quinta-feira, 30 de dezembro de 2010
Pequeno mundo
Pequeno e grande mundo
Querido macbook. Um ano termina, e a primeira década deste século termina também. Lembro do reveillon da virada do século, com amigos numa fazenda no interior de Sao Paulo. Passamos o dia 31 dedezembro decorando o cenário da festa, muitas velas à beira da piscina, muitos balões azuis na água. Arrebanhei algumas crianças e passamos a manhã colhendo flores, galhos e folhas secas no jardim e nos matos ao redor da casa, para fazer um enorme arranjo de celebração. Ficou tudo lindo, um jantar maravilhoso antes da meia-noite, as champanhes espoucando, os cumprimentos, a alegria regada a aditivos, álcool e música. Nunca se pode imaginar o que um século novo vai trazer, por mais imaginativos que sejamos. O mundo não acabou então, como não vai acabar provàvelmente em dois anos, como dizem alguns místicos e fatalistas. O mundo segue sempre morrendo e renascendo, surpreendendo. Exatamente como nós próprios. Começo esta década agora em outro cenário, em outra cidade, respirando outros ares. Foi um ano de grandes mudanças. Nem consigo avaliar ainda a dimensão de tudo, é preciso apenas deixar o tempo seguir seu curso. Neste século fiz novos amigos, perdi outros na voragem das coisas e das redes sociais, vivi amores de grande, média e de pequena intensidade. Li, aprendi, ouvi. A música entrou de maneira mais intensa no meu dia a dia, ouvi mais os clássicos de todas as épocas, toquei de novo o piano. Alguns acertos e muitos enganos. Fiz coisas de sucesso profissional e outras nem tanto. Tentei ver mais, viajar, me respeitar mais e aos outros também. O mundo ficou mais rápido e multifacetado, mais cheio de informações, mais dificil talvez. Fiquei um pouco mais velho e, tenho dúvidas se mais sábio. Perdi meu pai e minha mãe já velhinhos, e alguns amigos muito próximos e bem jovens também. Todos sentimos na alma o novo século sendo inaugurado com os atentados a Nova Iorque, os retrocessos da política internacional, as previsiveis crises econômicas globais, os tsunamis, os terremotos, os vulcões soltando fumaças, os rios transbordando. New Orleans sendo submersa e arrasada, o Haiti destruido, e os Haitis que também são aqui. A natureza dando sinais de esgotamento e rugindo feroz, nos alertando para as mudanças necessárias se quisermos sobreviver neste planeta. A tecnologia e o consumismo desenfreado tendo que entender seus limites. Será que mudanças reais neste esfera vão mesmo acontecer? Ou continuaremos como formiguinhas laboriosas e tolas a caminho da catástrofe final da espécie, preocupados apenas em adquirir o último carro, o último eletrodoméstico anunciado nas telas de led das tvs? Rumo à nossa catástrofe e a de todas as outras formas de vida do planeta que estão a mercê da nossa supremacia e sabedoria? Parece que esta década enterrou de vez todas as utopias econômicas e socias do séculos anteriores. O capitalismo reina soberano e universal, mas capenga e cruel. A barbarie social, a opressão e as ditaduras tem a cara de sempre, as guerras eclodem aqui e ali no planeta a todo instante. As crianças, contudo, continuam nascendo e crescendo, aprendendo de novo o mundo, querendo viver e marcar o seu tempo. Eles, os muito jovens, trazem em si sempre a novidade, são mais belos e mais saudáveis e provàvelmente muito mais capazes e preparados do que seus pais para viver o tempo de agora. Os velhos sempre vão envelhecer, os adolescentes sempre vão sofrer e crescer, as vidas vão passer criativas ou pobres, limitadas ou cheias de horizontes largos. A história do mundo vai se fazendo, com suas glórias, suas tragédias e mazelas. Shakespeare vai sempre espelhar o mundo - o passado, o atual e o futuro. Assim caminha a humanidade. A beleza de Elisabeth Taylor feneceu, Rock Hudson e James Dean estão mortos, Angelina Jolie e Brad Pitt vão ficar velhinhos e avós um dia, mas o cinema continua, a vida continua, a arte continua. Leonardo da Vinci viveu, criou e morreu, Matisse criou até morrer, Villa-Lobos, Gershwin e Bergman deixaram sua marca até o último suspiro. Eles permanecem. O mundo continua, a terra ainda gira. A lua nova crescente se espelhou e brilhou à meia-noite nas águas do riacho, eu confesso que vi da minha janela e me extasiei. Obrigado, lua nova na água. Obrigado, mundo.
