Falei do seu comportamento comigo durante três dias sucessivos. há três anos, não? Estava tentando terminar minha última peça, sozinho em Worthing. Tinham acabado as duas visitas que tinha me feito. De repente você apareceu uma terceira vez, trazendo junto uma companhia que pediu que ficasse na minha casa. Eu (você deve agora admitir que muito adequadamente) recusei. Lhe dei guarita, é claro. Não tinha outra opção. Mas em outro lugar, não na minha casa. No dia seguinte, uma segunda -feira, seu companheiro retornou aos deveres da sua profissão, e você ficou comigo. Entediado com Worthing e, não tenho dúvidas, com meus esforços vãos para concentrar a atenção na minha peça, a única coisa que me interessava no momento, você insistiu em ser levado para o Grande Hotel em Brighton. Na noite que chegamos você ficou doente, com aquela terrível febre baixa que é levianamente chamada de influenza, em seu segundo, talvez terceiro ataque. Não preciso lembrá-lo de como eu o atendi, cuidei de você, não apenas com pequenos luxos - frutas, flores, presentes, livros e tudo o mais que o dinheiro pode prover - mas com afeição, carinho e amor, e o que mais você possa imaginar que o dinheiro não propicia. Exceto por uma hora de caminhada pela manhã e uma hora de coche a tarde, eu não deixava o hotel nunca. Consegui uvas especiais de Londres para você, já que não gostava das que o hotel servia, inventei coisas para lhe alegrar, permaneci ou com você ou no quarto próximo ao seu, fiquei com você todas as noites para acalmá-lo ou diverti-lo.
Depois de quatro ou cinco dias você se recupera, e eu acho um lugar para tentar terminar minha peça. Você, claro, me acompanhou. Na manhã do dia seguinte, depois de nos instalarmos, me senti muito doente. Você tinha negócios para cuidar em Londres, mas prometeu voltar a tarde. Em Londres você encontrou um amigo, e não voltou a Brighton até o dia seguinte bem tarde, quando eu já estava com uma febre terrível, e o médico constata que eu pegara a gripe de você. Nada poderia ser mais desconfortável para alguém doente do que as acomodações de que eu dispunha. Minha sala era no térreo, meu quarto no terceiro andar. Não existem criados para lhe atender, nem ninguém para mandar uma mensagem, ou para comprar o que o médico receitou. Mas você esta lá. Não me sinto alarmado. Nos próximos dois dias você me deixa totalmente sozinho, sem cuidados, sem atenção, sem nada. Não se tratava de uvas, flores e presentes charmosos - era uma questão de necessidades básicas. Não conseguia nem ter o leite que o médico me receitara; uma limonada era uma coisa impossível; e quando pedi a você para procurar um livro na livraria, ou se eles não tivessem o que eu queria para procurar outra coisa, você nem se preocupou em ir lá. E consequentemente quando fui deixado todo o dia sem ter o que ler, você calmamente me diz que comprara o livro e que eles prometeram mandá-lo, uma declaração que eu descobri acidentalmente depois ser totalmente falsa do começo ao fim. E você é claro, enquanto isto, continua vivendo as minhas custas, circulando por ai, jantando no Grand Hotel, e na verdade só aparecendo no meu quarto pelo dinheiro. Sábado a noite, tendo me deixado completamente sem assistência e sozinho desde a manhã, pedi que você viesse depois do jantar ficar comigo um pouco. Com voz irritada e atitude rude você prometeu fazer isto. Espero até as onze horas e você não aparece. Deixo então um bilhete no seu quarto lhe lembrando da promessa que fizera. As três da manhã, sem conseguir dormir, e torturado pela sede, me desloquei no escuro e no frio para a sala, na esperança de encontrar lá um pouco de água. Encontrei você. E você veio para cima de mim com todas as palavras ruins que um estado de espírito destemperado, uma natureza indisciplinada e sem controle podem sugerir. Pela alquimia terrível do egoísmo você transformou seu remorso em raiva. Me acusou de egoismo por esperar que você ficasse comigo quando eu estava doente; de me colocar entre você e suas diversões; de tentar privar você dos seus prazeres. Me disse, e sei bem que é verdade, que tinha voltado a meia-noite apenas para trocar de roupa e sair de novo para onde esperava encontrar novos prazeres lhe aguardando, mas que por eu ter deixado uma carta onde lhe lembrava que havia me negligenciado todo dia e a noite também, tinha realmente lhe roubado a vontade de saborear novos folguedos. Eu voltei para cima desgostoso, sem poder dormir até de manhã, e só muito depois do amanhecer pude tomar alguma coisa para aplacar a sede da febre que me tomava. As onze horas você veio ao meu quarto. Não pude deixar de observar que na minha carta eu havia, de fato, lhe posto a prova numa noite de excessos maiores do que os usuais. De manhã você estava já razoavelmente você mesmo. Naturalmente esperei ouvir as desculpas que tinha a oferecer, de que maneira pediria o perdão que sabia estar esperando por você no seu coração, não importa o que fizesse - sua confiança absoluta de que sempre o perdoaria, sendo isto a coisa em você que eu sempre mais gostei, talvez a melhor para se gostar em você. Longe de fazer isto, você começou a repetir a mesma cena com ênfase renovada e afirmações mais violentas. Eu lhe disse claramente para deixar o quarto. Você fingiu sair, mas quando levantei a cabeça do travesseiro onde a tinha enterrado, ainda estava lá, e com riso histérico e raiva bruta andou subitamente na minha direção. Fui tomado de horror, não sei bem por que motivo; mas sai da cama imediatamente, descalço e do jeito que estava, e fiz o trajeto dos dois lances de escada até a sala de estar, onde fiquei até que o dono da casa, que eu tinha chamado, me assegurou que você tinha deixado meu quarto, e ele me prometeu ficar acessível em caso de necessidade. Depois de uma hora, durante a qual o médico veio e me encontrou, é claro, num estado de total prostração nervosa, e mais febril do que tinha estado no começo, você retornou silenciosamente pelo dinheiro. Preciso dizer o que pensei de você nos infelizes dois dias solitários da doença que se seguiram? E preciso dizer que vi claramente que seria desonroso para mim continuar mesmo uma simples relação de conhecimento com alguém como você se revelara? Que reconheci que chegara o momento final, e que ele seria um grande alívio? E que sabia que futuramente minha Arte e minha Vida seriam mais livres e mais belas sob todos os aspectos? Mesmo doente, me senti confortável.