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quinta-feira, 12 de março de 2009

A Musa do Jardim
de Yader Marques


Pocket-peça em um ato para 4 personagens:

- Pianista
- Ator
- Firmina , Musa do Jardim
- Homem da platéia

A ação se passa na primeira década do ano 2000, no salão de uma mansão paulistana do começo do século XX.

O público está sentado no salão. O Pianista toca uma peça clássica de autor brasileiro. O Ator , que está sentado também, se levanta dentre o público e começa a falar.

Ator - Pare, pianista. Deixe que eu fale um pouco! Eu, que sou o elemento vivo da arte, em carne, osso, que sou sensações e desejo, me manifesto. Esta noite, estas luzes, o calor intenso , tudo me toca....Sua música é linda, ela enche nossos corações, mas deixe-me falar um pouco...

Pianista ( Ele para de tocar,,,,faz um breve silêncio e fala se voltando para o ator):
-Sim, fale, encha a sala e nossos ouvidos com o som da sua voz, palavras também são música...

Ator - Obrigado por entender. Eu vim há pouco do jardim. Fiquei um tempo lá sozinho....vendo o vento fazer barulho nas árvores, aproveitando o pouquinho de escuridão que ainda tem lá. A luz intensa da avenida não ilumina tudo! E fumei um cigarrinho lá também, daqueles especiais. Pra não deixar de ser um menino, e virar de novo um ser que procura cantos escuros pra brincar, pra pensar em monstros, em fadas e bruxas...e estava ouvindo a sua música de lá. O som do teclado brigava com o som dos carros na rua.... e eu me concentrei nele , e me fez muito bem! Era Villa-Lobos? Aí, de repente...

Pianista - Não sabia que minha música chegava até lá.

Ator - Sim, chega, mas vindo meio de longe....então fui sendo levado para décadas passadas, séculos atrás.....uma sensação de sonho! E meu olhar se fixou naquela árvore grande que tem lá, a maior. Não conseguia tirar o olho do tronco, subindo reto e forte. Ali algo me atraía. Quando uma forma estranha e leve, como um vapor, começou a sair da árvore...e foi ficando mais e mais real, incrível....

Homem da platéia (sentado) fala alto:
- Será mesmo um ator ou mais um destes loucos ai da Paulista?

- Ator - Nada....foi tudo de verdade, e vocês vão ver...
- Olhei melhor e vi uma mulher. Era jovem, de cabelos longos, envolta em um xale, ela veio andando devagar, os braços estendidos na minha direção e falando...
- (imitando uma voz feminina) "Não se assuste, eu sou Firmina, a musa deste jardim e desta casa. Preciso falar com alguém, estou sozinha aqui há tantos anos, escondida , esquecida....e quem é você, jovem?"
- (com voz normal) Eu fiquei assustado, achei que estava delirando, tendo visões, ai corri pra cá, pro o mundo de vocês, pessoas reais. E ela continuava lá, com seus braços estendidos pra mim,,,
- Ela ainda esta lá, tenho certeza! Vou chamá-la até aqui, e todos poderão ver o eu que vi.
-
O ator vai até a janela, olha o jardim, e faz um sinal, chamando:

Ator - Firmina, vem até aqui encima,,, queremos lhe ver e falar com você!

(pequeno silêncio )

Ator - Ela está vindo,,,,aguardemos....Pianista, toca um tema bonito pra atrair a musa do jardim?

O Pianista começa a tocar .

_Homem da platéia - Vamos ver se o que este cara está aprontando pra gente!

Uns segundos de música depois, batem na porta do salão.

Ator - E ela , que bom que veio! Firmina, entre por favor!

Firmina entra, andando devagar, é uma moça de cabelos longos meio desgrenhados, uma tiara de flores pequenas na cabeça, olhar perdido, num vestido longo, um xale envolvendo o colo, pés descalços,,, Para em pé, próxima do piano, olhando para todos.

Musa - Que noite! Tanta luz.....Esta casa, estas paredes,,,não entro aqui há tanto tempo... A casa cheia! Sinto de novo uma alegria! Ah, boa noite a todos, eu sou Firmina, a Musa do Jardim,,,,

Homem da platéia - Nossa, ela existe mesmo!

Ator - Fale, musa!

Musa - Obrigado rapaz, você me trouxe a luz,,,a vida.
Não sou um fantasma não, sou feita de luz,,,,de música, dos sons dos teclados e dos alaúdes, dos sons das cordas e flautas,,, sou movimento e cor!. Sou uma musa dos trópicos, nasci aqui e aqui quero viver sempre. Mas me esqueceram nos cantos do jardim,,, lá fiquei e vou ficar sempre, as musas não morrem, vocês sabem. Adormecem e ficam caladas, apenas...Tantas lembranças! Eu com minhas amigas, outras musas da cidade, crescemos brincando no Petit Trianon,, ali onde fica o Museu agora. Tenho que me adaptar aos tempos de agora! Tantas coisas novas aparecendo o tempo todo!

Ator - Como ela é linda ! E estranha....

Musa - Obrigado! Sim, tenho mais de cem anos,,,,mas como o vento e o som e as nuvens, não envelheço, apenas mudo. Nasci aqui, quando a Paulista foi aberta,,,,tão ampla e linda, cheia de ventos...e logo as acácias cresciam por toda a avenida. O novo século! E vim parar nesta casa! Estas paredes... eu lembro dos operários, dos pedreiros e dos artesãos! Da cores das tintas, das escadas e das pinturas....dos arquitetos, do cheiro de terra mexida e do mato sendo roçado! Das carroças com as toras de madeira, das serras trabalhando...
(Olhando para o Pianista)
Você no seu piano!
Toca algo de novo! Ah! A família recebendo os convidados , as noites de música, as mulheres e seus últimos modelos , seus perfumes, a tagarelice. O cheiro dos charutos e cigarros egípcios! Tanta vida!
E o cheiro bom da cozinha! As verduras e frutas da fazenda! Os licores !
As noites estreladas no jardim,,,, lembro dos moços bem vestidos e das moças com suas mães passeando no footing da avenida!
Chega a me cansar lembrar tanto...

Pianista toca novo tema no piano.

Musa - Fico triste as vezes...mas alegre também, porque nasci para a alegria! Eu fugia para a rua anos depois, no Carnaval, quando os corsos desciam a subiam a avenida .Os fordecos com as melindrosas lançando serpentina nos moços fantasiados,,, Um cheiro de verão e romance em tudo! (Canta) " Oh jardineira porque tão triste,,,,mas o que foi que te aconteceu...." Eu adorava as guerras de entrudo! E o século maravilhoso correu ...o telefone,,,o automóvel, depois o avião,,,,fuuuuuuuuuuuuu indo longe no céu! O rádio e as noticias. As duas guerras, a bancarrota do café, a tristeza.

Ator - E dos artistas você lembra? Conte mais, Firmina....

