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terça-feira, 22 de novembro de 2011

Interiores

Interiores com drama

Revejo  o estranho e atípico filme de Woody Allen, de 1978, depois de uns trinta anos. Foi o primeiro filme seu em que ele não é tambem ator, escreveu o roteiro e dirigiu apenas. E é declaradamente inspirado no seu mestre, Ingmar Bergman, e com acentos do teatrólogo americano Eugene O'Oneill. A surpresa e a diferença deste para seus filmes anteriores chocou os críticos  americanos e o público  de Allen na época do lançamento. Para mim é um dos seus filmes que mais resistem ao tempo, sem as tradicionais alusões a ícones culturais e preferências intelectuals do autor. A fotografia é do parceiro de Allen em muitos dos seus próximos filmes, Gordon Willis. A direcão de arte é magistral, com os elegantes interiores em tons de cinza, pastel, beiges, azuis e verdes desbotados. As primeiras imagens são apenas de ambientes - salas elegantes, janelas e cantos vazios. E o filme corre sem uma trilha sonora comentando as imagens, uma coisa radical para um filme americano. Os ambientes são clean e super elegantes, como os personagens da família - a mãe neurótica e esteta radical, o pai advogado, e as três filhas mulheres. Uma é poetisa reconhecida, passando por uma crise de criação. Outra  é angustiada e quer se expressar artisticamente, mas não tem talento aparente para nada. A terceira é a mais "superficial  e física" das irmãs, atriz de TV em Hollywood a espera de  um papel decente no cinema. A escritora vive um casamento atormentado com o marido também escritor, que não escreve  nada relevante e bebe bastante. Os críticos americanos enfatizaram a falta de "continuidade" no filme. Realmente poucos eventos, pouca ação acontece, como o anúncio pelo pai do abandono da casa na mesa de refeição, o encontro do casal já separado na igreja, a apresentação`as filhas da nova mulher pelo pai, a pequena recepção quando ele se casa de novo. A nova mulher é madura também, mas sensual, chega vestida de vermelho, cheia de vida e quase vulgar. As personages femininas vivem seus pequenos dramas nos belos interiores decorados pela mãe, e com seus maridos no pano de fundo. Um drama sobre mulheres. A mãe destroçada e frágil, mas sempre ameaçadora, é vivida pela superlativa  Geraldine Page, que foi uma atriz de destaque no teatro também, aqui no seu último papel no cinema.
Uma história de pessoas inteligentes, criativas, sem problemas materiais,  mergulhadas no seus pequenos dramas e inadequações, sonhos, ciúmes,  carências e rejeições familiares. Um mundo de pessoas reais, em um determinado tempo e espaço, contemporâneas.
Na parte final, entram as  imagens do mar cinza, frio e ameaçador de Long Island, Puro cinema, e de qualidade. Está no ar a tragédia final, com o suicídio da mãe que caminha pela praia deserta para o mar, em busca do nada.
Beleza e economia, força e contenção neste filme tão fora dos padrões e das rotinas de Hollywood, e do próprio Woody Allen.

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

A Virgem


De volta ao Reino Encantado


De volta ao Reino Encantado

Boa trade nublada, macbook. Uma amiga tem um grande acervo de livros
familiares, de muitas décadas, e sabendo que eu amo livros velhos 
me oferece uma visita ao seu "sebo" particular. Uma pequena festa. Saio da 
lá com pocket books deliciosos de Bernard Shaw, Gorky, Thornton 
Wilder. Deste, lembro de já ter tido e lido uma edicão em português de The 
Bridge of San Luis Rey ( A Ponte de São Luis Rei). Agora mergulho no 
original em inglês. Pouco sei de T.Wilder, a referência maior é a de um
autor tipicamente americano, que imortalizou a small time America em 
peças antológicas como Our Town. Ele viveu no Oriente quando criança, 
estudou na California e em Roma na American Academy quando jovem. 
Não lembrava da história, apenas de que na época achei o livro muito especial. 
Ele é um contemporâneo (produziu na primera metade do século vinte) que 
incursiona neste romance pelo gótico. O livro é de 1927, pequeno, com pouco 
mais de cem páginas. Ganhou nos EUA o Pulitzer Prize.
No Peru, entre Lima e Cuzco, no ano de 1714, uma velha ponte de cipós 
feita há mais de um século pelos nativos desaba nas montanhas e mata cinco
pessoas. Um religioso peruano tem uma idéia fixa - descobrir a ordem natural,
a regra divina por trás das mortes, investigando as vidas de cada uma das
vítimas: 
 - Doña Maria, Marquesa de Montemayor, uma personagem excêntrica da
 colonia, muito rica e peculiar, e cujas cartas para a filha na Espanha 
virariam, com o passar dos séculos, um monumento da literatura espanhola. 
- sua acompanhante, a orfã  adolescente Pepita. 
- o jovem Esteban, também orfão, que deixa vivo o irmão gêmeo Manuel. Eles 
são  misteriosos, reclusos e recatados, um tanto aventureiros e inseparáveis.
- Uncle Pio (Tio PIo), um espanhol aventureiro e sábio, que vive na corte do Vice-Rei peruano, e faz acontecer, no estilo 
pigmaleonesco de Bernard Shaw, a maior atriz e diva dos palcos peruanos,
 La Perichole.
- O menino doentio Don Jaime, filho da  musa Perichole com o Vice-Rei do Perú,
 Don Andrés  de Ribera.
Outros personagens pontuam o livro também: o Vice-Rey cheio de vícios, o
arcebispo glutão nas suas vestes de tafetá lilás, a magnânima abadessa do 
Convento, protetora dos velhos, doentes, órfãos e desvalidos, e o Capitão 
Alvarado, navegador de muitos mares.
O livro do padre não chega a conclusão prática nenhuma, e acaba sendo
 condenado pela Inquisicão e levando o autor à fogueira. Mas as vidas contadas
 por T.Wilder fazem sentido e tem relevância, memo que não se saiba dos
 desígnios  que as levaram a atravessar a ponte naquele dia trágico.
A vida literária e teatral da colonia, as relações socials da época, as 
referências ao reino de Espanha distante, o sofrimento dos seres nas suas
circunstâncias tão particulares, ganham vida na prosa iluminada de Thornton 
Wilder. Uma obra que não envelheceu, genial da primera a última linha.
Desço para a cozinha, já é começo da noite. Na ponta da mesa, paira um
enorme grilo, encorpado e marron. Será ele um grilo falante? Uma cabeça 
com uma couraça medieval, pernas gigantescas - qual a inspiraçao para um
design tão delirante na natureza? Delirante para nós, claro, bichos humanos
auto-centrados. Tento captá-lo com um saco de plástico, ele passa da mesa 
ao chão em saltos acrobráticos. Finalmente consigo, e o devolvo pela janela 
à noite lá fora. Bons passeios e boa noite, grilo marron.

