segunda-feira, 29 de novembro de 2010
domingo, 28 de novembro de 2010
De luzes e sombras
De luzes e sombras
Novembro de
2010
Querido macbook, boa tarde .Termina uma semana
turbulenta no país - as televisões mostram cenas de guerra urbana, incêndios de
veículos por todo o Rio de Janeiro, imagens descoladas daquelas do paraiso da sensualidade e de belezas naturais que a cidade reivindica como seu
clichê preferido. E a enormidade indecente das favelas cariocas é escancarada e esmiuçada como
nunca antes nas cameras de TV - um
circo de horrores do real social brasileiro...
Aqui nas
minha montanha, depois de uma semana de tempo fechado e temporais, um sol
aparece lindo, iluminando o verde intenso dos matos. O riacho ruge mais forte e já não consigo atravessá-lo
como antes pulando pelas pedras, é preciso pisar no leito agitado e pedregoso para
chegar do outro lado. Outro dia uma
turma de roedores passou em correria pelo gramado do parque, seriam eles guaxinins, com pelo marrom e uns rabos peludos e grandes? Será eles
que cavam os buracos grandes que descubro sempre no terreno ao redor da casa?
Comecei a
ver meio por acaso filmes de Ingmar Bergman, trouxe um DVD de São Paulo - Através de Um Espelho. Aqui descobri
muitos e muitos outros numa excelente locadora. E uma amiga me presenteou com a autobiografia dele, Lanterna Mágica. Li em dois dias, apesar da tradução e da editoração bem
ruins é bem escrita e envolvente.
Conhecia apenas os filmes mais famosos dele: Morangos Silvestres, O Sétimo
Selo, Persona, Fanny e Alexander, A Fonte da Donzela, Gritos e Sussurros... Redescobrir
sua obra é fascinante, especialmente depois de ler seu livro. Ele não escreve
em ordem cronológica. Começa com a infância, depois a vida adulta rica e agitada
de cineasta e diretor de teatro, de muitas relaçoes amorosas e matrimoniais,
numa ciranda que começa em 1918 e termina em 2007. Bergman foi também um grande diretor teatral, dirigiu
o Teatro Nacional da Suécia durante
muitos anos. Encenou e dirigiu mais de cento e cinquenta peças durante sua longa vida profissional.
Devem existir poucos registros em cinema ou video de suas montagens. Fez também nas sua última década produtiva alguns
filmes para a televisão. Me parece que no teatro deve ter sido um diretor mais clássico,
que gostava de cenários de acordo com o imaginado pelos autores, de encenar todas as falas, e não de muitas inovações radicais.
E era com certeza, como no cinema, um perfeccionista, com um senso de ritmo, clareza
e trabalho de atores impecável. Sempre foi fascinado pelo seu conterrâneo Strindberg
e montou peças dele ao longo de toda a vida. Dirigiu um teatro em Munique no seu auto-exilio do final dos anos setenta e começo dos oitenta na Alemanha. Foi, segundo
ele conta, uma experiencia
desastrosa, tinha problemas com a lingua e não estava consciente do contexto social do teatro alemão, muito
diferente daquele da Suécia. Seus filmes desta época também não foram nenhum
sucesso. Lembro de O Ovo da Serpente, que vi em New York com uma amiga numa tarde de inverno
fria e chuvosa. Saimos do cinema na Segunda Avenida arrasados, sem dizer palavra, abraçados em nossos
casacos quentes e a procura de um bar ou café acolhedor para sentir que a vida
real não era assim tão miserável...Outro filme desta época, que não foi nenhum
sucesso é Da Vida das Marionetes, que acabo de ver também em DVD, e achei magnífico: contemporâneo,
urbano, sem concessões, com personagens bem construidos e
envolventes. Está claro nos seus filmes que ele filmava o que sentia e queria expressar naquele
momento específico e seu total controle do produto artístico. Sempre foi um
cineasta autoral, dai sua grandeza, seus enormes acertos e alguns erros que ele
assume plenamente também. Teve sorte neste sentido. Nunca faria uma carreira
longa em Hollywood, seria com certeza logo posto de lado aos primeiros
fracassos de bilheteria. Orson Welles tentou impor sua marca genial no cinema americano e foi
logo marginalizado, depois de alguns filmes memoráveis. Acabou velho e obeso
fazendo comercias de bebidas, um
Falstaff exótico de plantão. Liv Ullmann, uma das musas de Bergman, diz numa entrevista que ele
era antes de tudo um grande diretor
da sua própria vida. Era um homem atraente, alto e magro, com um nariz marcante, sensivel. Teve muitas mulheres, entre affairs e casamentos, e muitos filhos também.
Fala quase nada dos filhos, parece que nunca teve tempo e direcionamento para
ser um pai de verdade. Fala bastante da infância (que ele cinematografou lindamente em Fanny e Alexander), dos pais e dos irmãos, e
especilmente da mãe. As últimas páginas do livro são uma visita imaginária a
casa dos pais e um diálogo também
onírico com a mãe. Envolveu-se com várias das suas atrizes. Não tinha uma saúde
de ferro, tinha cólicas intestinais, problemas de sono e muitas paranóias. Seu
filme A Hora do Lobo não é gratuito. Quando foi acusado pelo fisco da Suécia de sonegação e ameaçado
por processos, surtou e teve que ser internado numa clínica. Mas sua
persona artística se recompos e voltou a
escrever e a filmar. Viveu os últimos anos na ilha de Fåro, pela qual se apaixonou desde que lá foi filmar, nos anos sessenta Através de um Espelho. Morava sòzinho em uma bela casa rústica que
construiu nos rochedos a beira-mar, e onde viveu com Liv Ullmann alguns anos também.
Dava passeios matinais pela ilha, assistia filmes num cineminha privado que
construiu num celeiro, revia e organizava sua papelada e os filmes de toda uma vida, escrevia, e eventualmente dava
entrevistas. Bergman ficará para
sempre, enquanto a magia da salas escuras e das figuras em movimento existir. Acendam
a lanterna mágica, e acionem o teatrinho de sombras!
Obrigado, Ingmar Bergman.
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