Musa - Claro,,,muitos...o Mário de Andrade no seu passo firme , sempre sozinho, carregando livros junto ao peito, de chapéu,,,,O janota do Oswald no seu conversível, cheio de moças coquetes...Aquele pintor sério do leste da Europa que já esqueci o nome. E o Brecheret sempre discreto. Até do Villa e do Di Cavalcanti, aqueles cariocas da pá virada eu lembro, andando num grupo alegre no começo da noite, logo depois da Semana de Arte Moderna, caia uma garoa fina,,,,

Ator - Queria ter visto também. Que bom que você existe e pôde ver tudo isto! Sou tão jovem,,,,

Musa - Mas tudo passa...o bom, o ruim, a desgraça, a alegria,,,,tudo passa!
(andando pela sala) E ficaram estas paredes corroídas, as goteiras, o mato crescendo sempre, o cristal embaçado das janelas .E o século vinte correndo, correndo pra onde?,,,, A guerra civil espanhola, a grande guerra,, Getúlio, a revolução de 32, , a ditadura, Juscelino , o comunismo, Picasso, a Miss Brasil,, a ditadura de novo, o rock, a bossa nova, a jovem guarda, a televisão, Os Matarazzo, Luisa Erundina, o papa polonês, a aids, a princesa Diana, a internet, e tudo mais....as raves, as novelas, mais um século chegando, o tsunami, os furacões do Caribe, agora se fala nas rodas de uma grande crise financeira,,,,
Vocês sabem, isto vocês viveram também, não?

Ator - Você é eterna, minha musa. Sim, porque você é essência, não acidente...música, não ruído....quero estar perto de você ! (anda em direção a Musa).

Musa - Sim...vem, porque você também é eterno, como a música, como eu! Jovem,,,(pausa) Você é a eterna descoberta, o sonho que renasce em cada corpo, em cada mente fresca como a madrugada, em cada cabeleira viril solta no vento, em cada volta do mundo, em cada noitada de festim que se passa olhando o céu estrelado, em cada manhã de amor de corpos jovens e elétricos. Eu estou viva, sim, e presente,,,,e você me acordou de um longo sono. Vem, dança comigo, nos juntemos à orgia da noite ...fala de tudo comigo, me ama com o amor dos poetas e dos deuses e dos sem limites...e me deixa viver para sempre em sua arte!

(Vai ao encontro do Ator, eles se dão as mãos, se olham nos olhos, e saem em direção a porta)

Ator - (Saindo de mãos dadas com Firmina e olhando para a platéia)
Vamos todos? a noite e a festa nos esperam,,,,,

A Musa do Jardim
de Yader Marques


Pocket-peça em um ato para 4 personagens:

- Pianista
- Ator
- Firmina , Musa do Jardim
- Homem da platéia

A ação se passa na primeira década do ano 2000, no salão de uma mansão paulistana do começo do século XX.

O público está sentado no salão. O Pianista toca uma peça clássica de autor brasileiro. O Ator , que está sentado também, se levanta dentre o público e começa a falar.

Ator - Pare, pianista. Deixe que eu fale um pouco! Eu, que sou o elemento vivo da arte, em carne, osso, que sou sensações e desejo, me manifesto. Esta noite, estas luzes, o calor intenso , tudo me toca....Sua música é linda, ela enche nossos corações, mas deixe-me falar um pouco...

Pianista ( Ele para de tocar,,,,faz um breve silêncio e fala se voltando para o ator):
-Sim, fale, encha a sala e nossos ouvidos com o som da sua voz, palavras também são música...

Ator - Obrigado por entender. Eu vim há pouco do jardim. Fiquei um tempo lá sozinho....vendo o vento fazer barulho nas árvores, aproveitando o pouquinho de escuridão que ainda tem lá. A luz intensa da avenida não ilumina tudo! E fumei um cigarrinho lá também. Sim,pra não deixar de ser um menino, e virar um ser que procura cantos escuros pra brincar, pra pensar em monstros, em fadas e bruxas...e estava ouvindo a sua música de lá. O som do teclado brigava com o som dos carros na rua.... e eu me concentrei nele , e me fez muito bem! Era Ravel? Aí, de repente...

Pianista - Não sabia que minha música chegava até lá.

Ator - Sim, chega, mas vindo meio de longe....então fui sendo levado para décadas passadas, séculos atrás.....uma sensação de sonho! E meu olhar se fixou naquela árvore grande que tem lá, a maior. Não conseguia tirar o olho do tronco, subindo reto e forte. Ali algo me atraía. Quando uma forma estranha e leve, como um vapor, começou a sair da árvore...e foi ficando mais e mais real, incrível....

Homem da platéia (sentado) fala alto:
- Será mesmo um ator ou mais um destes loucos ai da Paulista?
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- Ator - Nada....foi tudo de verdade, e vocês vão ver...
- Olhei melhor e vi uma mulher. Era jovem, de cabelos longos, envolta em um xale, ela veio andando devagar, os braços estendidos na minha direção e falando...
- (imitando uma voz feminina) "Não se assuste, eu sou Firmina, a musa deste jardim e desta casa. Preciso falar com alguém, estou sozinha aqui há tantos anos, escondida , esquecida....e quem é você, jovem?"
- (com voz normal) Eu fiquei assustado, achei que estava delirando, tendo visões, ai corri pra cá, pro o mundo de vocês, pessoas reais. E ela continuava lá, com seus braços estendidos pra mim,,,
- Ela ainda esta lá, tenho certeza! Vou chamá-la até aqui, e todos poderão ver o eu que vi.
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O ator vai até a janela, olha o jardim, e faz um sinal, chamando:

_ Ator - Firmina, vem até aqui encima,,, queremos lhe ver e falar com você!

(pequeno silêncio )

Ator - Ela está vindo,,,,aguardemos....Pianista, toca um tema bonito pra atrair a musa do jardim?

O Pianista começa a tocar .

_Homem da platéia - Vamos ver se o que este cara está aprontando pra gente!

Uns segundos de música depois, batem na porta do salão.

Ator - E ela , que bom que veio! Firmina, entre por favor!

Firmina entra, andando devagar, é uma moça de cabelos longos meio desgrenhados, uma tiara de flores pequenas na cabeça, olhar perdido, num vestido longo, um xale envolvendo o colo, pés descalços,,, Para em pé, próxima do piano, olhando para todos.

Musa - Que noite! Tanta luz.....Esta casa, estas paredes,,,não entro aqui há tanto tempo... A casa cheia! Sinto de novo uma alegria! Ah, boa noite a todos, eu sou Firmina, a Musa do Jardim,,,,

Homem da platéia - Nossa, ela existe mesmo!

Ator - Fale, musa!

Musa - Obrigado rapaz, você me trouxe a luz,,,a vida.
Não sou um fantasma não, sou feita de luz,,,,de música, dos sons dos teclados e dos alaúdes, dos sons das cordas e flautas,,, sou movimento e cor!. Sou uma musa dos trópicos, nasci aqui e aqui quero viver sempre. Mas me esqueceram nos cantos do jardim,,, lá fiquei e vou ficar sempre, as musas não morrem, vocês sabem. Adormecem e ficam caladas, apenas...Tantas lembranças! Eu com minhas amigas, outras musas da cidade, crescemos brincando no Petit Trianon,, ali onde fica o Museu agora. Tenho que me adaptar aos tempos de agora! Tantas coisas novas aparecendo o tempo todo!

Ator - Como ela é linda ! E estranha....