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Melancholia, muita...

Melancholia
Bom dia macbook. Um dia frio e nublado na serra, de volta da grande cidade.
Experienciei o últlmo Von Trier, Melancholia. Este cineasta pontuou o cinema
contemporâneo quando fez o magnifico Dogville. Foi a primeira vez  que vi na tela
o que Bertold Brecht procurou intensamente no teatro - o distanciamento emocional e crítico. Brecht conseguiu isto, sem deixar de fazer uma obra apaixonante para o expectador e que não ficou datada com o passar de algumas décadas.
Em Dogville Von Trier trabalhou o habitat  de uma  comunidade com cenários
praticamente virtuais, coisa que só o teatro contemporâneo havia tentando até então. No filme, não nos projetamos nem nos identificamos com os personagens, antes refletimos sobre suas vidas e ações - pequenas vidas sem grandeza ou amor real, regidas por ações mesquinhas,e interesseiras, humanas contudo.
Verifico que quase sempre que gosto dos primeiros takes de um filme, vou gostar de todo o resto. Von Trier tem se revelado um mestre nas apresentações de suas obras. A de O Anti-Cristo é de tirar o folêgo, ao som da ária  "Lascia ch' io pianga", da ópera Rinaldo de Hændel (1711), em imagens de tom noturno e azulado, que comentam a história do filme. Infelizmente, acho que a narrativa se perde e não chega a lugar nenhum, emaranhando numa floresta de violências sem sentido o casal em crise com a morte do filho.
Melancholia abre com a música  envolvente e solene do prelúdio do primeiro ato de Tristão e Isolda, de Wagner, e com imagens oníricas e não realistas que comentam também a história que vai ser contada.
O filme funciona como uma ópera visual em dois tempos: Justine e Claire.
O tempo das imagens, da montagem, é dado pela tempo da música  - uma lentidão suave, que flui ao som solene de Wagner. Mil anos longe de Hollywood e suas rotinas. No primeiro tempo, Justine, a jovem loira e bem sucedida, "desconstrói" o filme da sua vida, no evento mais emblemático da felicidade de uma mulher normal, o casamento com um homem apaixonado, vestida de noiva e em uma festa perfeita, em um palacete perfeito. Ela não participa realmente de nada daquilo - a união não se consuma, começa e acaba ali mesmo.
O segundo ato, Claire, é o mundo da irmã assentada no casamento, equilibrada,
com um filho pequeno e um marido, vivendo numa mansão com deslumbrantes jardins e arredores. Justine é resgatada pela irmã e trazida do seu torpor para o calor da família. Paira no ar a expectativa da aproximação de um enorme planeta,  Melancholia, que pode passar ao largo do nosso, ou se chocar com ele. A família mergulha numa expectativa ansiosa . O pai monitora os céus com um poderoso telescópio. Claire internaliza o medo que envolve a todos. Só Justine permanence calma, enquanto  revela  sua alma de bruxa vidente, loira e desencantada. Correntes magnéticas escapam pela ponta dos seus dedos. A natureza  dá sinais de desassossego, chuvas brilhantes caem do céu, os cavalos de montaria
se comportam estranhamente. O mundo está a beira do não prevísivel. Quase
como em nosso mundo real, tão cheio de catástrofes... Ironicamente, é um visor
tosco - uma argola de arame feita pelo menino - que dá a dimensão real da aproximação do imenso e belo planeta. O gramado, e os jardins geométricos da propriedade são o cenário ideal para vivenciar com grandeza
e estilo o Gran Finale. Von Trier disse que quis fazer um filme romântico.
Talvez sobre o romantismo possível nestes tempos estranhos do nosso planeta. Um calmo terror. O Universo é a nossa casa. Durmamos não tranquilos. Boa noite,
Cinderelas.

