando olhei pela vitrine do café onde estava sentada achei que ele me olhava de algum ponto atrás de mim, e desviei o rosto. Mas fiquei intrigada, olhei de novo e lá estava seu olhar fixado em mim. Já o tinha visto, lembrei instantaneamente, em alguma outro cidade, New York ou Cidade do México ou aqui mesmo em Madrid. Virei a cabeça lentamente, ele estava sentado duas mesas adiante, sozinho, com um livro aberto sobre a mesa e me encarava sorrindo discretamente. Ou teria sido em algum filme mesmo que eu o tinha visto? Sabia que era alguem famoso, um ator ou diretor talvez. Era um homem alto, encorpado, com mais de cem quilos, e com uma idade indefinida entre os quarenta e os cinquenta anos. Eu estava sozinha em Madrid, moro em Paris e ia ficar mais três dias na cidade (minha irmã veio comigo mas foi chamada pelo marido as pressas de volta a Paris, ele tivera um derrame). E normal para mim ser notada e assediada pelos homens, já sei como lidar com isto - sou de mãe mexicana e pai francês, e os homens se encantam com o que dizem ser meu ar exótico, tenho os olhos indios da minha mãe. Havia no seu olhar como que um reconhecimento misturado a um convite. Eu usava meu tailler Dior de lã leve cinza com debrum preto no casaco, perfeito para o outono de Madri, e que era quase impossivel de ser amassado. O senhor na mesa usava um blazer de lã e um cachecol preto bem displiscente (tinha uma elegância descuidada, típica dos artistas) e um chapéu de feltro marron com as abas desabadas. Arrisquei olhar de novo, ele sorriu e fez um sinal leve com a cabeça e que fingi não notar. Já tinha pago meu café e me levantei para sair, mas sem deixar de olhá-lo discretamente. Coloquei meus óculos escuros e peguei a bolsa.
A tarde estava meio fria e uma luz muita clara dava a cidade um ar fulgurante, enchendo de sombras e luzes as ruas estreitas. Acho que antes nunca tinha feito isto, encarar um homem desconhecido em público. Sou uma mulher ainda jovem, de trinta e seis anos, e meus amigos em Paris dizem que estou no apogeu da minha beleza e elegância. Fiqueii viúva há quatro anos de um médico espanhol que vivia em Paris e que morreu na saida do hospital assassinado por fanáticos de uma seita que combate remédios farmacológicos e operacões cirúrgicas. Eu o esperava no carro quando ouvi tiros, gritaria e tumulto na rua e em frente ao hospital logo depois.
Fiquei um ano pràticamente sem sair de casa depois da sua morte. Não tivemos filhos. A familia espanhola, os pais velhos e carinhosos dele, os tempos que eu e ele passamos juntos aqui, me trazem sempre de volta a Madri. Sai andando então pela Calle de Los Cañizares, movimentada as quatro da tarde, sem destino certo, para ver mais umas lojas e livrarias talvez, até a hora de voltar para a casa da familia do meu marido. Nomes vagos me vinham a cabeça associados ao homem corpulento: Mr. Arkin, Mr. Koran, Mr. Keen ...
Sai em passo rápido. Entrei pela Calle de La Magdalena, parei em frente a uma vitrine e vi que ele vinha na minha direção. Um terror leve e excitante me tomou, mas decidi que só chamaria um táxi como último recurso. Andei mais rápido, apressei o passo, e entrei de repente no saguão de um restaurante. Um garçon veio célere me levar para a mesa, mas eu disse que esperava uma pessoa. Olhei a coluna de espelhos no centro do saguão, e vi sua figura refletida, multiplicada muitas vezes. Portava um ar um tanto delicado, sutil e cuidadoso, apesar da sua imponente massa corporal. Trazia na mão o livro que eu já notara na mesa do bar, grande e pesado. Sai do saguão andando rápido e passei bem perto dele, sentindo o cheiro da loção misturada com charutos cubanos. Mas ele apenas me olhou nos olhos, sorrindo sempre, e nao me seguiu como imaginei que fizesse. Tive a impressão de ouvir sua voz grave surrurrando de leve "In Paris...Café..." Uma sensaçao de cansaço e um leve medo me fizeram pegar logo um táxi na Praça Antón Martin e ir para casa antes que a noite chegasse.
Meu marido, que gostava de jazz como eu, tinha me dado "Bud in Paris" e eu gostava de dormir ouvindo o LP (tinha visto Bud Powell em Paris no Blue Note e no Club Sain Germain também alguns anos atrás com ele). Bud ficava repetindo na vitrola até que a empregada silenciosa desligasse o Hi-Fi depois que eu caia no sono. Sonhei que estava em um deserto perto de Madri. Fui de carro com uns amigos passear, era tarde da noite e de repente estava sozinha e procurava minha bolsa na areia e não havia mais amigos por perto. Era noite mas tinha uma luminosidade intensa no ar, o céu estava iluminado por formas de asteróides e estrelas imensas que corriam de um lado para outro, de horizonte a horizonte. O homem do café vinha andando enm minha direção com o LP de Bud Powell na mão, sussurrando o tema de "Sunset" com uma voz turva e cavernosa, e me dizia baixinho no ouvido "In Paris? In Paris?" Uma filmagem estava acontecendo ali perto - com refletores, câmeras, toda uma equipe que nao estava ali antes, e o homem agora andava nervoso, gesticulava e falava entre uma multidão de pessoas.


terça-feira, 28 de abril de 2009

De Profundis (parte 8)

