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sexta-feira, 27 de março de 2009

Robert Louis Stevenson por J. S. Sargent /1885

Jardim de Versos de uma Criança (1885)

Na Cama no Verão
Robert Louis Stevenson

No inverno eu me levanto de noite
E me visto sob a luz de uma vela linda.
No verão é bem diferente,
Tenho que ir para cama é dia ainda.

Tenho que ir para a cama e ver
Os passarinhos nas árvores cantando,
E ouvir os passos das pessoas grandes
Pela rua indo e passando.

Não parece para vocês bem duro
Quando o céu ainda esta azul e puro
E eu deveria estar brincando,
Ir com o dia ainda claro para a cama ?


A beira-mar

Quando eu estava lá a beira-mar
Me deram um pá de madeira
Para escavar na praia.
Meus buracos eram vazios como uma xícara,
e cada um deles encheu o mar,
até não terem mais espaço para o ar.

Tradução de Yader Marques

quarta-feira, 25 de março de 2009

De Profundis (parte 5)

Quando sai de Goring e fui passar duas semanas em Dinard , você ficou extremamente zangado por não lhe ter trazido comigo, e antes da minha partida de lá, no Albemarle Hotel, armou cenas deploráveis sobre o assunto, e me mandou telegramas igualmente desagradáveis para a casa de campo onde eu estava ficando uns dias. Eu lhe disse, me lembro, que achava que era seu dever ficar com os seus familiares um pouco, já que passara toda a estação longe deles. Mas, na realidade, para ser totalmente franco com você, não deveria ter deixado de maneira alguma que ficasse comigo. Estivéramos juntos por quase três meses. Eu precisava descansar e me ver livre da enorme tensão gerada pela sua companhia. Eu precisava estar comigo mesmo um pouco. Era uma necessidade intelectual. E confesso que vi na sua carta, que citei, uma ótima oportunidade para terminar a amizade fatal que tinha nascido entre nós, e terminá-la sem rancor, como eu tinha de fato tentado naquela manhã clara de junho em Goring, três meses antes. Contudo me foi colocado - digo aqui sem rodeios, por um amigo meu a quem você recorreu na sua dificuldade - que você ficaria machucado, até mesmo humilhado, ao ter seu trabalho devolvido como um exercício de colegial; que eu estava esperando demais de você intelectualmente; e que, não importa o que escrevesse ou dissesse, você era totalmente e inteiramente devotado a mim. Não queria ser o primeiro a lhe testar e desencorajá-lo na sua iniciação literária. Eu sabia muito bem que nenhuma tradução, a não ser a feita por um poeta, poderia trazer o colorido e a cadência do meu trabalho na medida certa. Devoção me parecia, e me parece ainda, uma coisa maravilhosa, e algo para não ser descartado levianamente: assim, aceitei de volta a tradução junto com você. Exatamente três meses passados, depois de uma série de cenas que culminaram em uma cena mais revoltante do que o normal, quando veio aos meus aposentos numa noite de segunda-feira acompanhado de dois amigos seus, me vi literalmente voando para o exterior na manhã seguinte para escapar de você, dando a minha família razões absurdas para a minha partida súbita, e deixando com meu empregado um endereço falso com medo de que me seguisse no próximo trem. Me lembro de pensar naquela tarde, no vagão do trem que rodava célere em direção a Paris, em como minha vida tinha se tornado algo totalmente, inequivocamente errado, quando eu um homem de reputação internacional, era na verdade forçado a deixar a Inglaterra para tentar me livrar de uma amizade que era destruidora de tudo que havia de bom em mim, tanto do ponto de vista intelectual como do ético. E a pessoa da qual eu fugia não era um ser saído do lodo ou dos esgotos para a luz do mundo atual e com a qual eu me enredara, mas era você mesmo, um jovem da minha posição social e da minha classe, que tinha frequentado minha faculdade em Oxford e era um hóspede contumaz da minha casa. Seguiram-se os usuais telegramas de apelo e de remorso: eu os deixei de lado. Finalmente você ameaçou não ir para o Egito de maneira nenhuma a não ser que eu consentisse em lhe encontrar. Eu havia, com o seu conhecimento e participação, implorado a sua mãe que lhe mandasse para o Egito, para longe da Inglaterra, já que você estava arruinando a sua vida em Londres. Eu sabia que se você não fosse seria uma decepção total para ela, e por ela eu fui ao seu encontro, sob um estado emocional intenso, que mesmo você não deve ter esquecido.Perdoei o passado, mesmo que não tenha dito nada sobre o futuro.

domingo, 22 de março de 2009

De Profundis (parte 4)