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Do amor e de mentiras


Do amor que não dizia seu nome e de mentiras

Boa tarde macbook. Frio seco na serra, sol bonito dourando o dia, antecedendo as noites frias. Transplantei hoje uns lírios cor-de-rosa,  raizes de bulbos brancos e grandes, para compor o visual de uma pedra imensa a beira do riacho. As flores só espoucam no fim do verão, me parece. Lembro da minha mãe na sua bela voz de mezzo-soprano, citando a Bíblia quando falava dos seus lírios; "Nem Salomão em toda a sua glória se vestiu como os lírios do campo." E vejo um filme de William Wyler de 1961, em preto e branco, The Children's Hour ("Infâmia"), baseado na peça de Lillian Hellman escrita no começo  dos anos trinta, e um enorme sucesso na Broadway. Foi a primeira peça dela, aos 29 anos, da época  em que foi trabalhar em Hollywood como leitora de textos para estúdios, e tinha acabado de conhecer Dashiell Hammett - o escritor policial de The Maltese Falcon, que virou um filme noir de John Huston. Ele a ajudou bastante no redação final da peça, que foi proibido em várias cidades americanas e em Londres na época - fala da suposta relação homossexual de duas jovens professoras que tem uma escola para meninas ricas na Nova Inglaterra. Mas este não é  o tema central da peça, como disse a própria Lillian, ela é mais sobre o poder destruidor da mentira e da calúnia. As professoras são acusadas por uma menina problemática e mentirosa de terem um caso amoroso. A escola acaba sendo fechada. As moças recorrem na justiça, ficam conhecidas na mídia do país, mas não conseguem se livrar da acusação até quase o final do filme (ou da peça) - quando a mentira da menina e sua cúmplice é desmascarada. Mas aí já é tarde demais. Uma delas (vivida no filme  por Audrey Hepbun) é noiva do médico bom-partido da cidade, estavam planejando se casar, mas a relação não resiste ao escândalo. A outra professora (Shirley MacLaine) acaba se  suicidando. Na verdade esta última ama profundamente a amiga desde os tempos da faculdade, mas a paixão nunca chegou a ser concretizada. O filme chega a ser pudico. O próprio Wyler tinha dirigido em 1939  outra versão da peça para cinema - onde a denúncia é sobre uma das professoras estar tendo um caso com o noivo da outra, já que nem a  suposição de lesbianismo seria aceitável na época em Hollywood. Lillian Hellman teve outras peças de grande sucesso, como Little Foxes,  que virou filme também. Ela e seu parceiro Hammett, namorados eventuais  por toda uma vida regada a grandes bebedeiras, foram intelectuais engajados na esquerda americana antes da Segunda Guerra Mundial. Ela visitou a Rússia, chegou a simpatizar com Stalin, foi a Espanha durante Guerra Civil, a Paris, conheceu Hemingway na Europa. Durante o macartismo tiveram que comparecer no  aterrorizante Comitê de Atividades Anti-Americanas do senado americano. Nem ela nem Hammett denunciaram ninguém. Hammett se recusou mesmo a depor, e foi  mandado para a prisão por alguns anos. Lillian depôs, mas se recusou a apontar o dedo para colegas de Hollywood e do teatro. Foi para a lista negra, impedida de trabalhar "na indústria" por alguns anos. O dramaturgo Arthur Miller (autor de The Crucible A View from The Bridge) também  foi intimado e não abriu o bico. Levou na audiência sua estonteante esposa Marilyn Monroe, que roubou totalmente a cena da mídia em Washington. Nos anos setenta Lillian Hellman, já velha, escreveu sobre a sua aventurosa vida pessoal e profissional, foi muito lida, reconhecida e ganhou premios  com An Unfinished Woman, Pentimento, Scoundrel Time. Tive o prazer de fazer a capa destes livros na sua edição brasileira. Algumas peripécias que ela conta em Pentimento, como a de Júlia (que virou filme com Jane Fonda  fazendo seu papel), foram depois contestadas por vários intelectuais como sendo apropriações de histórias que ela nem viveu. Seus livros são, contudo, documentos pessoais ricos e bem escritos de uma época ímpar na cultura do primeiro  mundo no século XX. Lillian Helman foi uma mulher corajosa, bem sucedida, de espírito brilhante e atenta a seu tempo, feminista de fato antes do movimento explodir na cultura americana.Uma vida que valeu a pena sem dúvida, e deixou um legado artístico muito interessante até hoje.

quinta-feira, 14 de julho de 2011

Film Noir


Boa tarde macbook, boa tarde  de sol da Cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro, sol brumoso de inverno.  Vejo "Pacto de Sangue" (Double Indemnity), o terceiro filme dirigido pelo  europeu Billy Wilder em Hollywood. Começava nos idos de 1944 um novo gênero do cinema em Hollywood, o film noir, mas esta definição estilística só seria dada pelos  críticos franceses alguns anos depois. O pós-guerra desolador, mesmo economicamente progressista, desmontava os castelos de fantasias dos estúdios, o publico queria ver nas telas histórias que refletissem o mundo real, com suas mazelas, crimes, traições e baixezas. O infame Código Hays tentava ainda higienizar e engessar o conteúdo dos filmes dentro de normas moralistas e defasadas a estas alturas do século XX. Wilder se apaixonou pelo livro e a Paramount comprou a novela  policial de James M. Cain, baseada em um julgamento acontecido em New York - uma esposa infiel  planejou com o amante matar o marido  para ficar com a grana do seguro. Ele trabalhou meses no roteiro, em uma parceria cheia de rusgas, com Raymond Chandler, outro  autor policial genial (Farwell, My Lovely, The Big Sleep). A fotografia de John Seitz é cheia de claros-escuros, sombras de persianas projetadas em interiores dark. As cenas parecem ir emergindo para a luz a partir da escuridão das ruas, avenidas e interiores sombrios de Los Angeles. O cast  de atores é perfeito: Barbara Stanwick, uma atriz carismática  e versátil, na época no topo de sua  carreira no cinema americano, o galã  bom-moço Fred MacMurray, que faz o amante e corretor de seguros com cara de vizinho inofensivo, mais o inesquecível Edward G. Robinson. Barbara faz a esposa fatal e meio cafona, com sua peruca loira barata, pulseirinha no tornozelo,  suéteres de angorá branco e óculos escuros "gatinho". Definitiva. Do mesmo ano é também outro clássico noir, Laura, de Otto Preminger, também europeu emigrado como Wilder. A femme fatale do filme é Gene Tierney, uma jovem atriz cujo caminho foi aberto pela extrema beleza. Ela namorou John Kennedy e foi preterida por ele, que escolheu a adequada Jackie para ser sua esposa. Os figurinos e interiores deste flick são de muito bom gosto, novaiorquinos e sofisticados. Vincent Price aparece jovem e elegante , antes de virar  o ator-ícone dos filmes de terror. E a canção-título, Laura, composta por David Raksin, virou um clássico da canção americana.
Outro filme, agora o da minha infância. Meu pai, um estilo Phillip Marlowe latino, de cabelos pretos gomalinados, de terno e chapéu de feltro, as vezes de sobretudo no frio planalto catarinense. Amava as revistas X9 que ele lia na cama até altas horas, fumando cigarros Continental sem filtro. Eu folheava  também no seu criado mudo a Mistério Magazine de Ellery Queen, outra revista de contos policiais, no formato menor da também imperdível Seleções do Reader's Digest. Nas capas da X9 sempre uma vamp de peitos empinados, de olhar killer, e alguém no background empunhando um revólver fumegante. Meu pai tinha um Citroen preto, um dos carros mais bonitos feitos até hoje, a meu ver. Minhas viajens com ele, um hotel  clássico de janelas altas e meio sombrio na Avenida São João em São Paulo (quando ela ainda era uma via chic). O acompanhava nas visitas às garagens de venda de carros, sentindo sempre muita vergonha dele por barganhar o preço  com os vendedores. Em que filme eu vivia? Era um príncipe de calças curtas, claro, e acima  das questões corriqueiras da vida. O cinema enchia minhas tardes de sábado de sonhos, mansões, galãs heróicos, metrópoles sofisticadas cheias de luzes e vida noturna. Divas de cabelos prateados e morenas fatais envolvidas em peles caras circulavam pelos salões e jardins, seduzindo os galãs indefesos. Bocas com batom vermelho bem delineadas, em cabeças de deusas, fumavam em piteiras e soltavam a fumaça para cima junto com olhares fulminantes. A vida seria um grande filme. Obrigado, cinema.