Falei do seu comportamento comigo durante três dias sucessivos. há três anos, não? Estava tentando terminar minha última peça, sozinho em Worthing. Tinham acabado as duas visitas que tinha me feito. De repente você apareceu uma terceira vez, trazendo junto uma companhia que pediu que ficasse na minha casa. Eu (você deve agora admitir que muito adequadamente) recusei. Lhe dei guarita, é claro. Não tinha outra opção. Mas em outro lugar, não na minha casa. No dia seguinte, uma segunda -feira, seu companheiro retornou aos deveres da sua profissão, e você ficou comigo. Entediado com Worthing e, não tenho dúvidas, com meus esforços vãos para concentrar a atenção na minha peça, a única coisa que me interessava no momento, você insistiu em ser levado para o Grande Hotel em Brighton. Na noite que chegamos você ficou doente, com aquela terrível febre baixa que é levianamente chamada de influenza, em seu segundo, talvez terceiro ataque. Não preciso lembrá-lo de como eu o atendi, cuidei de você, não apenas com pequenos luxos - frutas, flores, presentes, livros e tudo o mais que o dinheiro pode prover - mas com afeição, carinho e amor, e o que mais você possa imaginar que o dinheiro não propicia. Exceto por uma hora de caminhada pela manhã e uma hora de coche a tarde, eu não deixava o hotel nunca. Consegui uvas especiais de Londres para você, já que não gostava das que o hotel servia, inventei coisas para lhe alegrar, permaneci ou com você ou no quarto próximo ao seu, fiquei com você todas as noites para acalmá-lo ou diverti-lo.
Depois de quatro ou cinco dias você se recupera, e eu acho um lugar para tentar terminar minha peça. Você, claro, me acompanhou. Na manhã do dia seguinte, depois de nos instalarmos, me senti muito doente. Você tinha negócios para cuidar em Londres, mas prometeu voltar a tarde. Em Londres você encontrou um amigo, e não voltou a Brighton até o dia seguinte bem tarde, quando eu já estava com uma febre terrível, e o médico constata que eu pegara a gripe de você. Nada poderia ser mais desconfortável para alguém doente do que as acomodações de que eu dispunha. Minha sala era no térreo, meu quarto no terceiro andar. Não existem criados para lhe atender, nem ninguém para mandar uma mensagem, ou para comprar o que o médico receitou. Mas você esta lá. Não me sinto alarmado. Nos próximos dois dias você me deixa totalmente sozinho, sem cuidados, sem atenção, sem nada. Não se tratava de uvas, flores e presentes charmosos - era uma questão de necessidades básicas. Não conseguia nem ter o leite que o médico me receitara; uma limonada era uma coisa impossível; e quando pedi a você para procurar um livro na livraria, ou se eles não tivessem o que eu queria para procurar outra coisa, você nem se preocupou em ir lá. E consequentemente quando fui deixado todo o dia sem ter o que ler, você calmamente me diz que comprara o livro e que eles prometeram mandá-lo, uma declaração que eu descobri acidentalmente depois ser totalmente falsa do começo ao fim. E você é claro, enquanto isto, continua vivendo as minhas custas, circulando por ai, jantando no Grand Hotel, e na verdade só aparecendo no meu quarto pelo dinheiro. Sábado a noite, tendo me deixado completamente sem assistência e sozinho desde a manhã, pedi que você viesse depois do jantar ficar comigo um pouco. Com voz irritada e atitude rude você prometeu fazer isto. Espero até as onze horas e você não aparece. Deixo então um bilhete no seu quarto lhe lembrando da promessa que fizera. As três da manhã, sem conseguir dormir, e torturado pela sede, me desloquei no escuro e no frio para a sala, na esperança de encontrar lá um pouco de água. Encontrei você. E você veio para cima de mim com todas as palavras ruins que um estado de espírito destemperado, uma natureza indisciplinada e sem controle podem sugerir. Pela alquimia terrível do egoísmo você transformou seu remorso em raiva. Me acusou de egoismo por esperar que você ficasse comigo quando eu estava doente; de me colocar entre você e suas diversões; de tentar privar você dos seus prazeres. Me disse, e sei bem que é verdade, que tinha voltado a meia-noite apenas para trocar de roupa e sair de novo para onde esperava encontrar novos prazeres lhe aguardando, mas que por eu ter deixado uma carta onde lhe lembrava que havia me negligenciado todo dia e a noite também, tinha realmente lhe roubado a vontade de saborear novos folguedos. Eu voltei para cima desgostoso, sem poder dormir até de manhã, e só muito depois do amanhecer pude tomar alguma coisa para aplacar a sede da febre que me tomava. As onze horas você veio ao meu quarto. Não pude deixar de observar que na minha carta eu havia, de fato, lhe posto a prova numa noite de excessos maiores do que os usuais. De manhã você estava já razoavelmente você mesmo. Naturalmente esperei ouvir as desculpas que tinha a oferecer, de que maneira pediria o perdão que sabia estar esperando por você no seu coração, não importa o que fizesse - sua confiança absoluta de que sempre o perdoaria, sendo isto a coisa em você que eu sempre mais gostei, talvez a melhor para se gostar em você. Longe de fazer isto, você começou a repetir a mesma cena com ênfase renovada e afirmações mais violentas. Eu lhe disse claramente para deixar o quarto. Você fingiu sair, mas quando levantei a cabeça do travesseiro onde a tinha enterrado, ainda estava lá, e com riso histérico e raiva bruta andou subitamente na minha direção. Fui tomado de horror, não sei bem por que motivo; mas sai da cama imediatamente, descalço e do jeito que estava, e fiz o trajeto dos dois lances de escada até a sala de estar, onde fiquei até que o dono da casa, que eu tinha chamado, me assegurou que você tinha deixado meu quarto, e ele me prometeu ficar acessível em caso de necessidade. Depois de uma hora, durante a qual o médico veio e me encontrou, é claro, num estado de total prostração nervosa, e mais febril do que tinha estado no começo, você retornou silenciosamente pelo dinheiro. Preciso dizer o que pensei de você nos infelizes dois dias solitários da doença que se seguiram? E preciso dizer que vi claramente que seria desonroso para mim continuar mesmo uma simples relação de conhecimento com alguém como você se revelara? Que reconheci que chegara o momento final, e que ele seria um grande alívio? E que sabia que futuramente minha Arte e minha Vida seriam mais livres e mais belas sob todos os aspectos? Mesmo doente, me senti confortável.