Musa - Obrigado! Sim, tenho mais de cem anos,,,,mas como o vento e o som e as nuvens, não envelheço, apenas mudo. Nasci aqui, quando a Paulista foi aberta,,,,tão ampla e linda, cheia de ventos...e logo as acácias cresciam por toda a avenida. O novo século! E vim parar nesta casa! Estas paredes... eu lembro dos operários, dos pedreiros e dos artesãos! Da cores das tintas, das escadas e das pinturas....dos arquitetos, do cheiro de terra mexida e do mato sendo roçado! Das carroças com as toras de madeira, das serras trabalhando...
(Olhando para o Pianista)
Você no seu piano!
Toca algo de novo! Ah! A família recebendo os convidados , as noites de música, as mulheres e seus últimos modelos , seus perfumes, a tagarelice. O cheiro dos charutos e cigarros egípcios! Tanta vida!
E o cheiro bom da cozinha! As verduras e frutas da fazenda! Os licores !
As noites estreladas no jardim,,,, lembro dos moços bem vestidos e das moças com suas mães passeando no footing da avenida!
Chega a me cansar lembrar tanto...

Pianista toca novo tema no piano.

Musa - Fico triste as vezes...mas alegre também, porque nasci para a alegria! Eu fugia para a rua anos depois, no Carnaval, quando os corsos desciam a subiam a avenida .Os fordecos com as melindrosas lançando serpentina nos moços fantasiados,,, Um cheiro de verão e romance em tudo! (Canta) " Oh jardineira porque tão triste,,,,mas o que foi que te aconteceu...." Eu adorava as guerras de entrudo! E o século maravilhoso correu ...o telefone,,,o automóvel, depois o avião,,,,fuuuuuuuuuuuuu indo longe no céu! O rádio e as noticias. As duas guerras, a bancarrota do café, a tristeza.

Ator - E dos artistas você lembra? Conte mais, Firmina....

Musa - Claro,,,muitos...o Mário de Andrade no seu passo firme , sempre sozinho, carregando livros junto ao peito, de chapéu,,,,O janota do Oswald no seu conversível, cheio de moças coquetes...Aquele pintor sério do leste da Europa que já esqueci o nome. E o Brecheret sempre discreto. Até do Villa e do Di Cavalcanti, aqueles cariocas da pá virada eu lembro, andando num grupo alegre no começo da noite, logo depois da Semana de Arte Moderna, caia uma garoa fina,,,,

Ator - Queria ter visto também. Que bom que você existe e pôde ver tudo isto! Sou tão jovem,,,,

Musa - Mas tudo passa...o bom, o ruim, a desgraça, a alegria,,,,tudo passa!
(andando pela sala) E ficaram estas paredes corroídas, as goteiras, o mato crescendo sempre, o cristal embaçado das janelas .E o século vinte correndo, correndo pra onde?,,,, A guerra civil espanhola, a grande guerra,, Getúlio, a revolução de 32, , a ditadura, Juscelino , o comunismo, Picasso, a Miss Brasil,, a ditadura de novo, o rock, a bossa nova, a jovem guarda, a televisão, Os Matarazzo, Luisa Erundina, o papa polonês, a aids, a princesa Diana, a internet, e tudo mais....as raves, as novelas, mais um século chegando, o tsunami, os furacões do Caribe, agora se fala nas rodas de uma grande crise financeira,,,,
Vocês sabem, isto vocês viveram também, não?

Ator - Você é eterna, minha musa. Sim, porque você é essência, não acidente...música, não ruído....quero estar perto de você ! (anda em direção a Musa).

Musa - Sim...vem, porque você também é eterno, como a música, como eu! Jovem,,,(pausa) Você é a eterna descoberta, o sonho que renasce em cada corpo, em cada mente fresca como a madrugada, em cada cabeleira viril solta no vento, em cada volta do mundo, em cada noitada de festim que se passa olhando o céu estrelado, em cada manhã de amor de corpos jovens e elétricos. Eu estou viva, sim, e presente,,,,e você me acordou de um longo sono. Vem, dança comigo, nos juntemos à orgia da noite ...fala de tudo comigo, me ama com o amor dos poetas e dos deuses e dos sem limites...e me deixa viver para sempre em sua arte!

(Vai ao encontro do Ator, eles se dão as mãos, se olham nos olhos, e saem em direção a porta)

Ator - (Saindo de mãos dadas com Firmina e olhando para a platéia)
Vamos todos? A noite e a festa nos esperam,,,,,

FIM



Yader Marques / 2008

Todos os diretos reservados

















Sarau na Avenida Paulista


Uma peça de sarau

Pequena peça de salão em um ato, criada para ser apresentada em site specific - o salão do casarão da avenida Paulista - em uma noite de sarau litero-musical, em novembro de 2008. A peça tem um caráter didático também, situando a casa paulistana sobrevivente e decadente no cenário da cidade de São Paulo e do mundo no século vinte.
A primeira apresentação teve os seguintes atores:
Pianista - Pedro Henrique Calhao
Ator - Renato Franco de Mello
Musa do Jardim - Edes Dalle Molle
Homem da platéia - Rodrigo Martinho

quarta-feira, 11 de março de 2009

De Profundis (parte 1)