terça-feira, 5 de julho de 2011

Na companhia de D.H. Lawrence


Na companhia de Lawrence

Boa tarde, macbook. O inverno mostra sua cara, e envolve em  brumas frias e chuva fina as montanhas da serra carioca. Gravo uma  longa trilha sonora para embalar o dia cinza - jazz, brasileiros, cantoras principalmente, não saio muito do repertório que sempre  ouço (mas quem sai?!): Sarah, Ella, Elis, Stacey, Callas, Tekanawa, Amy, e alguns outros. Leio o texto de um escritor americano, Schorer, que nos anos cinquenta percorreu a Itália prescrutando  as casas onde escritores famosos viveram. Fala das casas de Sinclair Lewis, que  eu nunca li, e de D.H. Lawrence. Ambos escolheram vilas nas cercanias de Firenze para viver. Lawrence ficou na região por dois anos, na Villa Mirenda, com sua  mulher Frieda, nos anos de 1927 e 1928. A Europa já vivia os anos de loucura e delírios políticos e culturais que acabaram na Guerra Civil espanhola, no facismo, no nazismo e na Segunda Guerra finalmente. Foi uma  das últimas pousadas deste  inglês wanderer, que zanzou pela Austrália, pelo Sri Lanka, pelos EUA, e extensivamente pela Europa. No Novo México teve um rancho em Taos, que trocou por direitos literários. Lá escreveu a noveleta Saint Mawr, a primeira coisa dele que li e amei, quando ainda morava em New York. Já tuberculoso, com crises sérias de pulmão nesta estadia italiana, estava a quatro anos do seu fim - que aconteceu em Vence, no sul da França, em 1930. Tinha apenas quarenta anos, e sabia que o tempo era precioso. Escrevia muito, e pintava também. Suas telas  expostas em Londres em 1929 foram execradas e confiscadas pela polícia do britânico e moralista império. Nesta paisagem de olivais, vinhedos e rebanhos de ovelhas, escreveu sua obra mais famosa em apenas cinco semanas - Lady Chatterley's Lover. Trabalhou em várias versões do texto. Escrevia na torre do segundo andar da velha casa que alugou, vendo a paisagem ao redor de Firenze, ou nos bosques de pinheiros próximos, quando fazia calor. Via poucos amigos, como Aldous Huxley, que morava na Itália também nesta época. O romance foi publicado cheio de cortes  nos EUA em 1928, e proibido na Inglaterra até 1960, acreditem, quando um tribunal finalmente  julgou o livro não "imoral". Em parceria  com um livreiro de Firenze, Orioli, ele mesmo publicou uma edição privada e luxuosa do romance, que vendeu muito (sob encomenda) e lhe ajudou a viver estes útimos anos de périplo  pela Europa com sua mulher Frieda. Escreveu ensaios sobre a arte etrusca italiana e muita poesia também no retiro italiano. Lawrence foi um grande  cronista de viagens. Amava a natureza, e mostrava na sua obra que havia algo profundamente equivocado na maneira como a cultura vitoriana e cristã dominante do começo do século vinte  tratava o corpo, as interações de amor e de sexo entre as pessoas. Mais um precursor genial das revoluções de comportamento do século vinte. Ele não viveu para ver. Muitos tempos de horror e morte aconteceriam ainda até que algumas luzes começassem a acender a partir dos sonhadores anos sessenta. Como também não viveram outros profetas de um novo tempo  que se foram logo nos primeiros anos deste século louco - Paul Gauguin e Oscar Wilde. Sua sepultura final está no Novo México, que ele tanto amou. Viva, D.H.Lawrence.