terça-feira, 14 de abril de 2009

De Profundis (parte 7)

Eu recusei. Você chegou a Paris em uma noite de sábado bem tarde, e encontrou uma breve carta minha lhe esperando no seu hotel dizendo que não iria encontrá-lo. Na manhã seguinte recebi na rua Tite um telegrama seu de umas dez ou onze páginas. Dizia nele que não importa o que me tivesse feito, você não acreditava que me recusasse a vê-lo definitivamente - e lembrava de que para me ver mesmo que fosse por uma hora, você tinha viajado sem parar nem uma vez no caminho seis dias e noites inteiros pela Europa. Você fazia, tenho que admitir, um apelo bem patético, e terminava fazendo o que me pareceu ser uma ameaça de suicídio, e nada dissimulada. Tinha me contado também várias vezes sobre quantos indivíduos da sua família haviam manchado as mãos com o próprio sangue: seu tio certamente, e possivelmente seu avô, e muitos outros na péssima e louca linhagem a que você pertencia. Piedade, minha antiga afeição por você, consideração por sua mãe para quem sua morte em tais circunstancias teria sido um golpe duro demais para ela suportar, o horror à idéia de que uma vida tão jovem, e que mostrava ainda, entre tantos tropeços feios algumas promessas de beleza, pudesse chegar a um fim tão patético, simples consideração humanitária - tudo isto, se são necessárias desculpas, pode servir de desculpa para ter concordado em vê-lo uma última vez. Quando cheguei a Paris, suas lágrimas, irrompendo várias vezes noite adentro, e descendo pelo seu rosto como chuva, quando sentamos para jantar no Voisins e depois na ceia do Paillard, a alegria genuína que você demonstrou ao me ver, segurando a minha mão sempre que podia, como se fosse uma criança gentil e penitente - seu arrependimento, tão sincero e simples na ocasião - fizeram com que eu consentisse em renovar nossa amizade. Dois dias depois que retornamos a Londres, seu pai nos viu almoçando no Café Royal, veio para a nossa mesa, bebeu do meu vinho, e naquela tarde, através de uma carta endereçada a você, começou o primeiro ataque contra mim...
Pode parecer estranho, mas eu tinha de novo não digo a chance, mas a obrigação pesando sobre mim, de me separar de você. Nem preciso lembrar-lhe que me refiro a sua conduta comigo em Brighton de dez a treze de outubro de 1894. Três anos passados é um longo tempo para se voltar atrás. Mas nós que vivemos na prisão, e em vidas onde não existe nada além de desgosto, temos que medir o tempo pelas pulsações da dor e a memória de momentos amargos. Não temos mais nada em que pensar. O sofrimento - curioso como isto possa parecer a você - é o instrumento pelo qual existimos, por que é o único meio pelo qual ficamos conscientes de estar vivos; e a lembrança do sofrimento no passado nos é necessária como garantia, como evidência da nossa identidade continuada. Entre mim e a memória da felicidade existe um abismo não menos profundo que entre aquele existente entre mim e a felicidade na sua forma presente. Se nossa amizade fosse como o mundo a imaginava, feita simplesmente de prazer, extravagâncias e risos , eu não me lembraria de um simples momento dela. Como ela era cheia de momentos e dias trágicos, amargos, sinistros em seus avisos, tediosos ou assustadores em suas cenas monótonas e violências inusitadas, é que eu posso ver e ouvir cada um destes incidentes detalhadamente, e posso ver e ouvir na verdade pouco mais que isto. Os homens aqui neste lugar vivem tanto através da dor que a minha amizade com você, da maneira como sou forçado a me lembrar dela, sempre aparece como um prelúdio em consonância com os vários modos de angústia que tenho que encarar a cada dia, ou mesmo precisar deles - como se a minha vida, ou o que quer que ela tenha parecido a mim e aos outros, fosse uma verdadeira Sinfonia das Dores, perpassando por seus movimentos ritmicamente conectados até sua resolução final, com aquela inevitabilidade que na Arte caracteriza o tratamento de um grande tema...

segunda-feira, 6 de abril de 2009

O Bule Maluco

Bom dia!
Sou um bule de chá estranho, eu sei.
Sou o resultado de um experimento feito por um ceramista. Ele decidiu, no meio da minha feitura, deixar as marcas das suas mãos no barro e dar o trabalho por terminado. Ele é um artista experiente e bem formado, tem o direito de fazer isto, mesmo que em geral produza bules perfeitamente redondos e sem texturas.
Sou um bule feliz eu diria, inspirador e ousado. Já fui usado como bule oficial em alguns filmes também. Aquele sobre Alice (no Pais das Maravilhas) é o mais famoso de todos. Ela bebeu meia xícara do meu chá. E nem ficou com medo - aquela pequena fada loira. Também estive em um filme de horror, mas não foi muito divertida esta participação. Era muita gritaria no set, e energias estranham pairavam no lugar, o diretor era um homem muito nervoso. E quando os assistentes mexiam em mim, sem delicadeza, eu me sentia mal e tinha arrepios em meu corpo amassado. Depois de filmada a cena, fui abandonado numa prateleira em um depósito do estúdio, por alguns anos, e fiquei lá acumulando camadas de poeira. Servindo de morada para todo tipo de insetos e aranhas. Até que um dia um empregado do estúdio me viu lá, achou que eu era um ser-bule bem estranho, e de noite me levou com ele para casa.
Tive a chance de conhecer lá três outros bules, todos bem redondos e suaves, tipos normais. Eles tentaram me ignorar a principio, fingindo não me ver, e dizendo coisas a meia voz sobre mim. Depois da segunda noite já me sentia mais aceito, e depois de algumas semanas já podia me sentir parte da comunidade dos bules - e tendo ótimas relações com todo tipo de xícaras e canecas. Nao sou usado todos os dias, já que existem outros bules em atividade na casa. Mas quando sou levado a mesa fico muito feliz mesmo - gosto do chá quente dentro de mim, seu cheiro delicioso viajando pela cozinha. E a mulher da casa, eu sei que ela gosta de mim mais do que qualquer outro bule. Me segura delicadamente, e fica olhando pra mim as vezes, enquanto afasta o cabelo castanho e longo dos seus olhos. Gosto de estar com ela, especialmente a noite, quando ela vem sozinha a cozinha para tomar um chá. Gostaria de expressar à senhora meus sentimentos, mas sei que ela e o resto da familia se preocupam comigo também. Assim sou feliz por existir, por ter sido criado por aquele artista estranho e por cumprir minhas tarefas como um bule de chá. Amo vocês todos!