Querido macbook. Um ano termina, e a primeira década deste século termina também. Lembro do reveillon da virada do século, com amigos numa fazenda no interior de Sao Paulo. Passamos o dia 31 dedezembro decorando o cenário da festa, muitas velas à beira da piscina, muitos balões azuis na água. Arrebanhei algumas crianças e passamos a manhã colhendo flores, galhos e folhas secas no jardim e nos matos ao redor da casa, para fazer um enorme arranjo de celebração. Ficou tudo lindo, um jantar maravilhoso antes da meia-noite, as champanhes espoucando, os cumprimentos, a alegria regada a aditivos, álcool e música. Nunca se pode imaginar o que um século novo vai trazer, por mais imaginativos que sejamos. O mundo não acabou então, como não vai acabar provàvelmente em dois anos, como dizem alguns místicos e fatalistas. O mundo segue sempre morrendo e renascendo, surpreendendo. Exatamente como nós próprios. Começo esta década agora em outro cenário, em outra cidade, respirando outros ares. Foi um ano de grandes mudanças. Nem consigo avaliar ainda a dimensão de tudo, é preciso apenas deixar o tempo seguir seu curso. Neste século fiz novos amigos, perdi outros na voragem das coisas e das redes sociais, vivi amores de grande, média e de pequena intensidade. Li, aprendi, ouvi. A música entrou de maneira mais intensa no meu dia a dia, ouvi mais os clássicos de todas as épocas, toquei de novo o piano. Alguns acertos e muitos enganos. Fiz coisas de sucesso profissional e outras nem tanto. Tentei ver mais, viajar, me respeitar mais e aos outros também. O mundo ficou mais rápido e multifacetado, mais cheio de informações, mais dificil talvez. Fiquei um pouco mais velho e, tenho dúvidas se mais sábio. Perdi meu pai e minha mãe já velhinhos, e alguns amigos muito próximos e bem jovens também. Todos sentimos na alma o novo século sendo inaugurado com os atentados a Nova Iorque, os retrocessos da política internacional, as previsiveis crises econômicas globais, os tsunamis, os terremotos, os vulcões soltando fumaças, os rios transbordando. New Orleans sendo submersa e arrasada, o Haiti destruido, e os Haitis que também são aqui. A natureza dando sinais de esgotamento e rugindo feroz, nos alertando para as mudanças necessárias se quisermos sobreviver neste planeta. A tecnologia e o consumismo desenfreado tendo que entender seus limites. Será que mudanças reais neste esfera vão mesmo acontecer? Ou continuaremos como formiguinhas laboriosas e tolas a caminho da catástrofe final da espécie, preocupados apenas em adquirir o último carro, o último eletrodoméstico anunciado nas telas de led das tvs? Rumo à nossa catástrofe e a de todas as outras formas de vida do planeta que estão a mercê da nossa supremacia e sabedoria? Parece que esta década enterrou de vez todas as utopias econômicas e socias do séculos anteriores. O capitalismo reina soberano e universal, mas capenga e cruel. A barbarie social, a opressão e as ditaduras tem a cara de sempre, as guerras eclodem aqui e ali no planeta a todo instante. As crianças, contudo, continuam nascendo e crescendo, aprendendo de novo o mundo, querendo viver e marcar o seu tempo. Eles, os muito jovens, trazem em si sempre a novidade, são mais belos e mais saudáveis e provàvelmente muito mais capazes e preparados do que seus pais para viver o tempo de agora. Os velhos sempre vão envelhecer, os adolescentes sempre vão sofrer e crescer, as vidas vão passer criativas ou pobres, limitadas ou cheias de horizontes largos. A história do mundo vai se fazendo, com suas glórias, suas tragédias e mazelas. Shakespeare vai sempre espelhar o mundo - o passado, o atual e o futuro. Assim caminha a humanidade. A beleza de Elisabeth Taylor feneceu, Rock Hudson e James Dean estão mortos, Angelina Jolie e Brad Pitt vão ficar velhinhos e avós um dia, mas o cinema continua, a vida continua, a arte continua. Leonardo da Vinci viveu, criou e morreu, Matisse criou até morrer, Villa-Lobos, Gershwin e Bergman deixaram sua marca até o último suspiro. Eles permanecem. O mundo continua, a terra ainda gira. A lua nova crescente se espelhou e brilhou à meia-noite nas águas do riacho, eu confesso que vi da minha janela e me extasiei. Obrigado, lua nova na água. Obrigado, mundo.
