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sexta-feira, 4 de março de 2011

O mapa da pedra


Persona




Das Voglers genéricas


Bom dia macbook. As nuvens pairam nas montanhas, o ar fica mais cinza, verde, mais lento. Predispõe a reflexão, muita música, leitura na cama, chás. E a ver Bergman, claro. Já nem parece  pleno verão. o riacho murmura mais forte, a água desce com mais força das alturas. Vejo finalmente Persona, um das obras mais pessoais e definidoras do estilo bergmaniano. Um belísssimo filme, mas não causa o mesmo impacto, creio, de quando foi feito em 1966. Muito ousado como linguagem de cinema para a época, Bergman lembra o tempo todo  que estamos vendo uma película, uma criação em celuloide. Tem a mais longa apresentacão que já vi em um filme dele: closes de uma bobina, de um projetor com seu barulho caracteristico, seguido de imagens aleatórias e rápidas - o antes do filme, o lixo do celulóide rodando, números, cenas de animações e comédias antigas, cenas de sacrificios de animais bem "bunuelescas", até um phalus erectus que apenas um olhar muito atento nota (toque de humor bergmaniano?). Depois entra a longa cena do menino pré-adolescente  explorando com a mão a projeção gigante do rosto da mãe - personagem de Liv Ullmann (que na verdade se alterna com o rosto da enfermeira - Bibi Andersson, observando-se com um olhar mais atento). As mesmas imagens do menino fecham o filme também. No final Bergman insere  até um shot da camera filmando numa  plataforma, com ele mesmo e seu fotógrafo Nykvist,  provàvelmente. Duas mulheres em uma casa de praia (na ilha de Faro, o cenário preferido dele, e onde construiu sua casa e morreu décadas depois), uma atriz que surtou na cena de uma peça e deixou de falar e sua enfermeira dedicada. Personificadas por suas musas  talentosas Liv Ullmann e Bibi Andersson, no apogeu da beleza. A atriz se chama Elisabeth Vogler. Ele usa este nome, Vogler, em pelo menos três personagens femininos - neste e em A Hora do Lobo e O Rito ( todas  atrizes neuróticas, bonitas e talentosas). As duas mulheres convivem numa intimidade ameaçadora na ilha, o tempo real da convivencia não é enfatizado. Tem um fundo psicológico na trama -a culpa e a histeria branda da atriz, que foge do mundo ameaçador e se recusa a amar seu único filho adolescente  e o marido dedicado também. Elas vivenciam  na solidão da casa afeto, intimidade fisica e emocional, momentos de entendimento e de extranhamento, e chegam a um clímax onde trocam agressões físicas. Em momentos, sua identidade se apaga e se confunde. O vivido  e o sonhado perdem as fronteiras, as imagens de cinema em preto e branco misturam as duas faces femininas. Uma obra de câmera refinada. O filme tem, a meu ver, os mais belos closes de rosto que já vi na tela grande.
Obrigado de novo, Bergman.

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