Yader Marques Filho
2009

The Mad Teapot

quarta-feira, 1 de abril de 2009

De Profundis (parte 6)

Ao retornar a Londres no dia seguinte me lembro de sentar no meu quarto tentando chegar a uma conclusão sobre se você era realmente ou não o que parecia, tão cheio de defeitos terríveis, tão destrutivo com você mesmo e com os outros, alguém fatal para se conhecer e para se conviver. Durante uma semana pensei nisto, e me perguntava se não estaria sendo injusto e enganado na avaliação que fazia de você. No final de semana uma carta da sua mãe chega as minhas mãos. Ela expressava totalmente os sentimentos que eu tinha em relação a você. Falava da sua vaidade cega e exagerada, que lhe levava a desprezar a sua casa, e tratar seu irmão mais velho - aquela candidissima anima - como um "tipo vulgar"; do seu temperamento que a deixava com medo de falar com você sobre a sua vida, da vida que ela sentia e sabia que estava vivendo; sobre a sua conduta em relação ao dinheiro, tão preocupante para ela sob várias maneiras, da degeneração e das mudanças que tinham acontecido em você. Ela via, claro, que a hereditariedade lhe havia deixado um legado terrível, e confessava isto com consternação - ele é "o filho meu que herdou o temperamento fatal dos Douglas", ela escreveu sobre você. No final dizia poder afirmar que sua amizade comigo havia intensificado sua vaidade de tal maneira que isto se tornara a fonte de todos os seus erros, e me implorava para que não fosse lhe encontrar no exterior. Eu respondi imediatamente, e disse que concordava com cada palavra que ela escrevera. E acrescentei algumas coisas. Fui até onde me foi possível ir. Disse a ela que origem da nossa amizade foi quando você nos seus tempos de estudante em Oxford veio me pedir para ajudá-lo em uma enrascada séria e de natureza bem especial. E disse a ela que sua vida continuava sendo atribulada da mesma maneira desde então. A razão da sua ida para a Bélgica, você havia atribuído a culpa ao seu companheiro nesta viagem, e sua mãe me censurava por ter introduzido ele a você. Eu recoloquei esta culpa nos ombros certos, os seus. Assegurei a ela, no final, que não tinha a menor intenção de lhe encontrar no exterior, e implorei a ela que tentasse manter você por lá, seja como um adido honorário, se fosse possível, ou para aprender línguas modernas, ou por qualquer outra razão, durante dois ou três anos no mínimo, para o seu bem e para o meu também.
Neste meio tempo você me escrevia de cada parada no Egito.Eu não tomei o menor conhecimento de nenhuma das suas comunicações. As lia e as rasgava. Tinha bem claro para mim que não queria mais nada com você. Tinha tomado minha decisão, e com alegria me dediquei a Arte cuja evolução eu havia permitido que você interrompesse. No final de três meses, com a sua característica falta de determinação, que na tragédia da minha vida foi um elemento não menos fatal do que a violência do seu pai, sua própria mãe me escreve - e não tenho dúvidas de que instigada por você - dizendo que estava extremamente ansioso por noticias minhas, e para que eu não tivesse desculpas para não me comunicar com você, me mandou seu endereço em Atenas - que eu, é claro, já conhecia muito bem. Confesso que fiquei totalmente perplexo com a carta. Não podia entender como, depois do que havia me escrito em dezembro e do que eu lhe havia respondido, ela tentava de algum modo consertar ou renovar minha desafortunada amizade com você. Respondi a carta, é claro, e de novo pedi a ela que tentasse lhe conectar com alguma embaixada no exterior, para evitar a sua volta a Inglaterra. Mas não escrevi a você, ou tomei mais conhecimento dos seus telegramas do que o fizera antes que sua mãe me escrevesse. Finalmente você acabou telegrafando para minha esposa suplicando que ela usasse sua influência comigo para que eu lhe escrevesse. Nossa amizade tinha sempre sido uma fonte de desgosto para ela: não apenas ela nunca gostara de você pessoalmente, mas ela via como a sua companhia constante me modificava, e não para melhor; ainda assim, como sempre fora simpática e hospitaleira com você - já que ela não admitia a possibilidade de que eu fosse desagradável de alguma maneira com qualquer um dos meus amigos. Ela achava que isto era algo estranho ao meu caráter. A pedido dela eu me comuniquei com você. Me lembro muito bem das palavras do meu telegrama. Disse que o tempo cura todas as feridas, mas que por muitos meses eu não iria nem lhe escrever e nem lhe ver. Você partiu sem demora para Paris, me mandando telegramas apaixonados no caminho pedindo que fosse vê-lo imediatamente, de qualquer maneira.

terça-feira, 31 de março de 2009

Jardim de Versos de uma Criança

A Terra dos Livros
Robert Louis Stevenson



A noite, quando a lâmpada se acende,
Meus pais ao fogo se sentam;
Em casa  cantam, conversam e ficam,
e com nada especial eles brincam.

Eu com minha pequena arma me arrasto
Ao longo da parede no escuro,
E sigo na trilha que na floresta está
E segue bem além do sofá.

Lá, na noite, onde ninguém pode espiar,
Deito no meu acampamento de caça,
E brinco com os livros lidos por mim
Até a hora de dormir enfim.

