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segunda-feira, 25 de maio de 2009

In Paris (2)

Dois dias depois voltei a Paris e esqueci o sonho e o estranho encontro com o homem grandalhão. Algumas semanas depois andava pela Rue du Four em direcão ao Boulevard Saint Germain e parei na esquina com a Rue Mabillon, procurando o ateliê de uma amiga modista. E lá estava ele parado do outro lado da rua, me olhando. Vestia um trench coat comprido e tinha o mesmo cachecol preto no pescoço e o mesmo chapéu marron. Me voltei e andei rápido em direção a Rue des Ciseaux, ele me seguia ainda. Eu andava agora em direcão ao Boulevar Saint Germain. Sempre soube que iria vê-lo de novo, de alguma maneira. E perdi todo o medo depois desta constatação. Parei e fiquei esperando que se aproximasse. Ele veio vindo, fez um cumprimento com a cabeça, e disse "Uma bela tarde, madame". Eu disse simplesmente "Sim". Ele replicou " Posso convidá-la para o Café de Flore?" Dei um sorriso e ele disse "Vamos?" Trazia ainda na mão o mesmo livro que eu vira com ele em Madrid. Andamos os poucos quarteirões até o Flore e sentamos em uma mesa na calçada. Pedimos porto. Ele elogiou a cor do meu suéter ( um mauve de cashmere com gola alta que eu usava com uma saia preta ) e falamos do outono e de amenidades, de música, das peças de teatro da estação, nada muito pessoal. O livro que ele colocou sobre a mesa era uma ediçao bastante antiga do Quijote. Ele chamou o garçon, pagou nossa conta, levantou-se e disse me pegando pela mão "Madame...em Paris..." Sem pensar se queria ou não ir com ele, eu fui.
Entramos em um carro preto parado próximo a esquina, o choffeur era um senhor muito sisudo, ele falou alguma coisa com o velho, e o carro correu rápido por ruas que não consigo lembrar. O senhor sem nome sentava-se bem junto de mim e abriu a folha de rosto do livro de Cervantes, um forte perfume, quente e intoxicante, que me lembrava uma praia do México na infância, impregnou o interior do carro. Senti uma sonolência pesada. Imagens de ruas, árvores e casarões se formavam e desapareciam rápido em meus olhos, misturadas a frases inintelígiveis e longas pronunciadas no acento do teatro inglês por Mr.Misterioso. Estava de repente subindo umas escadarias de pedra e chegando com ele à porta principal de uma mansão neo-gótica de pedra escura (seria nos arredores de Paris?). Um mordomo jovem e com feições do leste europeu nos conduziu a uma grande sala, e lembro de estar deitada num sofá de veludo vermelho de encosto alto. Via seu enorme corpo desabado no chão no tapete a minha frente e ele beijava meus pés descalços, tinha tirado minhas meias de seda, subia com a boca pelos tornozelos. Falava coisas que eu mal entendia, com sua voz rouca e grave: "Senhora, preciso chorar, chorar muito... Amar de novo...Poder não chorar mais... Chorar o tempo de um interlúdio"... "Uma eterna festa". Suspiros e mais sussurros ao meu ouvido: "Tempo...Tempo de festa". Lágrimas caiam pelas suas bochechas redondas. "Senhora, chorando não,,,"Para não chorar comigo nunca mais". E em tom quase solene, teatral, perguntava: "No deserto (agora ele ria) podemos ser felizes?" Havia taças de vinho quase vazias e garrafas na mesa ao lado do sofá, um concerto para piano e orquestra (Mendelsohn provàvelmente) tocava em outra sala próxima. "Senhora, vem comigo"! "As cisternas do deserto secaram todo o chôro" cantarolava agora com uma voz que ressoava pela casa toda. Eu nao me lembro de ter chorado, apenas de uma sensação de tristeza e letargia. "Vamos sonhar...no deserto, juntos" ele repetia, num tom um pouco menos dramático. Levantou-se do tapete com uns gemidos, me levantou do sofá e pegou no colo. Atravessamos várias salas com móveis pesados de madeira escura e candelabros de cristal. Tenho a impressão de ter visto empregadas nos olhando através de portas em arco entreabertas. O concerto para piano e orquestra foi ficando mais distante. Seus passos fortes ecoavam no piso de madeira polido da casa. Atravessamos uma grande porta em arco e entramos em um quarto com as cortinas de veludo quase fechadas, de um verde escuro e terroso. Ele me colocou com cuidado na cama de dossel alto de madeira , ajeitou minha cabeça em muitas almofadas marroquinas coloridas, e senti de novo suas mãos grandes e macias subindo pelas minhas pernas.

Estava novamente no deserto perto de Madri,,,, sozinha e deitada na areia quente, ouvindo sua voz e a das pessoas da filmagem em volta. Um jazz tocava alto, era Bud Powell "In Paris". Continuávamos deitados na grande cama, só que agora dentro do Blue Note, o público aplaudia com entusiasmo e nem nos olhava, apesar da cama ocupar quase toda a área das pequenas mesas do clube. Abri os olhos, fazendo um reconhecimento, e me vi em meu quarto no meu apartamento em Paris. Era de manhã cedo ainda pela luz que entrava na janela ao lado da cama. Lisette, minha empregada, entrava no quarto, silenciosa e séria como sempre fazia de manhã, perguntando se eu queria meu café. Demorei a responder, ela me olhava com seu olhar intrigado e triste. Disse que sim e peguei o roupão para ir ao toalete. Voltei de novo para a cama, ainda com uma leve tontura, e afastei a cortina um pouco, olhando a minha rua matinal e familiar, cheia de passantes e alguns carros a esta hora. Mr Desconhecido, Mr. Misterioso ou sei lá o que, acabava de desaparecer na esquina próxima. Era ele com certeza, com seu corpo avantajado de ombros largos, seu casaco esvoaçando ao vento e seu chapéu desabado na cabeça.


