Dois dias depois voltei a Paris e esqueci o sonho e o estranho encontro com o homem grandalhão. Algumas semanas depois andava pela Rue du Four em direcão ao Boulevard Saint Germain e parei na esquina com a Rue Mabillon, procurando o ateliê de uma amiga modista. E lá estava ele parado do outro lado da rua, me olhando. Vestia um trench coat comprido e tinha o mesmo cachecol preto no pescoço e o mesmo chapéu marron. Me voltei e andei rápido em direção a Rue des Ciseaux, ele me seguia ainda. Eu andava agora em direcão ao Boulevar Saint Germain. Sempre soube que iria vê-lo de novo, de alguma maneira. E perdi todo o medo depois desta constatação. Parei e fiquei esperando que se aproximasse. Ele veio vindo, fez um cumprimento com a cabeça, e disse "Uma bela tarde, madame". Eu disse simplesmente "Sim". Ele replicou " Posso convidá-la para o Café de Flore?" Dei um sorriso e ele disse "Vamos?" Trazia ainda na mão o mesmo livro que eu vira com ele em Madrid. Andamos os poucos quarteirões até o Flore e sentamos em uma mesa na calçada. Pedimos porto. Ele elogiou a cor do meu suéter ( um mauve de cashmere com gola alta que eu usava com uma saia preta ) e falamos do outono e de amenidades, de música, das peças de teatro da estação, nada muito pessoal. O livro que ele colocou sobre a mesa era uma ediçao bastante antiga do Quijote. Ele chamou o garçon, pagou nossa conta, levantou-se e disse me pegando pela mão "Madame...em Paris..." Sem pensar se queria ou não ir com ele, eu fui.
Entramos em um carro preto parado próximo a esquina, o choffeur era um senhor muito sisudo, ele falou alguma coisa com o velho, e o carro correu rápido por ruas que não consigo lembrar. O senhor sem nome sentava-se bem junto de mim e abriu a folha de rosto do livro de Cervantes, um forte perfume, quente e intoxicante, que me lembrava uma praia do México na infância, impregnou o interior do carro. Senti uma sonolência pesada. Imagens de ruas, árvores e casarões se formavam e desapareciam rápido em meus olhos, misturadas a frases inintelígiveis e longas pronunciadas no acento do teatro inglês por Mr.Misterioso. Estava de repente subindo umas escadarias de pedra e chegando com ele à porta principal de uma mansão neo-gótica de pedra escura (seria nos arredores de Paris?). Um mordomo jovem e com feições do leste europeu nos conduziu a uma grande sala, e lembro de estar deitada num sofá de veludo vermelho de encosto alto. Via seu enorme corpo desabado no chão no tapete a minha frente e ele beijava meus pés descalços, tinha tirado minhas meias de seda, subia com a boca pelos tornozelos. Falava coisas que eu mal entendia, com sua voz rouca e grave: "Senhora, preciso chorar, chorar muito... Amar de novo...Poder não chorar mais... Chorar o tempo de um interlúdio"... "Uma eterna festa". Suspiros e mais sussurros ao meu ouvido: "Tempo...Tempo de festa". Lágrimas caiam pelas suas bochechas redondas. "Senhora, chorando não,,,"Para não chorar comigo nunca mais". E em tom quase solene, teatral, perguntava: "No deserto (agora ele ria) podemos ser felizes?" Havia taças de vinho quase vazias e garrafas na mesa ao lado do sofá, um concerto para piano e orquestra (Mendelsohn provàvelmente) tocava em outra sala próxima. "Senhora, vem comigo"! "As cisternas do deserto secaram todo o chôro" cantarolava agora com uma voz que ressoava pela casa toda. Eu nao me lembro de ter chorado, apenas de uma sensação de tristeza e letargia. "Vamos sonhar...no deserto, juntos" ele repetia, num tom um pouco menos dramático. Levantou-se do tapete com uns gemidos, me levantou do sofá e pegou no colo. Atravessamos várias salas com móveis pesados de madeira escura e candelabros de cristal. Tenho a impressão de ter visto empregadas nos olhando através de portas em arco entreabertas. O concerto para piano e orquestra foi ficando mais distante. Seus passos fortes ecoavam no piso de madeira polido da casa. Atravessamos uma grande porta em arco e entramos em um quarto com as cortinas de veludo quase fechadas, de um verde escuro e terroso. Ele me colocou com cuidado na cama de dossel alto de madeira , ajeitou minha cabeça em muitas almofadas marroquinas coloridas, e senti de novo suas mãos grandes e macias subindo pelas minhas pernas.