segunda-feira, 29 de novembro de 2010
domingo, 28 de novembro de 2010
De luzes e sombras
De luzes e sombras
Novembro de
2010
Querido macbook, boa tarde .Termina uma semana
turbulenta no país - as televisões mostram cenas de guerra urbana, incêndios de
veículos por todo o Rio de Janeiro, imagens descoladas daquelas do paraiso da sensualidade e de belezas naturais que a cidade reivindica como seu
clichê preferido. E a enormidade indecente das favelas cariocas é escancarada e esmiuçada como
nunca antes nas cameras de TV - um
circo de horrores do real social brasileiro...
Aqui nas
minha montanha, depois de uma semana de tempo fechado e temporais, um sol
aparece lindo, iluminando o verde intenso dos matos. O riacho ruge mais forte e já não consigo atravessá-lo
como antes pulando pelas pedras, é preciso pisar no leito agitado e pedregoso para
chegar do outro lado. Outro dia uma
turma de roedores passou em correria pelo gramado do parque, seriam eles guaxinins, com pelo marrom e uns rabos peludos e grandes? Será eles
que cavam os buracos grandes que descubro sempre no terreno ao redor da casa?
Comecei a
ver meio por acaso filmes de Ingmar Bergman, trouxe um DVD de São Paulo - Através de Um Espelho. Aqui descobri
muitos e muitos outros numa excelente locadora. E uma amiga me presenteou com a autobiografia dele, Lanterna Mágica. Li em dois dias, apesar da tradução e da editoração bem
ruins é bem escrita e envolvente.
Conhecia apenas os filmes mais famosos dele: Morangos Silvestres, O Sétimo
Selo, Persona, Fanny e Alexander, A Fonte da Donzela, Gritos e Sussurros... Redescobrir
sua obra é fascinante, especialmente depois de ler seu livro. Ele não escreve
em ordem cronológica. Começa com a infância, depois a vida adulta rica e agitada
de cineasta e diretor de teatro, de muitas relaçoes amorosas e matrimoniais,
numa ciranda que começa em 1918 e termina em 2007. Bergman foi também um grande diretor teatral, dirigiu
o Teatro Nacional da Suécia durante
muitos anos. Encenou e dirigiu mais de cento e cinquenta peças durante sua longa vida profissional.
Devem existir poucos registros em cinema ou video de suas montagens. Fez também nas sua última década produtiva alguns
filmes para a televisão. Me parece que no teatro deve ter sido um diretor mais clássico,
que gostava de cenários de acordo com o imaginado pelos autores, de encenar todas as falas, e não de muitas inovações radicais.
E era com certeza, como no cinema, um perfeccionista, com um senso de ritmo, clareza
e trabalho de atores impecável. Sempre foi fascinado pelo seu conterrâneo Strindberg
e montou peças dele ao longo de toda a vida. Dirigiu um teatro em Munique no seu auto-exilio do final dos anos setenta e começo dos oitenta na Alemanha. Foi, segundo
ele conta, uma experiencia
desastrosa, tinha problemas com a lingua e não estava consciente do contexto social do teatro alemão, muito
diferente daquele da Suécia. Seus filmes desta época também não foram nenhum
sucesso. Lembro de O Ovo da Serpente, que vi em New York com uma amiga numa tarde de inverno
fria e chuvosa. Saimos do cinema na Segunda Avenida arrasados, sem dizer palavra, abraçados em nossos
casacos quentes e a procura de um bar ou café acolhedor para sentir que a vida
real não era assim tão miserável...Outro filme desta época, que não foi nenhum
sucesso é Da Vida das Marionetes, que acabo de ver também em DVD, e achei magnífico: contemporâneo,
urbano, sem concessões, com personagens bem construidos e
envolventes. Está claro nos seus filmes que ele filmava o que sentia e queria expressar naquele
momento específico e seu total controle do produto artístico. Sempre foi um
cineasta autoral, dai sua grandeza, seus enormes acertos e alguns erros que ele
assume plenamente também. Teve sorte neste sentido. Nunca faria uma carreira
longa em Hollywood, seria com certeza logo posto de lado aos primeiros
fracassos de bilheteria. Orson Welles tentou impor sua marca genial no cinema americano e foi
logo marginalizado, depois de alguns filmes memoráveis. Acabou velho e obeso
fazendo comercias de bebidas, um
Falstaff exótico de plantão. Liv Ullmann, uma das musas de Bergman, diz numa entrevista que ele
era antes de tudo um grande diretor
da sua própria vida. Era um homem atraente, alto e magro, com um nariz marcante, sensivel. Teve muitas mulheres, entre affairs e casamentos, e muitos filhos também.
