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terça-feira, 6 de outubro de 2009

De Profundis (parte 13)

Quando eu disse ao advogado que não tinha dinheiro para encarar a gigantesca despesa, você interveio imediatamente. Disse que sua família ficaria feliz em pagar todas as despesas; que seu pai tinha sido um demônio com todos; que eles tinham muitas vezes discutido a possibilidade de conseguir colocá-lo num asilo de loucos para tirá-lo do caminho; que ele era uma fonte diária de tormento e perturbação para sua mãe e para todo mundo. E que se eu apenas me adiantasse em calá-lo, seria visto pela família como seu campeão e seu benfeitor - e que as pessoas ricas relacionados com sua mãe veriam como uma verdadeira benção o ato de poderem pagar pelos custos e despesas decorrentes de tal esforço. O advogado encerrou o expediente imediatamente, e fui apressado para a delegacia policial. Não tinha desculpas para não ir. Fui forçado a ir. Claro, sua família não pagou os custos, e quando sou declarado em falência, é pelo seu pai e por estes custos - a quantia irrisória de umas 700 libras. Neste momento da minha vida minha mulher, magoada comigo por uma importante questão - se eu deveria ter 3 libras ou 3.10 libras por semana para viver - prepara uma ação de divórcio para a qual, naturalmente, novas evidências e um novo julgamento seguidos de providencias ainda mais graves se fazem necessárias. Eu naturalmente, não sei nada dos detalhes. Apenas sei o nome da testemunha em cujo testemunho os advogados da minha esposa se baseiam - é o seu próprio criado de Oxford, a quem empreguei sob seu pedido especial durante nosso verão em Goring.
Mas realmente não preciso ir mais além com mais desdobramentos da estranha Catástrofe que você parece ter trazido sobre mim em todas as coisas grandes ou pequenas. Sinto as vezes como se você fosse apenas uma marionete manipulada por mão secreta e invisível, e para causar eventos terríveis sobre questões terríveis. Mas as marionetes tem suas próprias paixões. Elas agregarão novos temas aqueles que estão representando, distorcendo o roteiro determinado de vicissitudes para enquadrá-las em algum capricho ou desejo próprio. Ser totalmente livre e ao mesmo tempo inteiramente dominado pela lei é o eterno paradoxo da vida humana que vivemos a cada momento e isto, penso sempre, é a única explicação plausível para a sua natureza, se é que existe alguma explicação possível para os profundos e terríveis mistérios da alma humana, com exceção daquela que torna o mistério mais maravilhoso ainda.
Claro que você tinha suas ilusões, vivia nelas na verdade, e através dos seus oscilantes nevoeiros e véus coloridos, via tudo modificado. Você pensou me lembro muito bem, que se devotar a mim, com a exclusão total de sua família e da vida familiar, era uma prova da sua fantástica devoção, e do seu enorme afeto. Sem dúvida parecia ser assim para você. Mas lembre-se de que comigo vinha o luxo, a vida de alto padrão, o prazer ilimitado, dinheiro sem restrições. Sua vida familiar o entediava. O "vinho frio e barato de Salisbury", para usar uma frase sua, era de mau gosto para você. Do meu lado, junto aos meus atrativos intelectuais, estavam os festins do Egito. E quando você não podia me encontrar, as companhias que escolhia para me substituir não eram nada elogiáveis...

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