Estes são os morros, estas são as matas,
Estas são as minhas solidões estreladas;
E lá está o rio rápido a correr
Onde os leões tem água para beber.

Vejo os outros de longe
como se ao fogo da noite estivessem
E eu, como um índio, por ali andasse,
E ao redor do acampamento espiasse.

Assim, quando minha babá me procura,
Pelos mares eu volto para casa,
e vou para a cama para trás olhando
Em meu querido reino dos livros pensando.

Tradução de Yader Marques

sexta-feira, 27 de março de 2009

Robert Louis Stevenson por J. S. Sargent /1885

Jardim de Versos de uma Criança (1885)

Na Cama no Verão
Robert Louis Stevenson

No inverno eu me levanto de noite
E me visto sob a luz de uma vela linda.
No verão é bem diferente,
Tenho que ir para cama é dia ainda.

Tenho que ir para a cama e ver
Os passarinhos nas árvores cantando,
E ouvir os passos das pessoas grandes
Pela rua indo e passando.

Não parece para vocês bem duro
Quando o céu ainda esta azul e puro
E eu deveria estar brincando,
Ir com o dia ainda claro para a cama ?


A beira-mar

Quando eu estava lá a beira-mar
Me deram um pá de madeira
Para escavar na praia.
Meus buracos eram vazios como uma xícara,
e cada um deles encheu o mar,
até não terem mais espaço para o ar.

Tradução de Yader Marques

quarta-feira, 25 de março de 2009

De Profundis (parte 5)

Quando sai de Goring e fui passar duas semanas em Dinard , você ficou extremamente zangado por não lhe ter trazido comigo, e antes da minha partida de lá, no Albemarle Hotel, armou cenas deploráveis sobre o assunto, e me mandou telegramas igualmente desagradáveis para a casa de campo onde eu estava ficando uns dias. Eu lhe disse, me lembro, que achava que era seu dever ficar com os seus familiares um pouco, já que passara toda a estação longe deles. Mas, na realidade, para ser totalmente franco com você, não deveria ter deixado de maneira alguma que ficasse comigo. Estivéramos juntos por quase três meses. Eu precisava descansar e me ver livre da enorme tensão gerada pela sua companhia. Eu precisava estar comigo mesmo um pouco. Era uma necessidade intelectual. E confesso que vi na sua carta, que citei, uma ótima oportunidade para terminar a amizade fatal que tinha nascido entre nós, e terminá-la sem rancor, como eu tinha de fato tentado naquela manhã clara de junho em Goring, três meses antes. Contudo me foi colocado - digo aqui sem rodeios, por um amigo meu a quem você recorreu na sua dificuldade - que você ficaria machucado, até mesmo humilhado, ao ter seu trabalho devolvido como um exercício de colegial; que eu estava esperando demais de você intelectualmente; e que, não importa o que escrevesse ou dissesse, você era totalmente e inteiramente devotado a mim. Não queria ser o primeiro a lhe testar e desencorajá-lo na sua iniciação literária. Eu sabia muito bem que nenhuma tradução, a não ser a feita por um poeta, poderia trazer o colorido e a cadência do meu trabalho na medida certa. Devoção me parecia, e me parece ainda, uma coisa maravilhosa, e algo para não ser descartado levianamente: assim, aceitei de volta a tradução junto com você. Exatamente três meses passados, depois de uma série de cenas que culminaram em uma cena mais revoltante do que o normal, quando veio aos meus aposentos numa noite de segunda-feira acompanhado de dois amigos seus, me vi literalmente voando para o exterior na manhã seguinte para escapar de você, dando a minha família razões absurdas para a minha partida súbita, e deixando com meu empregado um endereço falso com medo de que me seguisse no próximo trem. Me lembro de pensar naquela tarde, no vagão do trem que rodava célere em direção a Paris, em como minha vida tinha se tornado algo totalmente, inequivocamente errado, quando eu um homem de reputação internacional, era na verdade forçado a deixar a Inglaterra para tentar me livrar de uma amizade que era destruidora de tudo que havia de bom em mim, tanto do ponto de vista intelectual como do ético. E a pessoa da qual eu fugia não era um ser saído do lodo ou dos esgotos para a luz do mundo atual e com a qual eu me enredara, mas era você mesmo, um jovem da minha posição social e da minha classe, que tinha frequentado minha faculdade em Oxford e era um hóspede contumaz da minha casa. Seguiram-se os usuais telegramas de apelo e de remorso: eu os deixei de lado. Finalmente você ameaçou não ir para o Egito de maneira nenhuma a não ser que eu consentisse em lhe encontrar. Eu havia, com o seu conhecimento e participação, implorado a sua mãe que lhe mandasse para o Egito, para longe da Inglaterra, já que você estava arruinando a sua vida em Londres. Eu sabia que se você não fosse seria uma decepção total para ela, e por ela eu fui ao seu encontro, sob um estado emocional intenso, que mesmo você não deve ter esquecido.Perdoei o passado, mesmo que não tenha dito nada sobre o futuro.

domingo, 22 de março de 2009

De Profundis (parte 4)