Fala quase nada dos filhos, parece que nunca teve tempo e direcionamento para
ser um pai de verdade. Fala bastante da infância (que ele cinematografou lindamente em Fanny e Alexander), dos pais e dos irmãos, e
especilmente da mãe. As últimas páginas do livro são uma visita imaginária a
casa dos pais e um diálogo também
onírico com a mãe. Envolveu-se com várias das suas atrizes. Não tinha uma saúde
de ferro, tinha cólicas intestinais, problemas de sono e muitas paranóias. Seu
filme A Hora do Lobo não é gratuito. Quando foi acusado pelo fisco da Suécia de sonegação e ameaçado
por processos, surtou e teve que ser internado numa clínica. Mas sua
persona artística se recompos e voltou a
escrever e a filmar. Viveu os últimos anos na ilha de Fåro, pela qual se apaixonou desde que lá foi filmar, nos anos sessenta Através de um Espelho. Morava sòzinho em uma bela casa rústica que
construiu nos rochedos a beira-mar, e onde viveu com Liv Ullmann alguns anos também.
Dava passeios matinais pela ilha, assistia filmes num cineminha privado que
construiu num celeiro, revia e organizava sua papelada e os filmes de toda uma vida, escrevia, e eventualmente dava
entrevistas. Bergman ficará para
sempre, enquanto a magia da salas escuras e das figuras em movimento existir. Acendam
a lanterna mágica, e acionem o teatrinho de sombras!
Obrigado, Ingmar Bergman.
sexta-feira, 29 de outubro de 2010
Goodbye to Berlin
Goodbye
to Berlin
Querido
macbook. E fim de outubro na serra,
o tempo está fechado e o
frio voltou. Assim como os grandes lirios brancos a beira do riacho. Pura
poesia visual. Hoje, ao abrir a porta da casa de manhã, grasnados e revoar de
asas nervosos no telhado. Nos assustamos mutuamente, os jacús e eu. Aqui é
fundamental como primeira coisa
na manhã, ver o céu, sentir o ar,
as nuvens - a onipresente
natureza pede isto. Choveu um tanto na
última semana, o volume das águas do rio cresceu, o barulho delas
também. Durmo aqui com o som magestoso da água escorrendo entre as pedras. E
sem ouvir businas de carros ou barulho de trânsito, acreditem.
Estou lendo
os pocket - books que comprei numa
visita rápida a um sebo em São Paulo. Um hábito que começou em New York nos
anos setenta, e que abandonei nos ultimos dez anos, seduzido pelas livrarias glamurosas e bem frequentadas de hoje. Acho que vou
voltar a escarafunchar os sebos de novo. Tesouros me aguardam
lá. Terminei de ler o delicioso
Mr. Norris ChangesTrains, de Christopher Isherwood. Inglês,
ele viveu em Berlim quando bem
jovem, de 1929 a 1933. Depois emigrou para os EUA. Escreveu três novelas
sobre a cidade, tendo como pano de fundo a
crise que antecedeu a Segunda Guerra e a ascensão do nazismo. Este livro e mais Sally Bowles e Goodbye to Berlin, deram origem ao musical da Broadway Cabaret e ao filme do mesmo nome. Vi o
filme, que consagrou Lisa Minelli
como Sally Bowles, mas faz muito tempo. Dá para perceber a simplificação dos
personagens que o filme
hollywoodianamente fez, minimizando o cenário social e politico da
época. O livro que acabei de ler
não é politico per se, é centrado em personagens muito
especiais, divertido e um tanto leve, com um toque fino de humor todo o tempo.