Com a autorização concedida, sua vontade passou claro a conduzir tudo. Quando deveria estar em Londres me aconselhando, e considerando calmamente a sinistra trama em que me havia permitido ser enredado - a armadilha, como diz seu pai ainda hoje - você insistiu para que eu o levasse a Monte Carlo, o lugar mais deplorável da terra, para ficar jogando durante todo o dia e toda a noite, enquanto o cassino ficasse aberto.
Quanto a mim - já que o baccarat não me seduz - fiquei de fora, sozinho comigo mesmo. Você se recusou a discutir comigo, ainda que por cinco minutos, a situação em que você e seu pai tinham me colocado. Minha função era apenas pagar suas as despesas no hotel e as suas perdas. A mais leve menção ao pesadelo que me aguardava era visto como uma chateação, apenas. Uma marca de champanhe nova que nos recomendavam era bem mais importante para você... Na nossa volta a Londres, aqueles amigos meus que queriam o meu bem imploravam para que eu fosse para o exterior, e não encarasse um julgamento impossível. Você atribuiu a eles motivos torpes ao me darem este conselho, e covardia a mim se os ouvisse. Você me forçou a ficar para, se possível, arrostar no tribunal falsos testemunhos, tolos e absurdos. No final fui preso obviamente, e seu pai virou o herói do momento. Mais do que o herói do momento na verdade: sua família agora, estranhamente, está no patamar dos Imortais - porque devido ao efeito grotesco que dá um toque gótico à história e faz de Clio a menos séria das Musas, seu pai viverá sempre entre aqueles pais de mente imaculada da literatura de escola dominical, o seu lugar é junto do Infante Samuel, e o meu no lodo mais fundo de Malebolge, entre Gilles de Rais e o Marques de Sade.
Eu deveria ter dispensado você obviamente. Deveria ter descartado você da minha vida como eliminamos da roupa um inseto que nos picou. Na mais maravilhosa de suas peças, Esquilo nos fala do grande senhor que traz um filhote de leão para casa e o ama porque ele vem subserviente receber sua comida. O animal cresce e mostra a natureza da sua raça, destruindo o senhor, sua casa, e tudo que ele possui. Me sinto exatamente como ele. Mas meu erro não foi que eu não rompi com você, foi ter rompido com você demasiadas vezes. Tanto quanto me lembro, terminava minha amizade com você regularmente a cada três meses, e cada vez que fazia isto você conseguia, seja por ameaças, telegramas, cartas, interferência dos seus amigos e dos meus amigos também, coisas assim, me induzir a aceitá-lo de volta. Quando no fim de março de 93 você deixou minha casa em Torquay, eu estava determinado a nunca mais falar consigo, ou permitir que ficasse comigo sob nenhum pretexto, de tão revoltante que foi a cena feita por você na noite anterior a sua partida. Você escreveu e telegrafou de Bristol para me pedir perdão e para encontrar comigo. Seu tutor, que já havia ficado para trás, me disse que pensava que as vezes você era bastante irresponsável quanto ao que dizia e fazia, e que a maioria das pessoas do Magdalen, se não todas, eram da mesma opinião que ele. Eu consenti em lhe encontrar, e, é claro, lhe perdoei. No caminho de volta para a cidade você me implorou para levá-lo ao Savoy. E esta foi na verdade uma visita fatal para mim.
Três meses depois, em junho, estávamos em Goring. Alguns de seus amigos de Oxford vieram para ficar de sábado até segunda-feira. Na manhã do dia em que eles foram embora você fez uma cena tão horrível e tão perturbadora que eu lhe disse que tínhamos que nos separar. Me lembro muito bem de argumentar com você que- estávamos de pé sobre o campo de críquete, com o gramado a nossa volta toda - vínhamos arruinando a vida um do outro, que você estava com toda certeza arruinando a minha e que eu não estava evidentemente lhe fazendo feliz. E que uma separação irrevogável e completa era filosoficamente a coisa certa para nós. Você partiu irracível depois do almoço, deixando com o mordomo, para me entregar depois da sua partida, uma de suas cartas mais ofensivas. Antes que se passassem três dias você estava telegrafando de Londres pedindo para ser perdoado e para retornar. Eu tinha ficado com a casa em Goring pra lhe agradar. Levei os seus próprios empregados porque você assim o quis. Sempre lamentei profundamente o péssimo temperamento do qual você era uma vitima, na verdade. Eu gostava de você. Então deixava você voltar e lhe perdoava. E três meses depois, em Setembro, novas cenas ocorreram, por ter apontado a você os enganos primários na sua tentativa de traduzir Salomé. Agora você já deve ser um scholar de francês bom o suficiente para saber que a sua tradução, para um bom oxfordiano, era tão indigna de você quanto do trabalho que você queria apresentar. Você obviamente não sabia disto na época, e numa das cartas violentas que me escreveu sobre o tema disse que "não tinha obrigação intelectual nenhuma comigo". Lembro-me de que quando li a declaração senti que era a única coisa verdadeira que você tinha me escrito durante toda a nossa amizade. Vi então que uma natureza menos cultivada do que a minha lhe seria bem mais adequada. Não digo isto com amargura, mas como um fato real do relacionamento. O vínculo de qualquer relacionamento, seja no casamento ou na amizade, é na verdade o diálogo, e o diálogo tem que ter uma base comum, e entre duas pessoas de culturas muito diferentes a única base comum possível é o nível mais baixo. A trivialidade em ações e pensamentos é encantadora.. Fiz dela a base de uma filosofia brilhante manifesta em peças e em paradoxos. Mas a frivolidade e a leviandade da nossa relação se tornavam muitas vezes cansativas para mim. Era sempre na lama que nos encontrávamos. E mesmo sendo fascinante, terrivelmente fascinante o tópico sobre o qual em geral girava sua conversa, no final ela se tornava bem monótona para mim. Ficava sempre entediado com ela, e a aceitava como aceitava sua paixão por music-halls, suas manias em comidas e bebidas extravagantes, ou qualquer uma de suas características menos atraentes, como algo que eu tinha que suportar, um preço alto que se pagava por lhe conhecer.

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