terça-feira, 28 de junho de 2011

Nas cidades

Boa noite, macbook. Olho as luzes  da cidade das janelas altas de  um apartamento, aqui na grande cidade. As cidades são muito intensas. As cidades são grandes ilusões coletivas. As cidades não se explicam em um piscar de olhos. As cidades tem mil caras que lhe enganam todo o tempo. As cidades tudo tem. As cidades escoam as pessoas e seus brilhos fugazes. Suas cores e personagens  recônditos não aparecem em fotos nos jornais, nas revistas  de glamour nem nos sites mais visitados. A urbs nos assusta e nos dá prazeres. Estimula o nosso desejo de conquistá-la. Nos vestimos para ela, comemos os pratos que ela nos propõe. Nosso olhares são domesticados e orientados por ela. Olhamos  os outros, mas não podemos vê-los ou tocá-los - seus olhares são tão padronizados como os nossos, e nos amesquinham em geral (como o nosso também os amesquinham), nos engrandecem muito eventualmente. Mas nada nas metrópoles  é definitivo. Tudo é impermanência. Seus pequenos e míseros personagens  nos cantos de rua, nos becos escuros e sujos talvez a façam digna dos deuses. Quase nada nestes monstrengos da civilzação - as cidades - é sagrado. Nela tudo que é belo é projetado, planejado, negociado em milhões, protegido, murado, publicado, ostentado, marcando territórios e poderes. A beleza gratuita ocorre apenas em pequenos espasmos. A beleza da arte nela é enclausurada, tem que ser buscada e consumida em minutos e horas caros - os outros devem partilhar destes momentos também, para validar nossas fruições. A beleza inusitada acontece às vezes nas ruas, em olhares, corpos que passam rápidos, cabelos, luzes animalescas espoucando como pequenas bombas. O imundo nos persegue nas ruas, calçadas e praças. A assepsia é procurada nos  centros de consumo, com seus cheiros de coisa nova, luzes adequadas, corredores de mármore e madeiras nobres. A cidade é sempre brutal, masculinamente afirmativa.  As mulheres que por ela desfilam devem ser,  por princípio,  agressivamente bonitas, com seus saltos e botas poderosos e casacos de grife como requisitos básicos para a ocupação destes  territórios. Os homens devem andar rápido em seus carros negros e brilhantes, os ternos já não são tão importantes (nem as gravatas de grifes), mas os carros devem denotar sua potência, seu sucesso, sua capacidade de amealhar riquezas. Os óculos escuros marcam o distanciamento, o tédio, o deja vù, a falta de fascínio com as ruas. Um estou aqui mas estou distante - meu mundo não lhe pertence,  apesar da proximidade física asfixiante. A cidade  tem como meta a perfeição, a adequação dos lugares às suas funções - os prédios, as ruas, as praças, o ir e vir,  tem que ser lógicos e ordenados. Lugares que servem ao comércio, a troca, ao escoamento, e muitos pouco aos prazeres - mesmo os lugares do prazer devem ser cuidadosamente demarcados. E grande parte da vida destas cidades escorre por canais transversais, não controlados, imprevistos, e não vigiados  por câmeras. Nelas os despossuídos , os despejados do fluxo, podem gritar seu desconforto, exercer sua sexualidade denegrida. A cidade é o reino das drogas, de muitas delas, não só de uma. Os desvalidos as usam a céu aberto, escancarando seu despudor. Os inseridos escolhem os lugares  acarpetados e  iluminados com bom gosto, aquecidos e privados. Os marginais são a fronteira, o reverso, aquilo pelo que vale a pena ser contra. O perigo deve ficar fora dos muros altos e eletrificados a qualquer custo.  Ele mora  nas praças abandonadas dos ratos gordos,  dos jovens e velhos caídos, dos corpos sujos  e ainda vivos, cheios de sexualidade e ameaças, atuantes. A multidão vem e vai, os rostos no final se parecem todos, os cabelos, os estilos. a postura dos corpos - genéricos  e únicos na labuta do dia, garantindo  o necessário para o sonho, a encenação que algum deus maldito os propôs. Um medo sempre perpassa pelos sinais, pelos cruzamentos, no fluxo da multidão, O agressor  está perto, invisível  mas onipresente - o algoz, o não amigo. Se oriente, não se perca jamais. Precisamos ser fortes. ou mostrar que o somos. Precisamos sempre ir, ver, comprar, voltar, pagar e receber, catalogar,  nos inserir, saber. Precisamos estar vivos. Nas cidades.

As Cidades


domingo, 29 de maio de 2011

Maravilhas Kurosawa


Maravilhas Kurosawa

Boa noite, macbook. Bons meninos e seus diários dormem cedo e tentam ter bons sonhos, mas este não sou definitivamente eu. O frio é intenso  no vale serrano. A noite clara  sobre as montanhas propõe viagens estelares para qualquer olhar cansado. Vejo um Kurosawa de 1951, O Idiota, uma adaptação bem fiel da novela clássica de Dostoiewsky, que eu nunca li. De novo a beleza e a força do cineasta japonês nos tomam de assalto. O "set" é o norte do Japão, Sapporo, e aqui não temos o país pobre e desvastado dos  seus outros filmes da  mesma época, mas uma cidade com casas bonitas, pessoas bem vestidas, mulheres em casacos de inverno elegantes. Dois homens voltam da guerra de trem para  sua cidade natal. Um deles  é um jovem rico, agressivo, másculo e charmoso, vivido pelo galã Toshiro Mifune  (no apogeu físico aos 30 anos), o outro é um homem timido, de sentimentos quase femininos, traumatizado e violentado pela guerra - o "idiota"  do filme. Também uma grande performance de  Masayuki Mori, com seu rosto pálido e as mãos enluvadas sempre  humildemente juntas debaixo do queixo. Eles tem uma  empatia imediata e iniciam uma relação que vai sobreviver às peripécias do filme até o amargo final. Começam disputando  a mulher fatal da cidade, uma beldade "dark"  e de vida  não convencional para os padrões morais da época.  Vivida por uma atriz que foi também musa de Ozu,  o outro grande cineasta  do Japão. A bondade  transparente do "idiota" causa transtorno na mesquinhez das pessoas ao seu redor,  envolvidas nas suas tramóias ambiciosas e materialistas. Ele se envolve também com a filha do seu "padrinho" na cidade, uma moça linda e de  gênio difícil. Um elenco de atores maravilhosos, com a cinematografia clássica do cineasta, um preto e branco um tanto expressionista, deslumbrante. A  metragem original  tinha  mais de quatro horas, e a produção  fez Kurosawa cortar mais de cem minutos do filme. Isto deixa lacunas narrativas, claro, num filme que vai tão fundo  nas tramas passionais dos personagens. A neve caindo sempre, cascatas de gelo  e pessoas minúsculas  vagando pelas paisagens sempre brancas, dão o clima dostoiewskyano e operístico desta obra-prima truncada. Ainda um espetáculo imperdível da cinematografia de todos os tempos.  Obrigado de novo, Kurosawa.

sexta-feira, 20 de maio de 2011

Kurosawa


Cinema, sempre cinema.