Mas é fundamental a atmosfera sócio-politica turbulenta e decadente da Alemanha, a ascenção rápida e
fatal do nazismo e a derrocada sangrenta dos comunistas e dos não-facistas.
Membros do Partido Comunista são
personagens correntes do romance, bem como aristocratas alemães decadentes, escroques comuns e
aventureiros internacionais.O livro vale tanto como profícuas aulas de
história
sobre uma
Europa que se foi para sempre.
Obrigado, Mr. Bradshaw, ou melhor, Mr. Isherwood.
Nova
Friburgo, outubro 2010
quinta-feira, 30 de setembro de 2010
sábado, 25 de setembro de 2010
O Decamerão
O Decamerão
Da Cascatinha, primavera de 2010
Caro macbook, bom dia. A
música do meu texto anterior - Prelude to a Kiss, é na verdade de Duke Ellington, não de Miles Davis. A
informação veio com a música baixada na web, que é o reino dos créditos
equivocados de ouvintes semi - informados, o clássico "parece, mas não é",
e constantemente você baixa gato por lebre. Faz parte do jogo.
Hoje amanhece um dia
nublado, de chuva fina,e constante.
O mato estava um tanto ressecado, depois da longa estiagem de inverno no pais. E
é primavera já, o ar está agradável e nada frio. Os passarinhos cantam lá fora, o riacho corre no
seu curso - a natureza é assim, poética, e pede palavras clássicas. Ouço as
Goldberg Variations, de Bach, na maravilhosa versão de Glenn Gold. Ontem consegui
arrastar mais um tronco grande de árvore caido no terreno até um
grotão na beira do riacho, onde ele poderá se decompor em paz. Foi uma operação demorada, feita em partes,
ocupou grande parte da minha manhã ensolarada. Hoje minhas costas sentem o esfôrço, mas se fizer uns alongamentos e ficar mais sedentário um
pouco, posso estar renovado logo.
Tem aqueles livros que você comprou
a dez, ou vinte anos atrás e ainda não havia lido. Trouxe comigo para a
montanha uma pequena seleção da minha biblioteca - uns vinte livros. O resto foi
guardado em caixas e mandando para um depósito. Trouxe clássicos
que ainda não li, e alguns outros que sei que vou gostar de reler. Entre eles
uma edição em inglês do Decameron, de Giovanni Boccaccio, uma edicão de capa dura
da Garden City, New York, de 1930, ilustrada. Não conheço o original italiano,
mas me parece uma excelente tradução. O prefácio diz: "HERE BEGINS THE BOOK
CALLED DECAMERON, ALSO ENTITLED PRINCE GALEOTTO, CONTAINING ONE HUNDRED TALES,
TOLD IN TEN DAYS BY SEVEN LADIES AND THREE YOUNG MEN". No ano de 1348 a praga assola Florença, e sete moças e três rapazes da
cidade se reunem acidentalmente e fogem para o campo, escapando da peste. Acabam
achando abrigo numa suntuosa
propriedade nos arredores, Ali estabelecem as regras para uma vida comunitária . Alternam a escolha de uma rainha e de um rei, que comandam a rotina do refúgio magnífico. Instauram o hábito, entre os muitos prazeres existentes
no palácio, de todos se reunirem nas horas quentes da tarde para contar histórias.
Elas são narradas pelo grupo, e os própios reis as contam as
vezes - tem sempre um fundo edificante, e os temas são as aventuras de
nobres e de plebeus. Picarescas, sobre tramas amorosas muitas vezes, e com
finais felizes ou menos felizes. Os cenários são as cidades italianas mais conhecidas,
a própria Florença, Pádua, Gênova, Roma, Salerno, Nápoles, Pisa, Treviso e outras, as
regiões da Toscana e da Lombardia,
a Sicilia, e também outros paises
da Europa e do Mediterrâneo. Não são longas, são sintéticas e precisas, fluentes,
como as histórias relatadas oralmente são em geral. Gostosas de ler. Levam a
uma imersão maravilhosa no mundo
das cidades medievais da Europa, tão importantes na formatacão do caráter da nossa civilização. Leio uma,
duas ou três histórias por dia. Me parece que este ritmo tem muito a ver com a estrutura
narrativa própria do livro. Leitura perfeita para as tardes de sol, ou o começo
de noite silencioso aqui na serra. Obrigado, Boccaccio.