Com a autorização concedida, sua vontade passou claro a conduzir tudo. Quando deveria estar em Londres me aconselhando, e considerando calmamente a sinistra trama em que me havia permitido ser enredado - a armadilha, como diz seu pai ainda hoje - você insistiu para que eu o levasse a Monte Carlo, o lugar mais deplorável da terra, para ficar jogando durante todo o dia e toda a noite, enquanto o cassino ficasse aberto.
Quanto a mim - já que o baccarat não me seduz - fiquei de fora, sozinho comigo mesmo. Você se recusou a discutir comigo, ainda que por cinco minutos, a situação em que você e seu pai tinham me colocado. Minha função era apenas pagar suas as despesas no hotel e as suas perdas. A mais leve menção ao pesadelo que me aguardava era visto como uma chateação, apenas. Uma marca de champanhe nova que nos recomendavam era bem mais importante para você... Na nossa volta a Londres, aqueles amigos meus que queriam o meu bem imploravam para que eu fosse para o exterior, e não encarasse um julgamento impossível. Você atribuiu a eles motivos torpes ao me darem este conselho, e covardia a mim se os ouvisse. Você me forçou a ficar para, se possível, arrostar no tribunal falsos testemunhos, tolos e absurdos. No final fui preso obviamente, e seu pai virou o herói do momento. Mais do que o herói do momento na verdade: sua família agora, estranhamente, está no patamar dos Imortais - porque devido ao efeito grotesco que dá um toque gótico à história e faz de Clio a menos séria das Musas, seu pai viverá sempre entre aqueles pais de mente imaculada da literatura de escola dominical, o seu lugar é junto do Infante Samuel, e o meu no lodo mais fundo de Malebolge, entre Gilles de Rais e o Marques de Sade.
Eu deveria ter dispensado você obviamente. Deveria ter descartado você da minha vida como eliminamos da roupa um inseto que nos picou. Na mais maravilhosa de suas peças, Esquilo nos fala do grande senhor que traz um filhote de leão para casa e o ama porque ele vem subserviente receber sua comida. O animal cresce e mostra a natureza da sua raça, destruindo o senhor, sua casa, e tudo que ele possui. Me sinto exatamente como ele. Mas meu erro não foi que eu não rompi com você, foi ter rompido com você demasiadas vezes. Tanto quanto me lembro, terminava minha amizade com você regularmente a cada três meses, e cada vez que fazia isto você conseguia, seja por ameaças, telegramas, cartas, interferência dos seus amigos e dos meus amigos também, coisas assim, me induzir a aceitá-lo de volta. Quando no fim de março de 93 você deixou minha casa em Torquay, eu estava determinado a nunca mais falar consigo, ou permitir que ficasse comigo sob nenhum pretexto, de tão revoltante que foi a cena feita por você na noite anterior a sua partida. Você escreveu e telegrafou de Bristol para me pedir perdão e para encontrar comigo. Seu tutor, que já havia ficado para trás, me disse que pensava que as vezes você era bastante irresponsável quanto ao que dizia e fazia, e que a maioria das pessoas do Magdalen, se não todas, eram da mesma opinião que ele. Eu consenti em lhe encontrar, e, é claro, lhe perdoei. No caminho de volta para a cidade você me implorou para levá-lo ao Savoy. E esta foi na verdade uma visita fatal para mim.
Três meses depois, em junho, estávamos em Goring. Alguns de seus amigos de Oxford vieram para ficar de sábado até segunda-feira. Na manhã do dia em que eles foram embora você fez uma cena tão horrível e tão perturbadora que eu lhe disse que tínhamos que nos separar. Me lembro muito bem de argumentar com você que- estávamos de pé sobre o campo de críquete, com o gramado a nossa volta toda - vínhamos arruinando a vida um do outro, que você estava com toda certeza arruinando a minha e que eu não estava evidentemente lhe fazendo feliz. E que uma separação irrevogável e completa era filosoficamente a coisa certa para nós. Você partiu irracível depois do almoço, deixando com o mordomo, para me entregar depois da sua partida, uma de suas cartas mais ofensivas. Antes que se passassem três dias você estava telegrafando de Londres pedindo para ser perdoado e para retornar. Eu tinha ficado com a casa em Goring pra lhe agradar. Levei os seus próprios empregados porque você assim o quis. Sempre lamentei profundamente o péssimo temperamento do qual você era uma vitima, na verdade. Eu gostava de você. Então deixava você voltar e lhe perdoava. E três meses depois, em Setembro, novas cenas ocorreram, por ter apontado a você os enganos primários na sua tentativa de traduzir Salomé. Agora você já deve ser um scholar de francês bom o suficiente para saber que a sua tradução, para um bom oxfordiano, era tão indigna de você quanto do trabalho que você queria apresentar. Você obviamente não sabia disto na época, e numa das cartas violentas que me escreveu sobre o tema disse que "não tinha obrigação intelectual nenhuma comigo". Lembro-me de que quando li a declaração senti que era a única coisa verdadeira que você tinha me escrito durante toda a nossa amizade. Vi então que uma natureza menos cultivada do que a minha lhe seria bem mais adequada. Não digo isto com amargura, mas como um fato real do relacionamento. O vínculo de qualquer relacionamento, seja no casamento ou na amizade, é na verdade o diálogo, e o diálogo tem que ter uma base comum, e entre duas pessoas de culturas muito diferentes a única base comum possível é o nível mais baixo. A trivialidade em ações e pensamentos é encantadora.. Fiz dela a base de uma filosofia brilhante manifesta em peças e em paradoxos. Mas a frivolidade e a leviandade da nossa relação se tornavam muitas vezes cansativas para mim. Era sempre na lama que nos encontrávamos. E mesmo sendo fascinante, terrivelmente fascinante o tópico sobre o qual em geral girava sua conversa, no final ela se tornava bem monótona para mim. Ficava sempre entediado com ela, e a aceitava como aceitava sua paixão por music-halls, suas manias em comidas e bebidas extravagantes, ou qualquer uma de suas características menos atraentes, como algo que eu tinha que suportar, um preço alto que se pagava por lhe conhecer.

sexta-feira, 20 de março de 2009

De Profundis (parte3)