Estava novamente no deserto perto de Madri,,,, sozinha e deitada na areia quente, ouvindo sua voz e a das pessoas da filmagem em volta. Um jazz tocava alto, era Bud Powell "In Paris". Continuávamos deitados na grande cama, só que agora dentro do Blue Note, o público aplaudia com entusiasmo e nem nos olhava, apesar da cama ocupar quase toda a área das pequenas mesas do clube. Abri os olhos, fazendo um reconhecimento, e me vi em meu quarto no meu apartamento em Paris. Era de manhã cedo ainda pela luz que entrava na janela ao lado da cama. Lisette, minha empregada, entrava no quarto, silenciosa e séria como sempre fazia de manhã, perguntando se eu queria meu café. Demorei a responder, ela me olhava com seu olhar intrigado e triste. Disse que sim e peguei o roupão para ir ao toalete. Voltei de novo para a cama, ainda com uma leve tontura, e afastei a cortina um pouco, olhando a minha rua matinal e familiar, cheia de passantes e alguns carros a esta hora. Mr Desconhecido, Mr. Misterioso ou sei lá o que, acabava de desaparecer na esquina próxima. Era ele com certeza, com seu corpo avantajado de ombros largos, seu casaco esvoaçando ao vento e seu chapéu desabado na cabeça.
Yader Marques Maio/2009 Todos os direitos reservados
segunda-feira, 25 de maio de 2009
In Paris (1)
In Paris
por Yader Marques
Quando olhei pela vitrine do café onde estava sentada achei que ele me olhava de algum ponto atrás de mim, e desviei o rosto. Mas fiquei intrigada, olhei de novo e lá estava seu olhar fixado em mim. Já o tinha visto, lembrei instantaneamente, em alguma outro cidade, New York ou Cidade do México ou aqui mesmo em Madrid. Virei a cabeça lentamente, ele estava sentado duas mesas adiante, sozinho, com um livro aberto sobre a mesa e me encarava sorrindo discretamente. Ou teria sido em algum filme mesmo que eu o tinha visto? Sabia que era alguem famoso, um ator ou diretor talvez. Era um homem alto, encorpado, com mais de cem quilos, e com uma idade indefinida entre os quarenta e os cinquenta anos. Eu estava sozinha em Madrid, moro em Paris e ia ficar mais três dias na cidade (minha irmã veio comigo mas foi chamada pelo marido as pressas de volta a Paris, ele tivera um derrame). E normal para mim ser notada e assediada pelos homens, já sei como lidar com isto - sou de mãe mexicana e pai francês, e os homens se encantam com o que dizem ser meu ar exótico, tenho os olhos indios da minha mãe. Havia no seu olhar como que um reconhecimento misturado a um convite. Eu usava meu tailler Dior de lã leve cinza com debrum preto no casaco, perfeito para o outono de Madri, e que era quase impossivel de ser amassado. O senhor na mesa usava um blazer de lã e um cachecol preto bem displiscente (tinha uma elegância descuidada, típica dos artistas) e um chapéu de feltro marron com as abas desabadas. Arrisquei olhar de novo, ele sorriu e fez um sinal leve com a cabeça e que fingi não notar. Já tinha pago meu café e me levantei para sair, mas sem deixar de olhá-lo discretamente. Coloquei meus óculos escuros e peguei a bolsa.