Yader Marques
.
domingo, 19 de setembro de 2010
Prelude to a kiss
Prelude
to a kiss
Serra dos
Orgãos, setembro de 2010
Querido macbook. boa tarde.
Graças a um domingo nublado e um
tanto frio de fim de inverno na serra, eis-me aqui. Depois de semanas de céu
claro, sol e calor durante o dia, dias
estes em que o lá fora, o verde, o calor do sol me ocupavam totalmente, tenho um
dia indoors. Arrumações pela casa, trilhas sonoras, uma comida
saudável no fogo. Dançando nas entrelinhas. Por estes dias descobri uma música dos deuses no meu ipod, com
poucas referências. Preciso pesquisá-la. Sei que esta lá no meu itunes e que a
baixei de algum lugar, ela trás o nome de MIles Davis, Prelude to a kiss - cantada por uma voz feminina e negra certamente, que também não sei a quem
pertence. O acompanhamento é um piano maravilhoso, será que o Miles toca
também, ou apenas compôs a música? Quero ouvi-la infinitas vezes mais do que já
ouvi, é a minha trilha sonora, o acompanhamento para os dias que levo aqui. Tem
uma linha melódica sutil e nada fácil, que faz o necessário trajeto no seu espirito - o prelúdio para um
beijo. O que existe de mais
prazeiroso do que o prelúdio de um beijo, aquele momento em que ficamos
ciente da inevitalibilidade do cataclisma, do caminho inexplorado e fascinante
a frente, do grande momento a beira do penhasco sem cinto de segurança e sem capacete...? As trilhas sonoras comentam não apenas os
bons e belos filmes, mas nossas vidas também.
O mato é sempre lindo. Numa dia sem sol o
verde assume uma intensidade que a luz do sol mascara. Uma luminescência quase.
Na vista da janela tem dois abacateiros, árvores grandes e imponentes
carregadas de frutos maduros, que caem fazendo brulho no chão de folhas secas.
Só a poucos dias me dei conta que não precisava comprar abacates no mercado, eles estão caindo por ai. Alguns deixo
lá mesmo no chão, e vejo que estão
servindo de alimento para outros animais. Pássaros? Tem uma familia de pássaros
grandes, marron-escuros com uma cauda enorme e um pequeno papo vermelho, que
passeia por estes lados todos os dias de manhã. São os jacus, e
a cauda enorme lhes dá um ar imponente quando andam em passo lentos
e leves pelas pedras, entre as florezinhas. Pai, mãe e filhote. Evito ir para
as pedras agora de manhã sem ver antes se não estou invandindo seu espaco, que
julgo precioso. Quanto de mata atlântica selvagem ainda tem os animais de porte
para existir, voar, brincar, crescer e
se acasalar, caçar livremente seu alimento?
Já fui
visitado por alguns cachorros curiosos, por gente e por um gato branco grande e
selvagem que sem dúvida se sentia o dono do território antes das minha chegada.
Quando nos vemos, ele não foge, para e me olha da mesma maneira que eu olho
para ele. olho no olho.O seu vai e vem é noturno, sem dúvida. O lagarto grande
não considero um visitante, mas um morador antigo do lugar. Já nos deparamos
umas tres vezes, perto das escadas de pedra ou dos grandes cactus do jardim.
Na minha primeira visita a esta
casa ele estava me recepcionando no portão de madeira da entrada. Ele também não
foge, fica estático naquele tempo ancestral da sua espécie, olhando sempre de
perfil. Senti isto como um sinal de boas-vindas do local.
Boas
companhias eu tenho, e não pareço, creio, uma ameaça terrivel para estes seres.
O mundo a volta lhes pertence também, não tenho que expulsá-los para ter meu espaço. E obrigado MIles Davis, com este piano e esta voz maravilhosa que me canta
Prelude to a KIss.