Quando lhe digo que entre o outono de 1892 e a data da minha prisão eu gastei junto com você e em você mais de 5000 libras em dinheiro, sem contar as contas que pagava, terá uma idéia do tipo de vida na qual você insistia. Acha que estou exagerando?Minhas despesas com você em um dia qualquer em Londres - com almoços, jantares, ceias, diversões, coches e outras coisas - iam de 12 a 20 libras, e as despesas da semana cresciam na proporção, variando entre 80 e 130 libras. Nos nossos três meses em Goring ( o aluguel incluído também) gastei 1.340 libras. E passo a passo, com o executante da falência, tive que rever cada item da minha vida. Foi horrível. "Viver simplesmente e pensar elevadamente" era, de fato, um ideal que você não conseguiria apreciar naquela época, mas tal comportamento extravagante foi uma desgraça para nós dois. Um dos jantares mais agradáveis de que me lembro foi o que tive com Robbie num pequeno café do Soho e que custou tanto em xelins tanto quanto me custavam em libras meus jantares com você. Do meu jantar com Robbie saiu o primeiro e o melhor dos meus diálogos. Titulo, idéia, tratamento, estilo, tudo foi gerado a 3 francos e 50 centavos no cardápio. Dos jantares desmedidos com você não ficou nada mais do que a sensação de que se comeu e bebeu demais. E a minha aquiescência com suas demandas era ruim para você, sabe disto agora. Tornava-lhe bem mesquinho quase sempre, inescrupuloso as vezes, e indelicado sempre. Em muitas ocasiões havia pouco prazer ou privilégio em ser seu anfitrião. Você esqueceu - não vou dizer do obrigado formal, porque cortesias formais tencionam as amizades mais intimas - mas da graça da companhia suave, do charme da conversa agradável, e de todas as gentilezas humanas que fazem da vida um prazer, e a acompanham assim como a música, mantendo as coisas afinadas e enchendo de melodias os espaços dissonantes ou silenciosos. E mesmo parecendo estranho a você que alguém na minha terrível posição encontre diferença entre uma desgraça e outra, admito francamente que a loucura de desperdiçar todo este dinheiro com você, de deixar você delapidar minha fortuna para o seu mal e para o meu, traz (ao meu próprio olhar também) uma nota de dissipação à minha falência, que me deixa duplamente envergonhado dela. Eu fui feito para outras coisas na vida.
Mas acima de tudo eu me culpo pela degradação ética total que eu permiti que você me causasse. A base do caráter é a vontade, e a minha ficou absolutamente submetida a sua. Isto soa como algo grotesco, mas é a verdade. As cenas constantes, que pareciam ser até fisicamente necessárias para você, nas quais seu corpo e sua mente ficavam retorcidos e você se transformava numa coisa horrível de se ver e de ouvir, a mania lamentável que herdou do seu pai de escrever cartas revoltantes e maldosas - a total falta de controle das emoções que demonstrava nos longos períodos de silencio depressivo e nos surtos de raiva quase epiléticos - todas estas coisas sobre as quais uma das minhas cartas para você falava (e que foi abandonada no Savoy ou em algum outro hotel e trazida a corte pelos representantes do seu pai) , trazendo uma súplica não desprovida de sentimentos - se você fosse capaz na época de reconhece-los em seus elementos ou em suas expressões - estas coisas foram o começo e a razão da minha submissão às suas demandas que cresciam a cada dia. Você me exauria. Era o triunfo da pequena alma sobre a grande, a tirania do fraco sobre o mais forte que em algum trecho das minhas peças descrevo como sendo a "única tirania que permanece".
E isto era inevitável. Em qualquer relação com os outros tem que se achar algum "moyen de vivre". Em seu caso, ou me rendia a você ou desistia de você. Não havia outra alternativa. Por afeto profundo, mesmo equivocado, por pena das suas falhas de humor e temperamento, pelo meu proverbial bom caráter e preguiça céltica, por uma aversão artística a cenas grosseiras e palavras feias, pela incapacidade de carregar comigo ressentimentos de qualquer natureza que naquela época me caracterizava, por meu desconforto em ver a vida ficar feia e sem graça pelo que, aos meus olhos voltados para outras coisas, eram apenas banalidades que não mereciam mais do que um momento de atenção - por estas razões, simples assim como possa parecer - eu sempre cedia a você. Como resultado, suas demandas, seus esforços para dominar e suas cobranças foram ficando mais desmedidos. Seus motivos mais sórdidos e apetites mais baixos, seus desejos mais banais, se tornavam a seu ver em leis pelas quais a vida dos outros devia se guiar sempre, e pelos quais, se preciso fosse, tinha que ser sacrificada sem escrúpulos. Sabendo que provocando uma cena você sempre se sairia bem, era natural que você agisse, quase inconscientemente não tenho dúvidas, com todos os excessos e violência vulgar. No final você nem sabia para onde queria ir ou o que pretendia. Tendo se apossado do meu gênio ,da minha força de vontade e das minhas posses, você, na cegueira da sua voracidade sem fim, demandava toda a minha existência. Você a tomou. Naquele momento extremo, e tragicamente, crítico da minha vida, logo antes de eu dar o lamentável passo de começar a minha absurda ação judicial, de um lado estava seu pai me atacando com mensagens repulsivas deixadas no meu clube, e de outro você me atacando com cartas não menos horrorosas. A que recebi na manhã do dia que deixei você me levar para o distrito policial para fazer o ridículo pedido de prisão do seu pai foi uma das piores que já escreveu, e pelos motivos mais vergonhosos. Entre vocês dois eu perdi a cabeça. Meu discernimento me abandonou. O terror se instalou. Não via escapatória, digo com sinceridade, de nenhum de vocês. As cegas, eu tropeçava como um boi indo para o matadouro. Cometi um erro psicológico gigantesco. Havia pensado sempre que ter cedido a você nas pequenas coisas não significava nada, que em algum um momento importante eu poderia sempre reafirmar minha força de vontade com a sua natural superioridade. Não foi assim. No momento crucial minha vontade falhou completamente - internamente não há coisas grandes ou pequenas. Todas as coisas tem valores e medidas idênticos. Meu hábito - devido grandemente a indiferença no início - de ceder a você em tudo, tinha se tornado, sem que me desse conta, parte da minha natureza. Sem saber, meu temperamento havia se estereotipado de uma maneira permanente e fatal. Assim, em seu sutil epílogo da primeira edição de seus Ensaios, Pater diz que "O fracasso gera hábitos". As pessoas pouco inspiradas de Oxford entenderam a frase como apenas uma inversão deliberada do texto, cansativo em certa medida, da Etica de Aristóteles, mas ela esconde uma verdade maravilhosa e terrível. Permitiu que você minasse a força do meu caráter, e para mim a formação de um hábito não significou apenas Fracasso, mas Ruína. Você foi ainda mais destrutivo para mim eticamente do que foi artisticamente.