A tarde estava meio fria e uma luz muita clara dava a cidade um ar fulgurante, enchendo de sombras e luzes as ruas estreitas. Acho que antes nunca tinha feito isto, encarar um homem desconhecido em público. Sou uma mulher ainda jovem, de trinta e seis anos, e meus amigos em Paris dizem que estou no apogeu da minha beleza e elegância. Fiqueii viúva há quatro anos de um médico espanhol que vivia em Paris e que morreu na saida do hospital assassinado por fanáticos de uma seita que combate remédios farmacológicos e operacões cirúrgicas. Eu o esperava no carro quando ouvi tiros, gritaria e tumulto na rua e em frente ao hospital logo depois. Fiquei um ano pràticamente sem sair de casa depois da sua morte. Não tivemos filhos. A familia espanhola, os pais velhos e carinhosos dele, os tempos que eu e ele passamos juntos aqui, me trazem sempre de volta a Madri. Sai andando então pela Calle de Los Cañizares, movimentada as quatro da tarde, sem destino certo, para ver mais umas lojas e livrarias talvez, até a hora de voltar para a casa da familia do meu marido. Nomes vagos me vinham a cabeça associados ao homem corpulento: Mr. Arkin, Mr. Koran, Mr. Keen ...
Sai em passo rápido. Entrei pela Calle de La Magdalena, parei em frente a uma vitrine e vi que ele vinha na minha direção. Um terror leve e excitante me tomou, mas decidi que só chamaria um táxi como último recurso. Andei mais rápido, apressei o passo, e entrei de repente no saguão de um restaurante. Um garçon veio célere me levar para a mesa, mas eu disse que esperava uma pessoa. Olhei a coluna de espelhos no centro do saguão, e vi sua figura refletida, multiplicada muitas vezes. Portava um ar um tanto delicado, sutil e cuidadoso, apesar da sua imponente massa corporal. Trazia na mão o livro que eu já notara na mesa do bar, grande e pesado. Sai do saguão andando rápido e passei bem perto dele, sentindo o cheiro da loção misturada com charutos cubanos. Mas ele apenas me olhou nos olhos, sorrindo sempre, e nao me seguiu como imaginei que fizesse. Tive a impressão de ouvir sua voz grave surrurrando de leve "In Paris...Café..." Uma sensaçao de cansaço e um leve medo me fizeram pegar logo um táxi na Praça Antón Martin e ir para casa antes que a noite chegasse.
Meu marido, que gostava de jazz como eu, tinha me dado "Bud in Paris" e eu gostava de dormir ouvindo o LP (tinha visto Bud Powell em Paris no Blue Note e no Club Sain Germain também alguns anos atrás com ele). Bud ficava repetindo na vitrola até que a empregada silenciosa desligasse o Hi-Fi depois que eu caia no sono. Sonhei que estava em um deserto perto de Madri. Fui de carro com uns amigos passear, era tarde da noite e de repente estava sozinha e procurava minha bolsa na areia e não havia mais amigos por perto. Era noite mas tinha uma luminosidade intensa no ar, o céu estava iluminado por formas de asteróides e estrelas imensas que corriam de um lado para outro, de horizonte a horizonte. O homem do café vinha andando enm minha direção com o LP de Bud Powell na mão, sussurrando o tema de "Sunset" com uma voz turva e cavernosa, e me dizia baixinho no ouvido "In Paris? In Paris?" Uma filmagem estava acontecendo ali perto - com refletores, câmeras, toda uma equipe que nao estava ali antes, e o homem agora andava nervoso, gesticulava e falava entre uma multidão de pessoas.
por Yader Marques
Quando olhei pela vitrine do café onde estava sentada achei que ele me olhava de algum ponto atrás de mim, e desviei o rosto. Mas fiquei intrigada, olhei de novo e lá estava seu olhar fixado em mim. Já o tinha visto, lembrei instantaneamente, em alguma outro cidade, New York ou Cidade do México ou aqui mesmo em Madrid. Virei a cabeça lentamente, ele estava sentado duas mesas adiante, sozinho, com um livro aberto sobre a mesa e me encarava sorrindo discretamente. Ou teria sido em algum filme mesmo que eu o tinha visto? Sabia que era alguem famoso, um ator ou diretor talvez. Era um homem alto, encorpado, com mais de cem quilos, e com uma idade indefinida entre os quarenta e os cinquenta anos. Eu estava sozinha em Madrid, moro em Paris e ia ficar mais três dias na cidade (minha irmã veio comigo mas foi chamada pelo marido as pressas de volta a Paris, ele tivera um derrame). E normal para mim ser notada e assediada pelos homens, já sei como lidar com isto - sou de mãe mexicana e pai francês, e os homens se encantam com o que dizem ser meu ar exótico, tenho os olhos indios da minha mãe. Havia no seu olhar como que um reconhecimento misturado a um convite. Eu usava meu tailler Dior de lã leve cinza com debrum preto no casaco, perfeito para o outono de Madri, e que era quase impossivel de ser amassado. O senhor na mesa usava um blazer de lã e um cachecol preto bem displiscente (tinha uma elegância descuidada, típica dos artistas) e um chapéu de feltro marron com as abas desabadas. Arrisquei olhar de novo, ele sorriu e fez um sinal leve com a cabeça e que fingi não notar. Já tinha pago meu café e me levantei para sair, mas sem deixar de olhá-lo discretamente. Coloquei meus óculos escuros e peguei a bolsa.