Do Oriente, Kurosawa

Bom dia, macbook. Na serra  o frio já chega, gela as noites de lua cheia e orvalha as manhãs bem frescas. A estação é sempre de flores - lilases, vermelhos, amarelos vivos e laranjas espoucam em meio ao verde intenso. Vejo algumas obras de Kurosawa - Rachomon, Ran, Viver, Cão Danado, Ralé. Ele foi contemporâneo de Bergman e de Fellini, e idolatrado por estes mestres. Ran, dos anos oitenta, é uma superprodução internacional a cores, e que cores. Foi baseado em uma lenda de clãs nobres japoneses e em King Lear de Shakespeare. Kurosawa estava saindo de um periodo de suposta decadência como cineasta no seu país, e ficando quase cego, Pouco antes havia tentado até o suicidio. O "storyboard" do filme foi todo desenhado por ele anos antes - estudou pintura e trabalhou como ilustrador antes de virar cineasta. Filmou em parques e castelos japoneses históricos, e um dos castelos foi construido especialmente para ser queimado. As roupas dos clãs, os quimonos, as armaduras de guerra, as bandeiras e os palácios são tão deslumbrantes quanto as paisagens naturais do filme. Os atores tem uma atuação um tanto estilizada, bem teatro Nô - o velho chefe auto-destronado tem uma máscara de velhice e loucura magnifica. Perambula no exílio pelos campos e palácios sempre acompanhado por um bufão saltitante e andrógino. Um dos filmes visualmente mais belos já feitos, a meu ver. A trilha sonora, feita por um músico japones, tem um toque " mahleriano" bem claro.
Os filmes dos anos cinquenta - Cão Danado, Ralé, Viver - são em preto e branco, sempre com um uso magistral da câmera e  montagem com sua marca estilística pessoal. Ele sempre escrevia os roteiros em parcerias também. Há sessenta anos atrás, mostram um Japão de cidades caóticas, com casas precárias, ruas sujas e pessoas pobres e a cultura pop americana entrando para valer na música, nas casas noturnas, nas roupas, nos eletro-domésticos. O mergulho de cabeça do pais no capitalismo de molde americano, que resultou no complexo Japão de hoje, limpo, eficiente e cheio de usinas atômicas. Em Viver, o drama pessoal do velho burocrata de prefeitura, que descobre que vai morrer de cancer, tem como cenário uma burocracia corrupta e emperrada, cheia de pilhas de processos e de funcionários preguiçosos. Igual a uma realidade que conhecemos tão bem aqui deste lado do mundo. Maravilha Kurosawa, recomendo para todos os males. Ele já passou no grande teste da arte - o tempo. Obrigado, mestre japonês.

quinta-feira, 5 de maio de 2011

Transcendência na ilha


Transcendência: dois mestres

Bom dia  macbook. O outono se instala aqui nas montanhas, o sol aparece entre muitas nuvens, as noites e as manhãs são frias.
O vale está cheio de pequenas flores, de pequenas borboletas, de beija-flores, até os roedores de cauda longa que não consegui identificar ainda deram o ar da graça, passando rápidos e fugazes pela paisagem.
Quando vi há muitos anos  O Sacrifício, o filme de Tarkovsky, sabia que tinha visto uma obra transcendental .Senti também um clima totalmente bergmaniano no filme, apesar de naquela na época ainda não ter visto muito da obra do mestre sueco. Revendo o filme agora, confirmo a impressão daquele primeiro encontro. Offret (O Sacrifício), foi o último filme de Tarkovsky, lançado em 1986 no mesmo ano em que  morreu de cancer. Ficou como sua obra testamento. Passa-se numa ilha na costa da Suécia, feito por uma equipe sueca. Um professor de estética, jornalista e escritor, faz na ilha sua  casa e vai viver lá com a familia: ele, sua mulher, uma filha jovem e um filho pequeno de uns seis anos de idade. Mais as duas empregadas da casa e dois visitantes  ocasionais - o médico da familia e o carteiro da ilha. No dia do seu aniversário, o carteiro lhe traz presentes. Uma guerra  nuclear eclode, a Europa está condenada. Autoridades no rádio e na TV anunciam a tragédia, e sua única mensagem é pedir a população para manter a calma e a ordem. Preocupações nada defasadas, me parece. Ouve-se o ruido dos aviões de guerra sobre a ilha, os objetos tremem dentro da casa. A familia e o professor estão à deriva. A mulher carente e cheia de demandas tem uma crise de choro histérico. O professor, solitário dentro da noite, faz uma oração a um Deus que ele aparentemente nunca  invocara antes. E pede a salvação da familia, se oferece em sacrifício. Lamenta a falta de espiritualidade e a selvageria da civilização de consumo moderna, tão em desacordo com a natureza. O estranho carteiro vem lhe visitar no meio da noite, e lhe comunica que a salvação possível está nas mãos da empregada da casa, a lituana Maria, misto de santa e bruxa solitária. Ele vai procurá-la no meio da noite, indefeso e frágil. A empregada o recebe na sua casa  lhe consola, acabam fazendo sexo na cama humilde. Sonho e realidade na noite deserta da ilha. A cena do casal levitando lentamente da cama, abraçados, é inesquecivel. A mítica figura da empregada já tinha sido tão bem realizada por Bergman em Gritos e Sussuros, na figura de Ana, que no seu colo farto e quente abriga a irmã moribunda da casa. O professor segue em frente no seu delirio, veste seu quimono japonês e ateia fogo na casa que tanto ama. Acaba sendo levado por uma ambulância de sanatório, como a jovem psicopata Karen de Através de um Espelho, de Bergman. A fotografia, em tonalidades de cores desbotadas,  é de Sven Nykvist, o fotógrafo marca-registrada de Bergman. As tomadas são longuíssimas, muitos planos abertos onde as pessoas circulam minúsculas pela paisagem da ilha. O papel do intelectual (e ex-ator também) é magistralmente vivido por Erland Josephson já maduro - um dos atores bergmanianos preferidos. O cenário desolado da ilha também não poderia ser mais bergmaniano. A  bela casa é cenográfica, construida para a filmagem, e foi realmente queimada no final. Os negativos da primeira filmagem foram inutilizados. e teve que ser reconstruida para ser incendiada de novo. A trilha mistura a Paixão Segundo São Mateus de Bach com flautas japonesas. No início do filme o professor planta a beira-mar uma árvore seca, junto do filho, que está mudo temporàriamente depois de operar a garganta. Lhe fala do milagre do monge budista  que regou por anos uma árvore seca até o dia em que ela amanheceu cheia de flores. No final, o menino volta a se deitar perto da árvore morta, e fala pela única vez no filme: "No princípio era o Verbo". O filme termina em uma longa tomada da árvore, que aparentemente começa a mostrar algumas folhas novas. Tarkovsky, que estava  morrendo jovem e em plena maturidade criativa, dedica o filme a seu filho real. Esperança no ar. Obrigado, Tarkovsky.

