Ao retornar a Londres no dia seguinte me lembro de sentar no meu quarto tentando chegar a uma conclusão sobre se você era realmente ou não o que parecia, tão cheio de defeitos terríveis, tão destrutivo com você mesmo e com os outros, alguém fatal para se conhecer e para se conviver. Durante uma semana pensei nisto, e me perguntava se não estaria sendo injusto e enganado na avaliação que fazia de você. No final de semana uma carta da sua mãe chega as minhas mãos. Ela expressava totalmente os sentimentos que eu tinha em relação a você. Falava da sua vaidade cega e exagerada, que lhe levava a desprezar a sua casa, e tratar seu irmão mais velho - aquela candidissima anima - como um "tipo vulgar"; do seu temperamento que a deixava com medo de falar com você sobre a sua vida, da vida que ela sentia e sabia que estava vivendo; sobre a sua conduta em relação ao dinheiro, tão preocupante para ela sob várias maneiras, da degeneração e das mudanças que tinham acontecido em você. Ela via, claro, que a hereditariedade lhe havia deixado um legado terrível, e confessava isto com consternação - ele é "o filho meu que herdou o temperamento fatal dos Douglas", ela escreveu sobre você. No final dizia poder afirmar que sua amizade comigo havia intensificado sua vaidade de tal maneira que isto se tornara a fonte de todos os seus erros, e me implorava para que não fosse lhe encontrar no exterior. Eu respondi imediatamente, e disse que concordava com cada palavra que ela escrevera. E acrescentei algumas coisas. Fui até onde me foi possível ir. Disse a ela que origem da nossa amizade foi quando você nos seus tempos de estudante em Oxford veio me pedir para ajudá-lo em uma enrascada séria e de natureza bem especial. E disse a ela que sua vida continuava sendo atribulada da mesma maneira desde então. A razão da sua ida para a Bélgica, você havia atribuído a culpa ao seu companheiro nesta viagem, e sua mãe me censurava por ter introduzido ele a você. Eu recoloquei esta culpa nos ombros certos, os seus. Assegurei a ela, no final, que não tinha a menor intenção de lhe encontrar no exterior, e implorei a ela que tentasse manter você por lá, seja como um adido honorário, se fosse possível, ou para aprender línguas modernas, ou por qualquer outra razão, durante dois ou três anos no mínimo, para o seu bem e para o meu também.
Neste meio tempo você me escrevia de cada parada no Egito.Eu não tomei o menor conhecimento de nenhuma das suas comunicações. As lia e as rasgava. Tinha bem claro para mim que não queria mais nada com você. Tinha tomado minha decisão, e com alegria me dediquei a Arte cuja evolução eu havia permitido que você interrompesse. No final de três meses, com a sua característica falta de determinação, que na tragédia da minha vida foi um elemento não menos fatal do que a violência do seu pai, sua própria mãe me escreve - e não tenho dúvidas de que instigada por você - dizendo que estava extremamente ansioso por noticias minhas, e para que eu não tivesse desculpas para não me comunicar com você, me mandou seu endereço em Atenas - que eu, é claro, já conhecia muito bem. Confesso que fiquei totalmente perplexo com a carta. Não podia entender como, depois do que havia me escrito em dezembro e do que eu lhe havia respondido, ela tentava de algum modo consertar ou renovar minha desafortunada amizade com você. Respondi a carta, é claro, e de novo pedi a ela que tentasse lhe conectar com alguma embaixada no exterior, para evitar a sua volta a Inglaterra. Mas não escrevi a você, ou tomei mais conhecimento dos seus telegramas do que o fizera antes que sua mãe me escrevesse. Finalmente você acabou telegrafando para minha esposa suplicando que ela usasse sua influência comigo para que eu lhe escrevesse. Nossa amizade tinha sempre sido uma fonte de desgosto para ela: não apenas ela nunca gostara de você pessoalmente, mas ela via como a sua companhia constante me modificava, e não para melhor; ainda assim, como sempre fora simpática e hospitaleira com você - já que ela não admitia a possibilidade de que eu fosse desagradável de alguma maneira com qualquer um dos meus amigos. Ela achava que isto era algo estranho ao meu caráter. A pedido dela eu me comuniquei com você. Me lembro muito bem das palavras do meu telegrama. Disse que o tempo cura todas as feridas, mas que por muitos meses eu não iria nem lhe escrever e nem lhe ver. Você partiu sem demora para Paris, me mandando telegramas apaixonados no caminho pedindo que fosse vê-lo imediatamente, de qualquer maneira.
quarta-feira, 1 de abril de 2009
terça-feira, 31 de março de 2009
Jardim de Versos de uma Criança
A Terra dos Livros
Robert Louis Stevenson
A noite, quando a lâmpada se acende,
Meus pais ao fogo se sentam;
Em casa cantam, conversam e ficam,
e com nada especial eles brincam.
Eu com minha pequena arma me arrasto
Ao longo da parede no escuro,
E sigo na trilha que na floresta está
E segue bem além do sofá.
Lá, na noite, onde ninguém pode espiar,
Deito no meu acampamento de caça,
E brinco com os livros lidos por mim
Até a hora de dormir enfim.
Estes são os morros, estas são as matas,
Estas são as minhas solidões estreladas;
E lá está o rio rápido a correr
Onde os leões tem água para beber.
Vejo os outros de longe
como se ao fogo da noite estivessem
E eu, como um índio, por ali andasse,
E ao redor do acampamento espiasse.
Assim, quando minha babá me procura,
Pelos mares eu volto para casa,
e vou para a cama para trás olhando
Em meu querido reino dos livros pensando.
Tradução de Yader Marques
Robert Louis Stevenson
A noite, quando a lâmpada se acende,
Meus pais ao fogo se sentam;
Em casa cantam, conversam e ficam,
e com nada especial eles brincam.
Eu com minha pequena arma me arrasto
Ao longo da parede no escuro,
E sigo na trilha que na floresta está
E segue bem além do sofá.
Lá, na noite, onde ninguém pode espiar,
Deito no meu acampamento de caça,
E brinco com os livros lidos por mim
Até a hora de dormir enfim.
Estes são os morros, estas são as matas,
Estas são as minhas solidões estreladas;
E lá está o rio rápido a correr
Onde os leões tem água para beber.
Vejo os outros de longe
como se ao fogo da noite estivessem
E eu, como um índio, por ali andasse,
E ao redor do acampamento espiasse.
Assim, quando minha babá me procura,
Pelos mares eu volto para casa,
e vou para a cama para trás olhando
Em meu querido reino dos livros pensando.
Tradução de Yader Marques
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