domingo, 15 de março de 2009

De Profundis (parte 2)

Você pode se dar conta disto agora? Deveria ver que sua incapacidade de ficar só, sua natureza tão exigente, sempre demandando a atenção e o tempo dos outros, sua falta de qualquer poder maior de concentração intelectual ; o infeliz acidente (porque penso que não foi mais do que isto) de que você não era capaz ainda de ter o"espírito de Oxford" nas questões intelectuais, nunca chegando a ser alguém que podia brincar graciosamente com as idéias mas chegava somente a violência de opiniões - que todas estas coisas mais o fato de que seus desejos e interesses eram todos direcionados para a Vida e não para a Arte, foram tão destrutivos para seus avanços culturais como foram para o meu trabalho artístico? Quando comparo minha amizade com você com a minha amizade com homens mais jovens ainda como John Gray e Pierre Louys, eu sinto vergonha. Minha vida real era aquela, com eles e como a deles.
Nem falo no momento do resultado horrível da minha relação com você. Penso meramente sobre a sua qualidade enquanto ela durou. E era degradante para mim intelectualmente. Você tinha os rudimentos de um temperamento artístico nascente. Mas eu lhe conheci ou muito tarde ou muito cedo, não consigo ver claramente isto. Quando você estava longe eu ficava bem. No momento em que, naquele começo de dezembro do ano a que me refiro, eu consegui que sua mãe lhe mandasse para fora da Inglaterra, eu reuni de novo a trama emaranhada e retorcida da minha imaginação, retomei minha vida nas próprias mãos, e não só terminei os três últimos atos de "O Marido Ideal", mas concebi e quase completei duas outras peças de natureza completamente diferente, A Tragédia Florentina e A Santa Cortesã. Mas de repente, sem ser chamado, não-desejado, e sob circunstancias fatais para minha felicidade, você voltou. Os dois trabalhos deixados em andamento ainda, eu não pude mais retomá-los. A atmosfera que os gerou eu não consegui mais recriar. Você, agora que publicou um livro de poemas, será capaz de reconhecer a verdade de tudo que eu disse aqui. Se conseguirá ou não permanece uma verdade assustadora, no cerne da nossa relação. Enquanto esteve comigo, você foi a ruína absoluta da minha arte, e permitindo que você ficasse constantemente entre a Arte e eu mesmo, me atribuo culpa e vergonha no mais alto grau. Você não poderia saber, não poderia compreender, não poderia apreciar. E eu não poderia exigir isto de você de modo algum. Seus interesses eram apenas nas suas refeições e nas suas sensações. Seu desejo era apenas se divertir, ter prazeres comuns e menos comuns também. Eles eram o que seu temperamento precisava, ou pensava que precisava, no momento. Eu deveria ter barrado você da minha casa e dos meus aposentos, e recebe-lo a não ser quando lhe convidasse. Me culpo, sem atenuantes, pela minha fraqueza. Era apenas isto, fraqueza. Qualquer meia hora com a Arte era sempre mais para mim do que todo um tempo com você. Realmente nada, em qualquer período da minha vida, teve a menor importância quando comparado com a Arte. Mas quando se trata de um artista, a fraqueza não passa de um crime, quando é esta fraqueza que paralisa a imaginação.
Eu me lamento de novo por ter permitido que você me levasse à ruína financeira mais cabal e vergonhosa. Me lembro de uma manhã do começo de outubro de 92, sentado com sua mãe em Bracknell, nos bosques que amareleciam no outono. Naquele tempo eu sabia bem pouco sobre a sua verdadeira natureza. Tinha ficado com você de um sábado até uma segunda -feira em Oxford. Você tinha então ficado comigo dez dias em Cromer e jogado golfe. A conversa se direcionou para você, e sua mãe começou a me falar do seu caráter. Falou dos seus defeitos principais, da sua futilidade, e de você como sendo, nas palavras dela, "equivocado com dinheiro". Tenho a lembrança exata de como eu ri na ocasião. Não fazia idéia de que o primeiro defeito iria me levar a cadeia, e o segundo a falência. Eu achava a vaidade um tipo de flor charmosa para adornar um homem jovem. Quanto a extravagância - achei que ela queria dizer não mais do que isto - as virtudes da prudência e da economia não faziam parte da minha natureza ou da minha estirpe também. Mas antes que a nossa amizade completasse um mês comecei a ver o que sua mãe queria dizer na verdade. Sua insistência em uma vida de extravagâncias irresponsáveis, sua demanda constante de dinheiro, a exigência de que todos os seus prazeres fossem pagos por mim, quer você estivesse comigo ou não, me levaram depois de um tempo a sérias dificuldades financeiras. E o que tornou estas extravagâncias tão monotonamente desinteressantes para mim, a medida que seu garrote sobre a minha vida foi ficando mais forte, foi que o dinheiro era gasto em pouco mais do que os prazeres da mesa e da bebida, e outros afins. Uma vez ou outra é uma alegria ter a mesa colorida com o vermelho do vinho e das rosas, mas você extrapolou todo bom gosto e temperança. Você exigia sem delicadeza e recebia sem agradecer. Passou a achar que tinha o direito de viver as minhas custas em luxo desbragado, ao qual nunca estivera acostumado, e por isto mesmo com os seus apetites muito mais aguçados. E finalmente, se você perdia dinheiro jogando em algum cassino de Argel, simplesmente me telegrafava para Londres na manhã seguinte para que eu cobrisse as suas perdas no banco, e dava o assunto por encerrado.

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