Tradução de Yader Marques
Todos os direitos reservados


Prisão HM, Reading
Caro Bosie - Depois de demorada e infrutífera espera, estou determinado a escrever-lhe, em consideração tanto a você como a mim mesmo, já que não gostaria de pensar que atravessei dois longos anos encarcerado sem receber uma linha sequer sua, uma notícia ou mesmo uma mensagem, com exceção daquela que me feriu.
Nossa infeliz e malfadada amizade terminou em ruína e infâmia pública para mim, mas ainda assim a memória de nosso antigo afeto está comigo muitas vezes, e a idéia de que ódio, amargura e desdém possam tomar o lugar que no meu coração pertencia ao amor, é muito triste para mim. E você mesmo gostará de sentir no seu coração que escrever para mim, enquanto estou aqui na solidão da vida de prisioneiro, é melhor do que publicar minhas cartas sem a minha permissão ou me dedicar poemas sem me consultar, mesmo que o mundo nada saiba das palavras de paixão ou de tristeza, de remorso ou de indiferença que você escolher mandar como resposta ou pedido de consideração.
Não tenho dúvidas de que nesta carta em que tenho que escrever sobre a sua vida e sobre a minha, sobre o passado e o futuro, sobre coisas doces que ficaram amargas e coisas amargas que podem virar alegria, haverá muitas coisas que facilmente vão ferir sua vaidade. Se for assim, leia a carta muitas vezes, até matar esta sua vaidade. Se encontrar algo de que você acha que é acusado injustamente, lembre-se de que deve-se ser grato por ser acusado injustamente de alguma coisa. Se existe nela apenas uma passagem que traga lágrimas aos seus olhos, chore como choramos aqui na prisão onde o dia, não menos do que a noite, é dedicado as lágrimas. É a única coisa que pode lhe salvar. Se você for se queixar a sua mãe, como fez quando eu lhe desdenhei na minha carta ao Robbie, para que ela adule e afague as suas costas, alimentando sua auto-complacência e egoísmo, você estará completamente perdido. Se achar uma desculpa falsa pra você mesmo, logo vai achar mais outras cem, e ser exatamente o que era antes. Você ainda diz, como disse ao Robbie na sua resposta, que eu "atribui a você "motivações indignas"? Ora! Você nem tinha motivações na sua vida. Tinha apenas apetites. Uma motivação é um desejo intelectual. Que você era "muito jovem' quando nossa relação começou? Seu defeito era conhecer muito da vida , e não muito pouco. A madrugada da meninice com seu desabrochar delicado, sua luz pura e clara, sua alegria de expectativas e inocência, você já havia deixado para trás há tempo. Com passos ágeis, correndo, você havia passado do Romance para o Realismo. O esgoto e as coisas que nele vivem começavam a lhe fascinar. Esta foi a origem da enrascada na qual você procurou a minha ajuda, e eu, tão pouco sabiamente de acordo com a sensatez deste mundo, movido por piedade e gentileza, lhe amparei. Você deve ler esta carta toda, mesmo que cada palavra lhe seja como o fogo ou a faca do cirurgião que faz a carne sensível queimar ou sangrar. Lembre-se de que o louco aos olhos dos deuses e o louco aos olhos do homem são bem diferentes. Alguém que desconheça inteiramente os modos da Arte na sua revolução ou os momentos do pensamento em seu progresso, a pompa da frase latina ou a rica música do grego cheio de vogais, ou a escultura etrusca e a canção elisabetana, pode estar cheio de doce sabedoria. O verdadeiros tolo, que os deuses desprezam ou maltratam, é aquele que não conhece a si mesmo. Eu fui um destes por muito tempo. Você tem sido um destes por muito tempo. Não seja mais então. Não tenha medo. O vicio supremo é a superficialidade. Tudo que acontece está certo na verdade. Lembre-se também de que o que é penoso para você ler, é mais penoso ainda para mim colocar no papel. Para você, os Poderes Invisíveis foram muito bons, lhe permitiram ver as formas estranhas e trágicas da vida como se vêm sombras em um cristal. A cabeça de Medusa, que transforma os homens em pedra, só lhe permitiram vê-la através de um espelho, e você pode caminhar livre, num campo florido. E o de mim foi tirado belo mundo das cores e dos movimentos.
Começo dizendo a você que eu me culpo terrivelmente. Sentado aqui nesta cela escura, usando roupas de prisioneiro, um homem arruinado e desgraçado, eu me culpo. Nas noites perturbadas e sem descanso, de angústia, nos dias monótonos de dor, é a mim que eu acuso. Por deixar que uma amizade não intelectual, uma amizade cuja meta principal não era a criação e a contemplação de coisas belas, dominasse inteiramente a minha vida. Desde o começo havia um abismo enorme entre nós. Você foi negligente com a sua escola nos primeiros anos, e mais do que negligente na sua universidade. Você não se deu conta de que um artista, e especialmente um artista como eu, cuja qualidade do trabalho depende da intensificação da personalidade, precisa para desenvolver sua arte da companhia de idéias, de uma atmosfera intelectual, de silencio, paz, e de solidão também. Você admirava meu trabalho quando estava terminado, gostava do sucesso luminoso das minhas noites de estréia, e do brilho dos banquetes que as acompanhavam - ficava orgulhoso, e isto era natural, de ser o amigo íntimo de um artista tão notável. Mas você não podia entender as condições necessárias para produzir o trabalho artístico. Não estou fazendo frases de retórica exagerada, mas sendo fiel aos fatos, quando lembro a você que durante todo o tempo que estivemos juntos não escrevi sequer uma linha. Seja em Torquay, em Goring, em Londres, em Florença ou em outro lugar, enquanto você estava comigo, minha vida foi totalmente estéril e sem criações. E afora alguns intervalos, sinto dizê-lo, você estava sempre do meu lado.
Lembro-me assim apenas de um incidente, entre tantos, em setembro de 93, quando estava alugando uns aposentos somente para poder trabalhar sem perturbações, já que tinha quebrado o contrato com John Hare, para quem tinha prometido escrever uma peça, e que estava me pressionando para fazê-lo. Durante a primeira semana você ficou distante. Nós tínhamos, não sem razão, divergido sobre a validade artística da sua tradução de Salomé , e você se contentou em me mandar cartas tolas sobre o assunto. Naquela semana eu escrevi e completei, nos os mínimos detalhes e na forma em que foi encenada, o primeiro ato de Um Marido Ideal, e na segunda semana você voltou e meu trabalho teve que ser praticamente abandonado. Eu chegava a Saint James Place todas as manhãs as onze e meia, para ter a oportunidade de pensar e escrever sem as interrupções inevitáveis da minha própria casa, ainda que ela fosse calma e pacífica. Mas foi uma tentativa em vão. Ao meio dia você chegava, e ficava fumando e batendo papo até a uma e meia, quando eu tinha que lhe levar para almoçar no Café Royal ou no Berkeley. O almoço, com seus licores, geralmente ia até as três e meia. Por uma hora você se retirava para o Whites'. Na hora do chá você aparecia de novo, e ficava até a hora de se vestir para jantar.. Você jantava comigo, ou no Savoy ou na rua Tite. Nós não nos separávamos normalmente até depois da meia-noite, já que o jantar no Willis era o fecho necessário para o fascinante dia. Esta era minha vida naqueles três meses, todo santo dia, com exceção dos quatro dias em que você viajou para o exterior. E eu, claro, tive que ir a Calais lhe trazer de volta. Para alguém do meu temperamento e natureza, era uma posição grotesca e trágica ao mesmo tempo.



De Profundis é a longa carta que Oscar Wilde escreveu na prisão (Reading Gaol ) para seu amigo e amante Bosie (Lord Alfred Douglas), entre janeiro e março de 1897. A carta foi entregue a seu amigo Robert Ross, que escolheu também o título, "das profundezas". A prisão só lhe dava uma folha de papel por dia para escrever. Em 1905, alguns anos depois da morte de Oscar em Paris, foi publicada uma versão incompleta do texto, sem referencias mais pessoais a Bosie. Robert Ross doou o manuscrito da carta para o British Museum em 1909. Toda a obra de Wilde foi banida na Inglaterra no final do século dezenove e nas primeiras décadas do século vinte, e só aos poucos seu talento, sua história e seu brilho foram resgatados para as gerações atuais. O texto completo só foi publicado na Inglaterra em 1962.
O longo texto é um pungente depoimento sobre o sofrimento e a privação sofridos por um intelectual na prisão, o desnudamento espiritual de um homem colocado numa situação-limite. A carta é uma peça estilística de primeira linha que mostra o talento e a profundidade da erudição de Wilde, poeta, romancista, dramaturgo e crítico do Movimento Estético nas últimas décadas do século dezenove europeu.