sexta-feira, 15 de abril de 2011

Uma trupe esotérica

Uma trupe  esotérica e sedutora

Bom dia macbook. Bom dia borboletas amarelas e brancas, florezinhas, formigas, besouros, lagartos, lagartixas, passarinhos, aranhas e suas teias complexas. Vejo de novo "O Rosto", filme da fase das fábulas góticas de Bergman, de 1958. Ele conta no filme com alguns dos seus atores preferidos: Max Von Sydow, Ingrid Thulin, Bibi Andersson, Erland Josephson e a clássica velhinha de todos os seus filmes. A fotografia deslumbrante em preto e branco expressionista é de Gunnar Fisher. Como disse a crítica americana Pauline Kael, o filme tem uma estrutura de conto de fadas. Passa-se na metade do século dezenove numa pequena cidade do interior da Suécia.  A trupe ambulante de mágicas e curandeirismo - O Teatro da Saúde Magnética do Dr. Vogler - chega na cidade no seu coche, fugindo de situações complicadas com a lei em outras paragens. De novo Bergman dá o nome Vogler a um dos seus problemáticos personagens. Que eu saiba este é o único homem a receber o nome recorrente, os  outros são todos mulheres. Max Von Sydow jovem e com peruca e barba negras apresenta uma máscara das mais impressionantes da sua carreira. A trupe consta do doutor, sua jovem assistente  travestida de rapaz (Ingrid Thulin, para mim a mais mágica das musas de Bergman), a velha bruxa que manipula poções e diz ter quase duzentos anos de idade, um faz-tudo bufão e um jovem cocheiro. Na cidadezinha são intimados a prestar contas ao poder local, amedrontado e fascinado com os relatos sobre  a companhia: o cônsul, o chefe de polícia caricata e um médico arrogante. Passam a noite na  luxuosa casa do cônsul, interagem com  os criados da casa - aqui o lado mais comédia romântica, com as aventuras eróticas do cocheiro e do administrador da trupe e as empregadas sensuais, e os aprontes da velha bruxa. Na manhã seguinte acontece na mansão a performance que desencadeará eventos nada previsíveis. Os racionais e pseudo-científicos homens de bem da cidade oscilam entre o fascínio e a repulsa pelo carisma do estranho doutor e sua estranha trupe. Querem desmistificá-los como charlatões, mas deixam-se levar pelo mistério instaurado no seu pequeno mundo, especialmente a sensível e sofrida mulher do cônsul, apaixonada pelo Dr. Vogler. Bergman trata de novo das suas questões clássicas - o ilusório, o permanente, o efêmero, o transcendente, o que não tem explicação - mas de uma maneira sarcástica e menos pesada do que em filmes como "O Sétimo Selo". Apesar de alguns momentos bem ao estilo filme de terror no final, o tom é sempre divertido e fluente. O mendigo bêbado que aparece  brevemente  no filme para morrer nos braços acolhedores do Dr. Vogler diz: "O movimento em si  é a única verdade". Um show de atuações magníficas  e de cinematografia do mestre sueco e sua trupe. Obrigado de novo, Bergman.



terça-feira, 8 de março de 2011

The Kiss





The Kiss
Este desenho  é inspirado em Bergman, talvez Sorrisos de  uma Noite de Amor
Pastel seco, oleoso, crayon sobre papel

domingo, 6 de março de 2011

O ritual

A Fonte da Donzela. Ao amanhecer, o cavaleiro faz o ritual de preparação para sacrificar os assassinos da sua filha. A árvore cujos ramos serão usados no banho é derrubada com a força dos seus braços. Bergman em ação.

A Fonte da Donzela


sexta-feira, 4 de março de 2011

O mapa da pedra


Persona




Das Voglers genéricas


Bom dia macbook. As nuvens pairam nas montanhas, o ar fica mais cinza, verde, mais lento. Predispõe a reflexão, muita música, leitura na cama, chás. E a ver Bergman, claro. Já nem parece  pleno verão. o riacho murmura mais forte, a água desce com mais força das alturas. Vejo finalmente Persona, um das obras mais pessoais e definidoras do estilo bergmaniano. Um belísssimo filme, mas não causa o mesmo impacto, creio, de quando foi feito em 1966. Muito ousado como linguagem de cinema para a época, Bergman lembra o tempo todo  que estamos vendo uma película, uma criação em celuloide. Tem a mais longa apresentacão que já vi em um filme dele: closes de uma bobina, de um projetor com seu barulho caracteristico, seguido de imagens aleatórias e rápidas - o antes do filme, o lixo do celulóide rodando, números, cenas de animações e comédias antigas, cenas de sacrificios de animais bem "bunuelescas", até um phalus erectus que apenas um olhar muito atento nota (toque de humor bergmaniano?). Depois entra a longa cena do menino pré-adolescente  explorando com a mão a projeção gigante do rosto da mãe - personagem de Liv Ullmann (que na verdade se alterna com o rosto da enfermeira - Bibi Andersson, observando-se com um olhar mais atento). As mesmas imagens do menino fecham o filme também. No final Bergman insere  até um shot da camera filmando numa  plataforma, com ele mesmo e seu fotógrafo Nykvist,  provàvelmente. Duas mulheres em uma casa de praia (na ilha de Faro, o cenário preferido dele, e onde construiu sua casa e morreu décadas depois), uma atriz que surtou na cena de uma peça e deixou de falar e sua enfermeira dedicada. Personificadas por suas musas  talentosas Liv Ullmann e Bibi Andersson, no apogeu da beleza. A atriz se chama Elisabeth Vogler. Ele usa este nome, Vogler, em pelo menos três personagens femininos - neste e em A Hora do Lobo e O Rito ( todas  atrizes neuróticas, bonitas e talentosas). As duas mulheres convivem numa intimidade ameaçadora na ilha, o tempo real da convivencia não é enfatizado. Tem um fundo psicológico na trama -a culpa e a histeria branda da atriz, que foge do mundo ameaçador e se recusa a amar seu único filho adolescente  e o marido dedicado também. Elas vivenciam  na solidão da casa afeto, intimidade fisica e emocional, momentos de entendimento e de extranhamento, e chegam a um clímax onde trocam agressões físicas. Em momentos, sua identidade se apaga e se confunde. O vivido  e o sonhado perdem as fronteiras, as imagens de cinema em preto e branco misturam as duas faces femininas. Uma obra de câmera refinada. O filme tem, a meu ver, os mais belos closes de rosto que já vi na tela grande.
Obrigado de novo, Bergman.

