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domingo, 28 de novembro de 2010

Bergman em ação


De luzes e sombras


De luzes e sombras

Novembro de 2010

Querido  macbook, boa tarde .Termina uma semana turbulenta no país - as televisões mostram cenas de guerra urbana, incêndios de veículos por todo o Rio de Janeiro, imagens  descoladas daquelas do paraiso da sensualidade e de belezas  naturais que a cidade reivindica como seu clichê preferido. E a enormidade indecente das favelas  cariocas é escancarada e esmiuçada como nunca antes  nas cameras de TV - um circo de horrores do real social brasileiro...
Aqui nas minha montanha, depois de uma semana de tempo fechado e temporais, um sol aparece lindo, iluminando o verde intenso dos matos. O riacho  ruge mais forte e já não consigo atravessá-lo como antes pulando pelas pedras, é preciso pisar no leito agitado e pedregoso para chegar do outro lado. Outro dia  uma turma de roedores passou em correria pelo gramado do parque, seriam eles guaxinins, com pelo marrom e  uns rabos peludos e grandes? Será eles que cavam os buracos grandes que descubro sempre no terreno ao redor da casa?
Comecei a ver meio por acaso filmes de Ingmar Bergman, trouxe  um DVD de São Paulo - Através de Um Espelho. Aqui descobri muitos e muitos outros numa excelente locadora. E uma amiga me  presenteou com a autobiografia dele, Lanterna Mágica. Li em dois dias, apesar da tradução e da editoração bem ruins é bem escrita e envolvente. Conhecia apenas os filmes mais famosos dele: Morangos Silvestres, O Sétimo Selo, Persona, Fanny e Alexander, A Fonte da Donzela, Gritos e Sussurros... Redescobrir sua obra é fascinante, especialmente depois de ler seu livro. Ele não escreve em ordem cronológica. Começa com a infância, depois a vida adulta rica e agitada de cineasta e diretor de teatro, de muitas relaçoes amorosas e matrimoniais, numa ciranda que começa em 1918 e termina  em 2007. Bergman foi também um grande diretor teatral, dirigiu o Teatro Nacional da Suécia durante  muitos anos. Encenou e dirigiu  mais de cento e cinquenta peças durante sua longa vida profissional. Devem existir poucos registros em cinema ou video de suas montagens. Fez  também nas sua última década produtiva alguns filmes para a televisão. Me parece que no teatro deve ter sido um diretor mais clássico, que gostava de cenários de acordo com o imaginado  pelos autores, de encenar todas as falas, e não de muitas inovações radicais. E era com certeza, como no cinema, um perfeccionista, com um senso de ritmo, clareza e trabalho de atores impecável. Sempre foi fascinado pelo seu conterrâneo Strindberg e montou peças dele ao longo de toda a vida.  Dirigiu um teatro em Munique no seu  auto-exilio do final dos anos setenta  e começo dos oitenta na Alemanha. Foi, segundo  ele conta, uma experiencia desastrosa, tinha problemas com a lingua  e não estava consciente do contexto social do teatro alemão, muito diferente daquele da Suécia. Seus filmes desta época também não foram nenhum sucesso. Lembro de O Ovo da Serpente, que vi em New York com uma amiga numa tarde de inverno fria e chuvosa. Saimos do cinema na Segunda Avenida arrasados,  sem dizer palavra, abraçados em nossos casacos quentes e a procura de um bar ou café acolhedor para sentir que a vida real não era assim tão miserável...Outro filme desta época, que não foi nenhum sucesso é Da Vida das Marionetes, que acabo de ver também em DVD, e achei magnífico: contemporâneo, urbano, sem concessões,  com personagens bem construidos e envolventes. Está claro nos seus filmes que ele filmava  o que sentia e queria expressar naquele momento específico e seu total controle do produto artístico. Sempre foi um cineasta autoral, dai sua grandeza, seus enormes acertos e alguns erros que ele assume plenamente também. Teve sorte neste sentido. Nunca faria uma carreira longa em Hollywood, seria com certeza logo posto de lado aos primeiros fracassos de bilheteria. Orson Welles tentou impor sua marca genial no cinema americano e foi logo marginalizado, depois de alguns filmes memoráveis. Acabou velho e obeso fazendo comercias  de bebidas, um Falstaff exótico de plantão. Liv Ullmann, uma das musas de  Bergman, diz numa entrevista que ele era  antes de tudo um grande diretor da sua própria vida. Era um homem atraente, alto e magro, com um nariz marcante, sensivel. Teve muitas mulheres, entre affairs e casamentos, e muitos filhos também. Fala quase nada dos filhos, parece que nunca teve tempo e direcionamento para ser um pai de verdade. Fala bastante da infância (que ele cinematografou  lindamente em Fanny e Alexander), dos pais e dos irmãos, e especilmente da mãe. As últimas páginas do livro são uma visita imaginária a casa dos pais e um diálogo  também onírico com a mãe. Envolveu-se com várias das suas atrizes. Não tinha uma saúde de ferro, tinha cólicas intestinais, problemas de sono e muitas paranóias. Seu filme A Hora do Lobo não é gratuito. Quando foi acusado pelo fisco da Suécia de sonegação e ameaçado por processos, surtou e teve que ser internado numa clínica. Mas sua persona artística se recompos e voltou a  escrever e a filmar. Viveu os últimos anos na ilha de Fåro, pela qual se apaixonou desde que lá foi filmar, nos anos sessenta  Através de um Espelho. Morava sòzinho em uma bela casa rústica que construiu nos rochedos a beira-mar, e onde viveu com Liv Ullmann alguns anos também. Dava passeios matinais pela ilha, assistia filmes num cineminha privado que construiu num celeiro, revia e organizava sua papelada  e os filmes de toda uma vida, escrevia, e eventualmente dava entrevistas.  Bergman ficará para sempre, enquanto a magia da salas escuras e das figuras em movimento existir. Acendam a lanterna mágica, e acionem o teatrinho de sombras!
Obrigado, Ingmar Bergman.

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São Paulo, São Paulo, Brazil