A tarde estava meio fria e uma luz muita clara dava a cidade um ar fulgurante, enchendo de sombras e luzes as ruas estreitas. Acho que antes nunca tinha feito isto, encarar um homem desconhecido em público. Sou uma mulher ainda jovem, de trinta e seis anos, e meus amigos em Paris dizem que estou no apogeu da minha beleza e elegância. Fiqueii viúva há quatro anos de um médico espanhol que vivia em Paris e que morreu na saida do hospital assassinado por fanáticos de uma seita que combate remédios farmacológicos e operacões cirúrgicas. Eu o esperava no carro quando ouvi tiros, gritaria e tumulto na rua e em frente ao hospital logo depois. Fiquei um ano pràticamente sem sair de casa depois da sua morte. Não tivemos filhos. A familia espanhola, os pais velhos e carinhosos dele, os tempos que eu e ele passamos juntos aqui, me trazem sempre de volta a Madri. Sai andando então pela Calle de Los Cañizares, movimentada as quatro da tarde, sem destino certo, para ver mais umas lojas e livrarias talvez, até a hora de voltar para a casa da familia do meu marido. Nomes vagos me vinham a cabeça associados ao homem corpulento: Mr. Arkin, Mr. Koran, Mr. Keen ...
Sai em passo rápido. Entrei pela Calle de La Magdalena, parei em frente a uma vitrine e vi que ele vinha na minha direção. Um terror leve e excitante me tomou, mas decidi que só chamaria um táxi como último recurso. Andei mais rápido, apressei o passo, e entrei de repente no saguão de um restaurante. Um garçon veio célere me levar para a mesa, mas eu disse que esperava uma pessoa. Olhei a coluna de espelhos no centro do saguão, e vi sua figura refletida, multiplicada muitas vezes. Portava um ar um tanto delicado, sutil e cuidadoso, apesar da sua imponente massa corporal. Trazia na mão o livro que eu já notara na mesa do bar, grande e pesado. Sai do saguão andando rápido e passei bem perto dele, sentindo o cheiro da loção misturada com charutos cubanos. Mas ele apenas me olhou nos olhos, sorrindo sempre, e nao me seguiu como imaginei que fizesse. Tive a impressão de ouvir sua voz grave surrurrando de leve "In Paris...Café..." Uma sensaçao de cansaço e um leve medo me fizeram pegar logo um táxi na Praça Antón Martin e ir para casa antes que a noite chegasse.
Meu marido, que gostava de jazz como eu, tinha me dado "Bud in Paris" e eu gostava de dormir ouvindo o LP (tinha visto Bud Powell em Paris no Blue Note e no Club Sain Germain também alguns anos atrás com ele). Bud ficava repetindo na vitrola até que a empregada silenciosa desligasse o Hi-Fi depois que eu caia no sono. Sonhei que estava em um deserto perto de Madri. Fui de carro com uns amigos passear, era tarde da noite e de repente estava sozinha e procurava minha bolsa na areia e não havia mais amigos por perto. Era noite mas tinha uma luminosidade intensa no ar, o céu estava iluminado por formas de asteróides e estrelas imensas que corriam de um lado para outro, de horizonte a horizonte. O homem do café vinha andando enm minha direção com o LP de Bud Powell na mão, sussurrando o tema de "Sunset" com uma voz turva e cavernosa, e me dizia baixinho no ouvido "In Paris? In Paris?" Uma filmagem estava acontecendo ali perto - com refletores, câmeras, toda uma equipe que nao estava ali antes, e o homem agora andava nervoso, gesticulava e falava entre uma multidão de pessoas.
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