Y.M. 2009

Oscar Wilde e Bosie


terça-feira, 10 de março de 2009

Retrato de Isak Dinesen - Jader Marques Filho /1997

A Aliança
Conto de Isak Dinesen

Tradução de Yader Marques
São Paulo 2009

Numa manhã de verão a cento e cinquenta anos atrás um jovem nobre dinamarquês e sua esposa sairam para dar uma volta nas suas terras. Tinham se casado há uma semana. Não tinha sido fácil para eles se casarem, porque a família da esposa tinha mais status e riqueza que a do marido. Mas os dois jovens, agora com vinte e quatro e dezenove anos de idade, tinham tomado uma decisão firme sobre este propósito há dez anos. No final seus altivos pais tiveram que se render ao desejo deles.
Eles estavam maravilhosamente felizes. Os encontros roubados e as cartas secretas, chorosas, eram agora coisas do passado. Para Deus e os homens eles agora eram um; podiam andar enlaçados a luz do dia e rodar na mesma carruagem, e andariam assim até o final dos seus dias. Seu paraíso antes tão distante havia descido à terra, e se provava, surpreendentemente, repleto das coisas do dia a dia: brincadeiras e chacotas, cafés da manhã e jantares, cachorros, preparação da palha, ovelhas. Sigismund, o jovem marido, havia prometido a si mesmo que a partir deste momento não haveria pedras no caminho da sua noiva, nem sombras a atravessá-lo. Lovisa, a esposa, sentiu que agora, a cada dia e pela primeira vez na sua jovem vida, ela se movia e respirava em perfeita liberdade, porque não poderia guardar segredos para o seu marido.
Para Lovisa - a quem seu marido chamava de Lise - a atmosfera rústica da sua nova vida era uma fonte de maravilhas e prazeres. O medo do marido de que a existência que podia oferecer a ela não fosse boa o suficiente, lhe causava apenas sorrisos na alma. Não se passara muito tempo ainda desde que ela brincava com bonecas; como agora ela penteava seu próprio cabelo, supervisionava as roupas da casa e fazia seus arranjos de flores, vivia de novo uma experiência encantadora e muito grata: fazia tudo com seriedade e solicitude, e como se estivesse brincando todo o tempo.
Era uma manhã de julho adorável. Pequenas nuvens em flocos passavam alto pelo céu e o ar estava cheio de cheiros adocicados.
Lise estava com um vestido de musselina branco e um chapéu de palha italiano largo. Ela e o marido pegaram um caminho atravessando o parque que serpenteava pelos prados, entre pequenos bosques e grupos de árvores, até o campo das ovelhas. Sigismund ia mostrar para a esposa seu rebanho. Por isto ela não havia trazido seu pequeno cão, Bijou, porque ele ia latir e assustar as ovelhas, ou então perturbar os cães pastores. Sigismund tinha orgulho do seu rebanho; ele havia estudado criação de ovelhas em Mecklenburg e na Inglaterra,
e tinha trazido de lá carneiros Cotswold para melhorar seu rebanho dinamarquês. Enquanto andavam ele explicava para Lise as grandes possibilidades e dificuldades deste plano.
Ela pensou: "Como ele é inteligente, sabe tantas coisas!" e ao mesmo tempo:"Que pessoa absurda ele é, com suas ovelhas! Que bebezão!" Sou cem anos mais velha do que ele."
Mas quando eles chegaram ao curral o velho pastor Mathias os recebeu com a triste noticia de que uma das ovelhas inglesas havia morrido e duas estavam doentes. Lise viu que seu marido ficou
aflito com estes acontecimentos: enquanto ele interrogava Mathias sobre o assunto ela ficou em silêncio e apenas tocou gentilmente em seu braço. Uma dupla de rapazes foi despachada para trazer as ovelhas doentes, enquanto o patrão e o empregado se detinham sobre detalhes do caso. Isto levou algum tempo.
Lise começou a olhar em volta e a se distrair com outras coisas. Duas vezes seus pensamentos a fizeram ficar com a face bem corada e feliz, como uma rosa vermelha, até que devagar sua cor foi indo embora, e os dois homens ainda estavam falando das ovelhas. Um tempo depois a conversa deles chamou sua atenção. Eles falavam agora sobre um ladrão de ovelhas.
Este ladrão irrompera como um lobo nos currais de ovelhas da vizinhança nos últimos meses, como um lobo ele tinha matado e arrastado as suas presas e como um lobo não deixava rastros atrás de si. Três noites antes, o pastor e o seu filho, em uma fazenda que ficava a dez milhas de distancia, o haviam surpreendido no ato. O ladrão tinha matado o homem e deixado seu filho desacordado, e conseguira escapar. Homens forram mandados para todos os cantos para pegá-lo, mas ninguém conseguiu vê-lo.
Lise queria ouvir mais sobre o terrível acontecimento, e o velho Mathias voltou a ele de novo, em sua homenagem. Tinha havido uma luta demorada no curral, e em muitos pontos o chão de terra batida ficara encharcado de sangue. Na luta o braço esquerdo do ladrão foi quebrado; mesmo assim, ele conseguira subir uma cerca alta com uma ovelha nas costas. Mathias acrescentou que ele gostaria de estrangular o ladrão com estas suas duas mãos, e Lise e balançou a cabeça gravemente em sinal de aprovação. Ela lembrou do lobo do Chapeuzinho Vermelho e sentiu um agradável arrepio correr pela sua espinha.
Sigismund tinha suas próprias ovelhas na cabeça, mas estava muito feliz consigo mesmo para desejar que alguma coisa no universo pudesse ficar mal. Depois de uns minutos ele falou: "Pobre diabo."
Lise disse: "Como pode ter pena de um homem tão terrivel? Realmente a vovó tinha razão quando disse que você era um revolucionário e um perigo para a sociedade!" O pensamento na avó e nas lágrimas de tempos passados, de novo a distraíram da história assustadora que acabara de ouvir.
Os rapazes trouxeram as ovelhas doentes e os homens começaram a examiná-las com cuidado, erguendo-as e tentando colocá-las de pé; as apertavam aqui e ali, e fizeram os pequenos seres soltarem gemidos. Lise se esquivou do espetáculo e o marido notou seu desconforto.
"Você pode ir para casa, querida", ele disse, "isto vai demorar um tempo. Mas pode ir indo devagar que eu te alcanço logo".
Assim ela foi dispensada por um marido impaciente para quem seu rebanho significava mais do que a sua esposa. Se alguma experiência pudesse ser mais doce do que ser levada por ele para olhar estas mesmas ovelhas, seria esta. Ela colocou seu grande chapéu de verão com as fitas azuis na grama e pediu a ele que o levasse de volta, porque queria sentir o ar de verão na fronte e nos cabelos. Caminhava bem lentamente, como ele lhe dissera, porque ela queria obedecê-lo em tudo. A medida que andava sentiu uma grande e nova felicidade, a de estar completamente só, mesmo sem Bijou. Não se lembrava de jamais ter estado totalmente sozinha em toda sua vida. A paisagem ao redor dela estava imóvel, como se estivesse cheia de promessas, e era toda sua. Mesmo as andorinhas cruzando o ar eram dela, porque pertenciam a ele, e ele era dela.
Ela seguiu a trilha toda em curva dos arbustos e depois de um minuto ou dois viu que estava fora da vista dos homens no curral. O que poderia agora, ponderou, ser mais agradável do que andar ao longo do caminho no longo gramado florido, devagar, bem devagar, e deixar seu marido alcança-la? Seria ainda mais doce, refletiu, se esgueirar pelo bosque e ir embora, desaparecer da face da terra para ele quando, cansado das ovelhas e querendo sua companhia, ele tomasse a curva do caminho para chegar até ela.
Uma idéia lhe veio a cabeça; ela ficou imóvel para pensar melhor.