A kiss,
Yader Marques
terça-feira, 31 de agosto de 2010
Da Cascatinha
Da Cascatinha
Nova Friburgo, agosto de 2010
Querido Diário, bom dia. Querido Mac, bom dia, melhor. Não, posso começar assim, porque sei que não cumprirei a obrigação de escrever todos os dias, como as meninas adolescentes de outros tempos supostamente faziam. Nem elas escrevem mais seus diários, acho. Mas é um ótimo hábito, nestes tempos em que faço acontecer o tempo do meu dia bastante segundo minha própria vontade. A manhã fica recheada de atividades lá fora, na natureza a minha volta. O sol forte destes dias de fim de agosto em todo o pais também é marcante aqui na serra dos Orgãos. O dia começa com uma humidade gostosa, e vai ficando quente e seco. As noites são límpidas, estreladas, e um pouco frias. O sol vai se impondo devagar, depois das seis meia da manhã. As oito em geral o meu dia começa, e ele já ilumina a mata ciiar e as grandes e pequenas pedras do riacho. Desço o caminho que limpei no mato meio selvagem, serpenteando ladeira abaixo em curvas suaves, passando debaixo de um pinheiro bem europeu, uma conífera, que nada tem a ver com a mata original da região, mas nela se integra bem, dando um toque levemente nórdico ao caminho para a água. Faço sempre um reconhecimento gradual das beiradas do riacho, limpando o território, removendo plantas indesejadas ( o chamado "mato" e algum lixo que é pouco mas presente - um ou outro plástico, metal enferrujado, coisas assim). Pego baldes de agua no riacho, muitos, para molhar as plantas nos vasos carentes da chuva que não aparece. E é impossivel não tirar a camisa e pousar um pouco numa pedra grande qualquer, sombreada e bem no meio da água, ouvindo e vendo o fluxo ininterrupto e forte da correnteza fria que vem lá de cima da montanha. E sintonizar com o tempo das pedras e da água.
Na foto anexa fica registrado meu primeiro paisagismo incidental. Ao limpar os entornos, apareceu mais nítida uma imponente pedra. Na sua parte mais baixa, cresce uma esguia e reta palmeira, e por ela sobe uma costela de adão exuberante. Tentei arrastar um tronco seco da encosta próxima, mas sem sucesso. O máximo que consegui foi empurrá-lo terreno abaixo, e ele parou exatamente sobre a pedra, rente a palmeira. Ainda tentei arrastá-lo do local, mas sem sucesso. De longe isto parecia possivel, coisa fácil. Consegui movê-lo uns poucos centimetros apenas. Mas olhando de uma certa distância, vi que o tronco, pela sua forma, se encaixou perfeitamente no conjunto, em ângulo e proporção. O todo captou o meu olhar. A pedra, a palmeira, a planta crescendo na palmeira, o tronco seco de viés sobre a pedra. O milagre das coisas complementares, que ocorre tão lindamente na natureza. Aí só me restou sentar de novo numa pedra grande, olhar tudo e dizer: Obrigado, mamãezinha!
quinta-feira, 5 de agosto de 2010
terça-feira, 29 de junho de 2010
segunda-feira, 21 de junho de 2010
quinta-feira, 17 de junho de 2010
sábado, 17 de abril de 2010
sexta-feira, 16 de abril de 2010
quinta-feira, 15 de abril de 2010
sábado, 10 de abril de 2010
R. L. Stevenson sobre Walt Whitman
Familiar Studies of Men and Books
Robert Louis Stevenson
Prefácio, a moda de crítica (excerto)
Walt Whitman - Aqui temos o caso de uma segunda dificuldade que está sempre presente para o escritor de estudos críticos: ele tem sempre que mediar entre o autor que ele ama e um público que é com certeza indiferente e mesmo adverso a este autor. Muitos artigos foram escritos sobre este homem notável. Um após o outro se inclinaram, a meu ver, ou para a adoração ou para a condenação exagerada. Estes últimos ajudaram a vedar os olhos do nosso exigente público para um escritor inspirado. Os outros, por excesso de veneração, deixaram os mais pé-na-terra revoltados. Fiquei então no centro de um dilema, e entre duas espadas eu me espremi talvez perdendo alguma substância do texto. Vendo em Whitman tantas coisas meramente ridículas, e também tantas outras insuperáveis em força e adequação - vendo o verdadeiro profeta plagiado, como pensei, em lugares como lojinhas chinesas - me pareceu melhor ficar no meio termo, e rir com os detratores quando achasse que tinham alguma razão, e sem hesitação me deliciar com os celebradores do que é imperecivelmente bom, amável, humano ou divino em seus extrardinários poemas. Este era talvez o caminho certo. Ainda assim não posso deixar de notar que na tentativa de segurar as velas do barco entre um autor que eu amo e respeito e um público muito relutante em admitir seu mérito, enveredei por um caminho não apropriado para alguém da minha estatura em relação a estatura de Whitman. Mas o bom e velho homem vai continuar no seu caminho sem ser agravado pelas minhas oscilações de alegria. Ele, acima de todos , entenderá que na tentativa de explicitá-lo para "Mr. Grundy", fui levado a assumir ares de homem do mundo, que em mim ficam simplesmente ridículos, mas que não foram intencionalmente deselegantes para com ele. A questão traz um lado bem pior também, porque na minha predisposicão de ser tudo para todo mundo, acho que pequei pela desproporção. Será suficiente dizer aqui que as falhas de Whitman são poucas e desimportantes quando colocadas junto dos seus surpreendentes méritos. Eu tinha escrito já um outro artigo cheio de gratidão pelo que tinha sido dado a minha vida, cheio de entusiasmo pelo mérito intrínseco dos poemas, e que foi concebido nos extremos da minha eloquência juvenil. O estudo presente é um rifacimento. Dele, e dentro das diretrizes já mencionadas, numa crise de horror aos meus excessos passados, as palavras superlativas e os parágrafos categóricos foram removidas sem dó.
