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terça-feira, 14 de abril de 2009

De Profundis (parte 7)

Eu recusei. Você chegou a Paris em uma noite de sábado bem tarde, e encontrou uma breve carta minha lhe esperando no seu hotel dizendo que não iria encontrá-lo. Na manhã seguinte recebi na rua Tite um telegrama seu de umas dez ou onze páginas. Dizia nele que não importa o que me tivesse feito, você não acreditava que me recusasse a vê-lo definitivamente - e lembrava de que para me ver mesmo que fosse por uma hora, você tinha viajado sem parar nem uma vez no caminho seis dias e noites inteiros pela Europa. Você fazia, tenho que admitir, um apelo bem patético, e terminava fazendo o que me pareceu ser uma ameaça de suicídio, e nada dissimulada. Tinha me contado também várias vezes sobre quantos indivíduos da sua família haviam manchado as mãos com o próprio sangue: seu tio certamente, e possivelmente seu avô, e muitos outros na péssima e louca linhagem a que você pertencia. Piedade, minha antiga afeição por você, consideração por sua mãe para quem sua morte em tais circunstancias teria sido um golpe duro demais para ela suportar, o horror à idéia de que uma vida tão jovem, e que mostrava ainda, entre tantos tropeços feios algumas promessas de beleza, pudesse chegar a um fim tão patético, simples consideração humanitária - tudo isto, se são necessárias desculpas, pode servir de desculpa para ter concordado em vê-lo uma última vez. Quando cheguei a Paris, suas lágrimas, irrompendo várias vezes noite adentro, e descendo pelo seu rosto como chuva, quando sentamos para jantar no Voisins e depois na ceia do Paillard, a alegria genuína que você demonstrou ao me ver, segurando a minha mão sempre que podia, como se fosse uma criança gentil e penitente - seu arrependimento, tão sincero e simples na ocasião - fizeram com que eu consentisse em renovar nossa amizade. Dois dias depois que retornamos a Londres, seu pai nos viu almoçando no Café Royal, veio para a nossa mesa, bebeu do meu vinho, e naquela tarde, através de uma carta endereçada a você, começou o primeiro ataque contra mim...
Pode parecer estranho, mas eu tinha de novo não digo a chance, mas a obrigação pesando sobre mim, de me separar de você. Nem preciso lembrar-lhe que me refiro a sua conduta comigo em Brighton de dez a treze de outubro de 1894. Três anos passados é um longo tempo para se voltar atrás. Mas nós que vivemos na prisão, e em vidas onde não existe nada além de desgosto, temos que medir o tempo pelas pulsações da dor e a memória de momentos amargos. Não temos mais nada em que pensar. O sofrimento - curioso como isto possa parecer a você - é o instrumento pelo qual existimos, por que é o único meio pelo qual ficamos conscientes de estar vivos; e a lembrança do sofrimento no passado nos é necessária como garantia, como evidência da nossa identidade continuada. Entre mim e a memória da felicidade existe um abismo não menos profundo que entre aquele existente entre mim e a felicidade na sua forma presente. Se nossa amizade fosse como o mundo a imaginava, feita simplesmente de prazer, extravagâncias e risos , eu não me lembraria de um simples momento dela. Como ela era cheia de momentos e dias trágicos, amargos, sinistros em seus avisos, tediosos ou assustadores em suas cenas monótonas e violências inusitadas, é que eu posso ver e ouvir cada um destes incidentes detalhadamente, e posso ver e ouvir na verdade pouco mais que isto. Os homens aqui neste lugar vivem tanto através da dor que a minha amizade com você, da maneira como sou forçado a me lembrar dela, sempre aparece como um prelúdio em consonância com os vários modos de angústia que tenho que encarar a cada dia, ou mesmo precisar deles - como se a minha vida, ou o que quer que ela tenha parecido a mim e aos outros, fosse uma verdadeira Sinfonia das Dores, perpassando por seus movimentos ritmicamente conectados até sua resolução final, com aquela inevitabilidade que na Arte caracteriza o tratamento de um grande tema...

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