Alguns dias antes seu marido tinha saído para uma volta e ela não tinha querido ir com ele, mas tinha andando com Bijou para explorar seus domínios. O cachorrinho, fazendo estrepolias, a havia levado direto para dentro do bosque. Quando o seguia, delicadamente forçando seu caminho entre os arbustos, tinha descoberto uma clareira no meio do mato, um espaço estreito como uma alcova, com trepadeiras de um verde intenso e brocados de ouro, grande suficiente para abrigar duas ou três pessoas lá dentro. Ela sentiu naquele momento que havia chegado ao coração do seu novo lar. Se pudesse encontrar o local novamente hoje ela permaneceria totalmente imóvel lá, escondida do mundo inteiro. Sigismund a procuraria em todas as direções; ele seria incapaz de entender o que acontecera com ela e por um minuto, por um pequeno minuto - ou, talvez, se ela fosse firme e cruel o suficiente, por cinco minutos - ele realizaria o enorme vazio, o lugar insuportavelmente triste e horrível que seria o universo quando ela não estivesse mais nele. Ela prescrutou o bosque para encontrar a entrada certa do seu esconderijo, e entrou nele.
Tomou cuidado para não fazer nenhum barulho, e então avançou bem devagarinho. Quando um graveto se agarrou nas franjas da sua saia ampla ela o soltou delicadamente, para não rasgá-lo. Um outro galho se enroscou em um dos seus longos cachos; ela ficou imóvel, com os braços levantados, para libertá-lo. Um pouco para dentro do pequeno bosque o chão ficava mais úmido; seus passos leves já não faziam nenhum som. Com uma mão ela levou seu pequeno lenço a boca, como para enfatizar o caráter secreto da sua jornada. Ela encontrou o local que procurava e se abaixou para separar a folhagem e fazer uma porta no abrigo rústico. Aí a bainha do seu vestido prendeu seu pé e ela parou para soltá-la. Quando se levantou deu de cara com um homem que já estava no abrigo.
Ele estava em pé, dois passos a frente. Ele a devia ter observado enquanto ela se dirigia direto até ele. Ela o viu todo com um simples olhar. Seu rosto estava machucado e arranhado, as mãos e os pulsos manchados de sujeira. Vestia uns trapos, descalço, com farrapos enrolados nos quadris nus. Seus braços estavam junto do corpo e sua mão direita agarrava o cabo de uma faca. Devia ter uma idade próxima da dela. O homem e a mulher se olharam.
Este encontro no bosque se deu sem palavras do começo ao fim; o que aconteceu ali poderia apenas ser representado por uma pantomima. Para os dois atores participantes foi algo sem tempo; de acordo com o relógio durou quatro minutos.
Ela nunca fora exposta ao perigo em sua vida. Não lhe ocorreu tomar consciência da sua posição, ou pensar no tempo que lhe custaria chamar seu marido ou Mathias, a quem ela neste momento podia ouvir chamando seus cachorros. Encarou o homem na sua frente como encararia um fantasma da floresta: a própria aparição, e não as suas consequencias, é o que muda o mundo para o humano que se depara com ela.
Mesmo não tirando os olhos do rosto na sua frente ela sentiu que a alcova virara um esconderijo. No chão alguns sacos formavam uma cama: havia alguns ossos mordidos encima deles. Deve ter havido um fogo durante a noite, tinha cinzas espalhadas pelo chão do bosque.
Depois de um tempo ela notou que ele a observava do mesmo modo que ela o fazia. Ele não estava mais apenas prostrado e se agachando para o salto, mas estava especulando, tentando entender. Diante disto ela parecia ver a si própria com os olhos do animal selvagem encurralado no seu esconderijo escuro: a sua figura branca silenciosamente se aproximando, o que poderia significar a morte.
Ele moveu o braço direito até que ficasse estendido na sua frente, entre as suas pernas. Sem mover a mão girou o pulso e lentamente levantou a ponta da faca até apontar para a garganta dela. O gesto foi insano, inacreditável. Ele não sorriu ao faze-lo, mas suas narinas se crisparam, os cantos de usa boca tremeram um pouco. Então, devagar, colocou a faca de volta na bainha junto ao cinto.
Ela não tinha objetos de valor consigo, apenas a aliança de casamento que seu marido havia colocado em seu dedo na igreja, há uma semana atrás. Tirou-a do dedo, e neste movimento deixou cair o lenço. Estendeu a mão com o anel em direção a ele. E não se sentia barganhando por sua vida. Era destemida por natureza, e o horror que ele lhe inspirava não era medo do que ele pudesse fazer com ela. Ela o ordenava, suplicava a ele que sumisse assim como aparecera, eliminando uma figura assustadora da sua vida, assim como se ela nunca estivesse estado lá. Neste tolo movimento sua figura jovem tinha a autoridade de uma sacerdotisa exorcizando um ser monstruoso com um sinal secreto.
Ele lentamente estendeu a mão para ela, seus dedo tocaram os dela, e sua mão ficou firme ao toque. Mas ele não pegou a aliança. Ao entregá-la, ela caiu no chão como tinha acontecido com o lenço. Por um segundo os olhos de ambos a acompanharam - rolou uns centímetros na direção dele e parou diante do seu pé descalço. Com um movimento quase imperceptível ele a chutou e olhou de novo para o rosto dela. Eles permaneceram assim, ela não saberia dizer quanto tempo, mas sentiu que durante aquele tempo algo aconteceu, as coisas mudaram.
Ele se ajoelhou e pegou o lenço. Sempre olhando para ela, tirou de novo a faca e enrolou o pequeno pedaço de cambraia ao redor da lâmina. Isto era difícil de fazer para ele, porque seu braço esquerdo estava quebrado. Enquanto o fazia, seu rosto embaixo da sujeira e do bronzeado do sol lentamente embranqueceu até ficar quase fosforecente. Tateando com as duas mãos, ele colocou de novo a faca na bainha. Ou esta bainha era muito grande e nunca fora ajustada para a faca, ou a lâmina estava muito desgastada - ela entrou.
Durante dois ou três segundos a mais seu olhar descansou no rosto dela; então levantou seu próprio rosto um pouco, a estranha emanação ainda permanecia lá, e fechou os olhos.
O movimento foi definitivo e incondicional. Com este único gesto, fez o que ela havia implorado a ele que fizesse: desapareceu e se foi. Ela estava livre.
Ela deu um passo atrás, com a face imóvel e cega na sua frente, se abaixou como fizera para entrar no esconderijo, e se esgueirou tão silenciosamente como chegara. Já fora do bosque, ficou imóvel e olhou em volta procurando a trilha no campo, achou-a e começou a caminhada para casa.
Seu marido ainda não tinha chegado a curva que circunda o bosque. Ele a viu agora e gritou para ela alegremente, se aproximou rápido e se juntou a ela.
A trilha aqui era tão estreita que ele ficava meio atrás dela e não chegava a tocá-la. E começou a lhe explicar o que tinha acontecido com as ovelhas.
Ela caminhava um passo a frente dele e pensou: "Acabou tudo".
Logo ele notou seu silêncio, e chegou a seu lado para olhá-la bem no rosto, perguntando: "O que está acontecendo?"
Ela mergulhou em sua mente procurando algo para dizer, e falou afinal: "Perdi minha aliança".
"A nossa aliança?" ele perguntou. Ela respondeu:"Sim". E ao ouvir sua própria voz pronunciar esta palavra, ela escondia o seu significado.
Sua aliança de casamento. "Com este anel - derrubado no chão por uma pessoa e chutado por outra - eu os uno." Com a aliança perdida
ela se casara com alguma coisa. Com o que? Com a pobreza, a perseguição, a solidão total. Com as atribulações e os pecados da terra. "E o que Deus assim uniu nenhum homem separe".
"Eu vou dar uma nova aliança para você" disse o marido. "Você e eu somos os mesmos que éramos no dia do nosso casamento; ela servirá igualmente. Somos marido e mulher hoje ainda, como éramos ontem, creio".
Seu rosto estava tão imobilizado que não estava certo se ela tinha ouvido o que ele tinha falado. Ficou sensibilizado com o fato dela ter levado a perda da aliança tão a sério. Pegou a mão dela e a beijou. Estava fria, não era exatamente a mesma mão que ele beijara da ultima vez.
Ele parou no caminho, para faze-la parar junto dele.
"Você se lembra de quando estava com a aliança pela última vez?"
"Não", ela respondeu.
"Tem alguma idéia" ele perguntou "de onde possa tê-la perdido?"
"Não" ela respondeu. "Não faço a menor idéia".
A Página em Branco