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Através de um Espelho



Ilhas de Bergman


Caro macbook, boa tarde. Um céu nublado de tarde de verão, com aberturas de sol, torna o verde  em volta mais intenso. O riacho murmura forte. Quando me mudei para este lugar nas montanhas, senti que  respirava uma atmosfera  meio nórdica: as  muitas e grandes pedras no rio e no terreno, alguns pinheiros plantados  nas margens, o caminho descendo em direção a água. Trouxe comigo um filme de Bergman, de quem não via nada há muito tempo - Através de um Espelho, de 1961. Acho que este encontro não foi casual. Bergman tem toda uma série de filmes que se passam em ilhas ou em situações de reclusão voluntária, em geral com poucos personagens, como neste filme e em  A Hora do Lobo, a Paixão de Ana, Persona, Saraband.  Neste refúgio no meio do verde das montanhas, na minha casa a beira do rio e do mato, entendo melhor o que estes personagens perturbados vivenciam, Em outro tempo, claro. Meu tempo e minha circunstância  aqui recriados por uma lente artística, nem sei como seriam na verdade - se em cores ou preto e branco, qual o cenário, qual  a luz...é dificil ter a sua própria visão clara, quem está fora, como um deus, vê sempre melhor.
Através de um Espelho, que ganhou Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, é um dos  filmes do mestre sueco que mais me impressionam. Não envelheceu nada em  cinquenta anos. Apenas quatro personagens de uma familia  reclusos numa ilha passando o verão - um pai escritor famoso, seu filho quase adolescente ainda, sua filha jovem e o marido dela  (Max von Sydow). A moça, interpretada  belamente por Harriet Andersson, é psicótica, ouve vozes  que a chamam para um encontro com Deus no sótao da velha casa de pedra. Não consegue se entregar ao marido dedicado  e tem uma tensão sexual com  o irmão de dezessete anos, O pai tem culpas por só pensar na sua carreira e sua obra, e muito pouco nos filhos. Todos amam a sua maneira a jovem, linda e louca Karen. Ela acaba fazendo  sexo com o irmão num surto psicótico, dentro de um soturno barco  abandonado na praia. Numa crise final, que fecha  o filme,  ela vê Deus, com um olhar amedrontador, em forma de uma grande aranha que quer penetrá-la... seria o grande helicóptero preto que chega na ilha para levá-la ao sanatório no continente?
O irmão/Bergman entra em crise  profunda depois do incidente com a irmã. Dialoga mais ou menos assim com o pai em frente a janela, vendo o nórdico mar ao fundo:
- Um Deus? Me  dê provas da existencia dele.
- Deus seria saber que o amor existe, de verdade,  na humanidade.
-Então o amor é a prova ?
- Não sei se ele é a prova da existencia de Deus, ou  se o amor é o proprio Deus...
Obrigado, ilhas de Begman.

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

De Bergman clássico

Bom dia  macbook. O sol de verão na serra já inunda quase tudo nas montanhas pela manhã, uma brisa suave entra pelas portas da casa .Penso nas sagas de Bergman que revi agora. O Sétimo Selo e  a Fonte da Donzela.  Não dá pra imaginar estes filmes a não ser em preto e branco, como foram feitos. O Selo é de 1956. Bergman diz que o filme foi feito com bem poucos recursos, mas é belo, inteiro, e será um clássico para sempre. A  trilha musical original envelheceu um tanto, cheia de efeitos que entram para realçar momentos mais dramáticos, efeitos óbvios, um recurso estilístico das primeiras décadas do cinema. Uma lenda medieval contada na linguagem da nova arte do século vinte. Antonius Block (Max Von Sidow, um dos atores-ícones de Bergman), um cavaleiro cristão e seu escudeiro, voltam para a Suécia depois de dez anos nas Cruzadas. A região está assolada pela peste, a população amedrontada  e ignorante fantasia sobre o fim dos tempos. A Morte aparece em pessoa para buscá-lo numa praia (de túnica negra, capuz e foice) e ele propõe um longo jogo de xadrez para procastinar sua partida. A Morte aceita.
O cavaleiro e seu escudeiro estão em crise de fé e de valores. O escudeiro, um homem mais simples, aceita a falência do seu mundo e do seu cristianismo cantando canções sensuais e de apologia da vida e encontrando uma bela mulher para acompanhá-lo na jornada (Gunnell Lindbloom, uma das beldades de Bergman). Antonius entra numa igrejinha perdida e vai se confessar com o padre. Revela a ele seu martirio, seu sentimento de abandono, sua procura por um Deus que ele quer ver intensamente, mas que não se manifesta. O confessor, que é a Morte disfarçada, pergunta o que ele procura. O Conhecimento, é a resposta do cavaleiro.
No caminho, encontram fanáticos que se flagelam e se culpam pela peste, uma jovem linda que é queimada na fogueira por falar com o diabo, e  consequente é a culpada pela  desgraça de todos. E também uma trupe mambembe de atores e malabaristas, que dá  o tom mais leve da aventura. Um dos atores foge com  a mulher do ferreiro da aldeia. Outro bufão tem visões, vê a Virgem Maria passeando com o menino Jesus pelos campos, e tem uma mulher loira e solar (Bibi Andersson, jovem e linda). Eles são pais de um menino angelical. O cavaleiro resolve protegê-los no caminho adiante pelas florestas. Depois de mais dois "sets" de xadrez com a Morte, o cheque-mate se anuncia. Chegam ao castelo finalmente, o cavaleiro reencontra  sua bela e fiel  mulher esperando-o junto ao fogo da enorme lareira .Mas a Morte vem  para  o encontro final. O cavaleiro invoca Deus, num apelo desesperado. Seu escudeiro aceita o destino, resignado e tranquilo. O ator visionário e sua familia continuam a jornada na sua carroça, salvos,da peste, e  ele" vê" o grupo do cavaleiro sendo arrastado pela  mão da Morte, em marcha no topo da colina. Uma das imagens mais belas e impressionantes do cinema. Fim.
Obrigado,Bergman.

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