Yader Marques Maio/2009 Todos os direitos reservados

Orson Welles e Rita Hayworth





In Paris (1)

In Paris

por Yader Marques

Quando olhei pela vitrine do café onde estava sentada achei que ele me olhava de algum ponto atrás de mim, e desviei o rosto. Mas fiquei intrigada, olhei de novo e lá estava seu olhar fixado em mim. Já o tinha visto, lembrei instantaneamente, em alguma outro cidade, New York ou Cidade do México ou aqui mesmo em Madrid. Virei a cabeça lentamente, ele estava sentado duas mesas adiante, sozinho, com um livro aberto sobre a mesa e me encarava sorrindo discretamente. Ou teria sido em algum filme mesmo que eu o tinha visto? Sabia que era alguem famoso, um ator ou diretor talvez. Era um homem alto, encorpado, com mais de cem quilos, e com uma idade indefinida entre os quarenta e os cinquenta anos. Eu estava sozinha em Madrid, moro em Paris e ia ficar mais três dias na cidade (minha irmã veio comigo mas foi chamada pelo marido as pressas de volta a Paris, ele tivera um derrame). E normal para mim ser notada e assediada pelos homens, já sei como lidar com isto - sou de mãe mexicana e pai francês, e os homens se encantam com o que dizem ser meu ar exótico, tenho os olhos indios da minha mãe. Havia no seu olhar como que um reconhecimento misturado a um convite. Eu usava meu tailler Dior de lã leve cinza com debrum preto no casaco, perfeito para o outono de Madri, e que era quase impossivel de ser amassado. O senhor na mesa usava um blazer de lã e um cachecol preto bem displiscente (tinha uma elegância descuidada, típica dos artistas) e um chapéu de feltro marron com as abas desabadas. Arrisquei olhar de novo, ele sorriu e fez um sinal leve com a cabeça e que fingi não notar. Já tinha pago meu café e me levantei para sair, mas sem deixar de olhá-lo discretamente. Coloquei meus óculos escuros e peguei a bolsa.
A tarde estava meio fria e uma luz muita clara dava a cidade um ar fulgurante, enchendo de sombras e luzes as ruas estreitas. Acho que antes nunca tinha feito isto, encarar um homem desconhecido em público. Sou uma mulher ainda jovem, de trinta e seis anos, e meus amigos em Paris dizem que estou no apogeu da minha beleza e elegância. Fiqueii viúva há quatro anos de um médico espanhol que vivia em Paris e que morreu na saida do hospital assassinado por fanáticos de uma seita que combate remédios farmacológicos e operacões cirúrgicas. Eu o esperava no carro quando ouvi tiros, gritaria e tumulto na rua e em frente ao hospital logo depois.
Fiquei um ano pràticamente sem sair de casa depois da sua morte. Não tivemos filhos. A familia espanhola, os pais velhos e carinhosos dele, os tempos que eu e ele passamos juntos aqui, me trazem sempre de volta a Madri. Sai andando então pela Calle de Los Cañizares, movimentada as quatro da tarde, sem destino certo, para ver mais umas lojas e livrarias talvez, até a hora de voltar para a casa da familia do meu marido. Nomes vagos me vinham a cabeça associados ao homem corpulento: Mr. Arkin, Mr. Koran, Mr. Keen ...
Sai em passo rápido. Entrei pela Calle de La Magdalena, parei em frente a uma vitrine e vi que ele vinha na minha direção. Um terror leve e excitante me tomou, mas decidi que só chamaria um táxi como último recurso. Andei mais rápido, apressei o passo, e entrei de repente no saguão de um restaurante. Um garçon veio célere me levar para a mesa, mas eu disse que esperava uma pessoa. Olhei a coluna de espelhos no centro do saguão, e vi sua figura refletida, multiplicada muitas vezes. Portava um ar um tanto delicado, sutil e cuidadoso, apesar da sua imponente massa corporal. Trazia na mão o livro que eu já notara na mesa do bar, grande e pesado. Sai do saguão andando rápido e passei bem perto dele, sentindo o cheiro da loção misturada com charutos cubanos. Mas ele apenas me olhou nos olhos, sorrindo sempre, e nao me seguiu como imaginei que fizesse. Tive a impressão de ouvir sua voz grave surrurrando de leve "In Paris...Café..." Uma sensaçao de cansaço e um leve medo me fizeram pegar logo um táxi na Praça Antón Martin e ir para casa antes que a noite chegasse.
Meu marido, que gostava de jazz como eu, tinha me dado "Bud in Paris" e eu gostava de dormir ouvindo o LP (tinha visto Bud Powell em Paris no Blue Note e no Club Sain Germain também alguns anos atrás com ele). Bud ficava repetindo na vitrola até que a empregada silenciosa desligasse o Hi-Fi depois que eu caia no sono. Sonhei que estava em um deserto perto de Madri. Fui de carro com uns amigos passear, era tarde da noite e de repente estava sozinha e procurava minha bolsa na areia e não havia mais amigos por perto. Era noite mas tinha uma luminosidade intensa no ar, o céu estava iluminado por formas de asteróides e estrelas imensas que corriam de um lado para outro, de horizonte a horizonte. O homem do café vinha andando enm minha direção com o LP de Bud Powell na mão, sussurrando o tema de "Sunset" com uma voz turva e cavernosa, e me dizia baixinho no ouvido "In Paris? In Paris?" Uma filmagem estava acontecendo ali perto - com refletores, câmeras, toda uma equipe que nao estava ali antes, e o homem agora andava nervoso, gesticulava e falava entre uma multidão de pessoas.


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