Conto de Isak Dinesen (do livro Last Tales)

Tradução de Yader Marques
São Paulo, 2009

No portão da cidade antiga sentava-se uma velha cor de café envelhecido, coberta com um véu preto, que ganhava a vida contando histórias.
Ela disse:
"Vocês querem uma história, caras damas e senhores? Sim, já contei muitas histórias, mais de mil, desde os tempos em que pela primeira vez deixei os jovens contarem, a mim, histórias de uma rosa vermelha, dois botões delicados, e de quatro serpentes enroscadas e sedosas, maleáveis e mortais. Foi a mãe da minha mãe , a dançarina de olhos negros, a muito desejada, que no seu final - enrugada como uma maçã no inverno e se encurvando debaixo do seu véu protetor - se dispôs a me ensinar a arte de contar histórias. A própria mãe da sua mãe a havia ensinado, e ambas eram melhores contadoras do que eu. Mas isto agora não tem mais importância, porque para as pessoas, elas e eu viramos uma só, e sou muito respeitada porque venho contando historias há duzentos anos.
Então, se ela for bem paga e estiver com disposição, ela irá em frente.
"Com a minha avó" , ela disse , "eu tive uma dura escola. 'Seja leal a história', a velha bruxa costumava me dizer. 'Seja eterna e diligentemente leal a história'. 'Porque tem que ser assim, avó?' eu perguntava. 'Devo te dar razões, traste?' ela resmungava. 'E você quer ser uma contadora de histórias! Ah senhor,, você quer ser uma contadora de histórias e eu tenho que lhe dizer os meus porquês! Ouça então: Quando o contador for leal, eternamente leal e devotado a história, no final o silêncio se fará presente. Lá onde a história for traída, o silêncio será apenas o vazio. Mas nós, que somos fiéis a ela, quando falarmos a última palavra, ouviremos a voz do silêncio. Mesmo que alguma donzela arrogante a entenda ou não!'
"Quem então" ela continuava "conta uma historia melhor do que nós? O silêncio. E onde alguém lê uma história mais profunda do que na página mais bem impressa do mais precioso livro? Na página vazia. Quando uma caneta real e galante, no seu momento mais inspirado, tiver escrito sua história com a tinta mais rara - onde poderá alguém ler uma história ainda mais profunda, mais doce, mais alegre e mais cruel do que esta? Na página em branco.
A velha bruxa não disse nada por um tempo, só cacarejou um pouco e rangeu a boca sem dentes.
"Nós" ela disse afinal, "as velhas que contam histórias, nós sabemos a história da página em branco. Mas somos aversas de certo modo a contá-la, porque isto pode, entre os não iniciados, enfraquecer nossa credibilidade. Mesmo assim, vou fazer uma exceção para vocês, minhas queridas e belas damas e cavalheiros de coração generoso. Vou contá-la para vocês."