Mas este tipo de prudência traz frequentemente a sua própria condenação. Junto com os exageros, um pouco de verdade também é sacrificada. E o resultado é frio, reticente e relutante.
Resumindo, eu poderia ter falado sempre mais fortemente do que falei.
Tradução de Yader Marques/2010
Robert Louis Stevenson
Prefácio, a moda de crítica (excerto)
Walt Whitman - Aqui temos o caso de uma segunda dificuldade que está sempre presente para o escritor de estudos críticos: ele tem sempre que mediar entre o autor que ele ama e um público que é com certeza indiferente e mesmo adverso a este autor. Muitos artigos foram escritos sobre este homem notável. Um após o outro se inclinaram, a meu ver, ou para a adoração ou para a condenação exagerada. Estes últimos ajudaram a vedar os olhos do nosso exigente público para um escritor inspirado. Os outros, por excesso de veneração, deixaram os mais pé-na-terra revoltados. Fiquei então no centro de um dilema, e entre duas espadas eu me espremi talvez perdendo alguma substância do texto. Vendo em Whitman tantas coisas meramente ridículas, e também tantas outras insuperáveis em força e adequação - vendo o verdadeiro profeta plagiado, como pensei, em lugares como lojinhas chinesas - me pareceu melhor ficar no meio termo, e rir com os detratores quando achasse que tinham alguma razão, e sem hesitação me deliciar com os celebradores do que é imperecivelmente bom, amável, humano ou divino em seus extrardinários poemas. Este era talvez o caminho certo. Ainda assim não posso deixar de notar que na tentativa de segurar as velas do barco entre um autor que eu amo e respeito e um público muito relutante em admitir seu mérito, enveredei por um caminho não apropriado para alguém da minha estatura em relação a estatura de Whitman. Mas o bom e velho homem vai continuar no seu caminho sem ser agravado pelas minhas oscilações de alegria. Ele, acima de todos , entenderá que na tentativa de explicitá-lo para "Mr. Grundy", fui levado a assumir ares de homem do mundo, que em mim ficam simplesmente ridículos, mas que não foram intencionalmente deselegantes para com ele. A questão traz um lado bem pior também, porque na minha predisposicão de ser tudo para todo mundo, acho que pequei pela desproporção. Será suficiente dizer aqui que as falhas de Whitman são poucas e desimportantes quando colocadas junto dos seus surpreendentes méritos. Eu tinha escrito já um outro artigo cheio de gratidão pelo que tinha sido dado a minha vida, cheio de entusiasmo pelo mérito intrínseco dos poemas, e que foi concebido nos extremos da minha eloquência juvenil. O estudo presente é um rifacimento. Dele, e dentro das diretrizes já mencionadas, numa crise de horror aos meus excessos passados, as palavras superlativas e os parágrafos categóricos foram removidas sem dó.
Mas este tipo de prudência traz frequentemente a sua própria condenação. Junto com os exageros, um pouco de verdade também é sacrificada. E o resultado é frio, reticente e relutante.
Resumindo, eu poderia ter falado sempre mais fortemente do que falei.
Tradução de Yader Marques/2010
domingo, 14 de março de 2010
sexta-feira, 12 de março de 2010
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