Bom dia!
Sou um bule de chá estranho, eu sei.
Sou o resultado de um experimento feito por um ceramista. Ele decidiu, no meio da minha feitura, deixar as marcas das suas mãos no barro e dar o trabalho por terminado. Ele é um artista experiente e bem formado, tem o direito de fazer isto, mesmo que em geral produza bules perfeitamente redondos e sem texturas.
Sou um bule feliz eu diria, inspirador e ousado. Já fui usado como bule oficial em alguns filmes também. Aquele sobre Alice (no Pais das Maravilhas) é o mais famoso de todos. Ela bebeu meia xícara do meu chá. E nem ficou com medo - aquela pequena fada loira. Também estive em um filme de horror, mas não foi muito divertida esta participação. Era muita gritaria no set, e energias estranham pairavam no lugar, o diretor era um homem muito nervoso. E quando os assistentes mexiam em mim, sem delicadeza, eu me sentia mal e tinha arrepios em meu corpo amassado. Depois de filmada a cena, fui abandonado numa prateleira em um depósito do estúdio, por alguns anos, e fiquei lá acumulando camadas de poeira. Servindo de morada para todo tipo de insetos e aranhas. Até que um dia um empregado do estúdio me viu lá, achou que eu era um ser-bule bem estranho, e de noite me levou com ele para casa.
Tive a chance de conhecer lá três outros bules, todos bem redondos e suaves, tipos normais. Eles tentaram me ignorar a principio, fingindo não me ver, e dizendo coisas a meia voz sobre mim. Depois da segunda noite já me sentia mais aceito, e depois de algumas semanas já podia me sentir parte da comunidade dos bules - e tendo ótimas relações com todo tipo de xícaras e canecas. Nao sou usado todos os dias, já que existem outros bules em atividade na casa. Mas quando sou levado a mesa fico muito feliz mesmo - gosto do chá quente dentro de mim, seu cheiro delicioso viajando pela cozinha. E a mulher da casa, eu sei que ela gosta de mim mais do que qualquer outro bule. Me segura delicadamente, e fica olhando pra mim as vezes, enquanto afasta o cabelo castanho e longo dos seus olhos. Gosto de estar com ela, especialmente a noite, quando ela vem sozinha a cozinha para tomar um chá. Gostaria de expressar à senhora meus sentimentos, mas sei que ela e o resto da familia se preocupam comigo também. Assim sou feliz por existir, por ter sido criado por aquele artista estranho e por cumprir minhas tarefas como um bule de chá. Amo vocês todos!
Yader Marques Filho
2009