Bem alto nas montanhas azuis de Portugal fica um velho convento da ordem das Carmelitas, que é uma ordem ilustre e austera. Nos tempos antigos o convento era rico, as irmãs eram todas damas nobres, e milagres aconteciam por lá. Mas através dos séculos as damas de alta estirpe foram ficando menos afeitas a jejuns e orações, os grandes dotes foram fluindo mais raramente para os cofres do convento, e hoje as poucas irmãs despossuidas e humildes vivem todas em uma ala da grande estrutura decadente, que parece querer se dissolver na grande rocha cinzenta. Ainda assim existe uma irmandade efervescente e ativa lá. Elas se esmeram na meditação sagrada, e se ocupam alegremente com a tarefa especial que obteve para o convento, faz muito tempo, um estranho e único privilégio: cultivam a mais fina linhaça e manufaturam o mais fino linho de Portugal.
O longo campo abaixo do convento é arado por novilhos brancos como o leite e de olhos doces, as sementes são diligentemente plantadas por mãos virginais calejadas pelo trabalho e com barro debaixo das unhas. Na época em que os campos de linhaça florescem, todo o vale fica com um tom azulado, a mesma cor do avental que a virgem abençoada vestiu para sair e catar ovos no galinheiro de Sant'Ana. Um momento apenas antes do Anjo Gabriel, com sublimes abanos de suas asas, baixar na soleira da sua casa enquanto lá bem alto uma pomba, com as penas do pescoço eriçadas e as asas vibrantes, pairava no céu como uma pequena estrela de prata. Durante este mês os camponeses, num raio de muitas milhas, levantam os olhos para os campos de linhaça e se perguntam: "O convento foi alçado ao céu? Ou nossas boas irmãzinhas conseguiram trazer o céu até elas?"
Mais tarde, no tempo certo, a linhaça é colhida, escolhida e cortada em maços; depois o delicado fio é levado ao tear e o linho é fiado, até que no final o tecido é colocado na grama para quarar, e é lavado muitas vezes até se acreditar que a neve caiu ao longo das laterais do convento.
Todo este trabalho é feito com precisão e devoção, e com tantos toques especiais e litanias quantos são os segredos do convento. Assim o linho, embalado em trouxas altas no lombo dos pequenos burros cinzentos e enviado para fora do portão do convento ladeira abaixo, e mais longe ainda para as cidades, é branco como a farinha, macio e delicado como meus pequenos pés quando, aos quatorze anos, eu os lavava no riacho para ir dançar na aldeia.
Diligência, caro Senhor e cara Senhora, é algo bom, e religião é algo bom, mas o primeiro germe de uma história virá de algum lugar místico fora da própria história. Assim o linho do Convento Velho tem sua real virtude no fato de que a primeira semente foi trazida para casa da Terra Santa por um cruzado.
Na Bíblia, quem sabe ler pode ficar inteirado das terras de Lecha e Marecha, onde a linhaça é cultivada. Eu mesma não sei ler, e nunca vi este livro de que tanto se fala. Mas a avó da minha avó quando pequena era a queridinha de um velho rabino e os ensinamentos que recebeu dele foram mantidos e passados em nossa família. Assim você lerá no livro de Josué como Acsa, a filha de Calebe, desceu do seu burro e gritou para o pai: "Me conceda uma benção! Porque o senhor me deu agora terras; dai-me também a benção das fontes de água!" E ele lhe deu as fontes terrestres e as fontes subterrâneas. E nos campos de Lecha e Marecha viveram mais tarde as famílias que produziram o melhor de todos os linhos. Nosso cruzado português, cujos próprios ancestrais tinham sido grandes tecedores de linho em Tomar, quando andava por estes campos ficou surpreendido com a qualidade da linhaça, e amarrou um saco de sementes na dianteira da sua sela.
Nestas circunstancias se originou o primeiro privilégio do convento, que era providenciar os lençóis matrimoniais para todas as jovens princesas da casa real.
Lhes informo, prezados senhores e senhoras, que no país de Portugal, nas famílias muito antigas e nobres, se observava um costume venerável. Na manhã seguinte ao casamento de uma filha da casa, antes ainda que a benção da manhã fosse concedida, o chefe do cerimonial ou mordomo chefe estendia o lençol da noite passada em um balcão e proclamava solenemente: Virginem eam tenemus - "declaramos que ela foi uma virgem". E este lençol nunca mais era lavado ou usado novamente.
Este costume tão antigo nunca foi tão estritamente observado como na casa real, e persistiu nela até a memória recente.
E o convento nas montanhas foi por muitas centenas de anos, em deferência a qualidade excelente do linho produzido, mantenedor do seu segundo grande privilégio: o de receber de volta a parte central do lençol imaculado que testemunhava a honra da noiva real.
Na alta ala principal do convento, que paira sobre uma imensa paisagem de colinas e vales, existe uma longa galeria com piso de mármore preto e branco. Nas paredes da galeria, lado a lado, ficam penduradas em uma longa fileira, molduras pesadas e trabalhadas em ouro, cada uma adornada com uma plaqueta de ouro puro onde está gravado o nome de uma princesa: Dona Cristina, Dona Inês, Dona Jacinta Leonora, Dona Maria. E cada uma destas molduras contém o recorte quadrado de um lençol de casamento real.
Dentro das marcas desbotadas das molduras as pessoas de alguma imaginação e sensibilidade podiam ler todos os sinais do zodíaco: Libra, Escorpião, Leão, Gêmeos. Ou encontravam lá figuras do seu próprio mundo imaginário: uma rosa, um coração, uma espada - ou mesmo um coração atravessado por uma espada.
Nos tempos antigos acontecia uma longa, formal e colorida procissão que serpenteava pelo cenário da montanha cor de pedra acinzentada, até o convento. Princesas de Portugal, que eram agora rainhas ou viúvas de reis de paises estrangeiros, arquiduquesas e mulheres de eleitores, e seus séquitos imponentes, seguiam pelo caminho numa peregrinação que era por natureza sagrada, e secretamente festiva também. Dos campos de linhaça para cima a estrada a estrada sobe bem inclinada; as damas reais tinham que descer das suas carruagens para serem carregadas nesta última parte do caminho em palanquins doados pelo convento para esta finalidade.
Mais tarde, mais próximamente dos nossos dias, aconteceu que - como acontece quando uma folha de papel está queimando e todas as fagulhas voaram pela margem e se apagaram, e uma ultima e brilhante aparece e corre pelo caminho das outras - uma velha dama nobre e solteirona fez a jornada até o Convento Velho. Ela tinha sido , há muito tempo atrás, companheira de brincadeiras, amiga e dama de honra de uma jovem princesa de Portugal. A medida que sobe para o convento ela olha ao redor para ver a vista se estendendo por todos os lados. Dentro do prédio uma irmã a conduz pela galeria até a placa que traz o nome da princesa a quem ela serviu, e lá a deixa, ciente do seu desejo de ficar sòzinha.
Devagar, muito devagar, uma fileira de recordações vai passando pela pequena e veneranda cabeça, já mostrando a caveira debaixo de sua manta de renda negra, e ela a move em sinais de um reconhecimento amigável destas memórias. A amiga leal e confidente se volta para o passado da elevada vida de casada da jovem noiva com o consorte real escolhido. Ela reavalia os acontecimentos alegres e os desapontamentos - coroações e jubileus, intrigas da corte e guerras, o nascimento de herdeiros do trono, as alianças de novas gerações de príncipes e princesas, a ascensão e a queda de dinastias. A velha dama relembra como uma vez , pelas marcas na tela, profecias foram feitas; agora ela poderá comparar as realização com as previsões, suspirando e sorrindo um pouco. Cada tela isolada com sua nobre placa tem uma história para contar, e cada uma foi colocada lá de acordo com esta história.
Mas no meio da longa fileira está uma tela que é diferente das outras. A sua moldura é tão refinada e pesada quanto as outras, e tão orgulhosamente quanto as outras ostenta a plaqueta dourada com a coroa real. Mas nesta placa nenhum nome está gravado, e o linho na moldura é imaculadamente branco de canto a canto, uma página em branco.
Lhes imploro, vocês pessoas de bem que gostam de ouvir histórias serem contadas: olhem para esta página, e reconheçam a sabedoria da minha avó e de todas as mulheres contadoras de histórias!
Porque com que eterna e inabalável lealdade não foi esta tela colocada na sequencia dos quadros! As próprios contadoras de histórias diante dela puxam os véus sobre seus rostos e ficam sem palavras. Porque o pai e a mãe reais que um dia ordenaram que a tela fosse emoldurada e pendurada, se não tivessem a tradição da lealdade em seu sangue, poderiam tê-la deixado de fora.
E é em frente deste pedaço de puro linho branco que as velhas princesa de Portugal - mulheres do mundo, diligentes, rainhas, esposas e mães calejadas pelo sofrimento - e suas nobres amigas e damas de honra, ficam muitas vezes imóveis.
É defronte da página em branco que velhas e jovens freiras, e a própria Madre Superiora, mergulham em pensamentos profundos.

Isak Dinesen

Isak Dinesen era o "nom de plume" da escritora dinamarquesa Karen Blixen-Finecke. Ela ficou mais conhecida em tempos recentes pelo sucesso de filmes baseados em suas obras: "Out of Africa" (Entre Dois Amores) de Sidney Pollack, de 1985 (EUA), com Merril Streep fazendo o papel dela, e "Babette's Feast "(A Festa de Babette) de Gabriel Axel, de 1987 (Dinamarca). Orson Welles fez em 1968 na França uma adaptação para a TV de seu conto "The Immortal Story" (A História Imortal), depois lançada também no cinema. Em Out of Africa ela conta sua saga no Kenya, de 1914 a 1931, onde o marido e ela tiveram uma fazenda de café. O livro pode ser considerado um clássico da autobiografia - inteligente, humano, com uma dimensão do contexto colonialista africano rara na época. Nos anos trinta, depois da falência dos negócios na África, voltou para a Dinamarca, divorciada e com a sífilis transmitida a ela pelo marido. Começou então uma nova carreira, de escritora. Seu primeiro livro publicado foi Seven Gothic Tales, em 1934, seguido de Out of Africa. Até sua morte, em 1962, publicou vários livros de contos - Winter Tales, The Angelic Avengers (sob o pseudônimo de Pierre Andrézel), Last Tales, Anedoctes of Destiny. Escreveu em inglês e em dinamarquês. Foi duas vezes candidata ao Premio Nobel de Literatura nos anos 50. Reinventou a novela gótica, com suas histórias passadas há séculos atrás, na Dinamarca e em outros lugares. Numa entrevista publicada na New York Book Review em 1957 ela disse:
"Eu não sou uma novelista, na verdade nem uma escritora, sou uma contadora de histórias. Um de meus amigos disse a meu respeito que eu acho que todas as tristezas podem existir se você as colocar numa história ou contar uma história sobre elas, e talvez isto não seja de todo falso. Para mim a explicação da vida parece ser sua melodia, a sua padronagem. E eu sinto na vida uma infinita, uma realmente inconcebível fantasia."

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