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sexta-feira, 15 de abril de 2011

Uma trupe esotérica

Uma trupe  esotérica e sedutora

Bom dia macbook. Bom dia borboletas amarelas e brancas, florezinhas, formigas, besouros, lagartos, lagartixas, passarinhos, aranhas e suas teias complexas. Vejo de novo "O Rosto", filme da fase das fábulas góticas de Bergman, de 1958. Ele conta no filme com alguns dos seus atores preferidos: Max Von Sydow, Ingrid Thulin, Bibi Andersson, Erland Josephson e a clássica velhinha de todos os seus filmes. A fotografia deslumbrante em preto e branco expressionista é de Gunnar Fisher. Como disse a crítica americana Pauline Kael, o filme tem uma estrutura de conto de fadas. Passa-se na metade do século dezenove numa pequena cidade do interior da Suécia.  A trupe ambulante de mágicas e curandeirismo - O Teatro da Saúde Magnética do Dr. Vogler - chega na cidade no seu coche, fugindo de situações complicadas com a lei em outras paragens. De novo Bergman dá o nome Vogler a um dos seus problemáticos personagens. Que eu saiba este é o único homem a receber o nome recorrente, os  outros são todos mulheres. Max Von Sydow jovem e com peruca e barba negras apresenta uma máscara das mais impressionantes da sua carreira. A trupe consta do doutor, sua jovem assistente  travestida de rapaz (Ingrid Thulin, para mim a mais mágica das musas de Bergman), a velha bruxa que manipula poções e diz ter quase duzentos anos de idade, um faz-tudo bufão e um jovem cocheiro. Na cidadezinha são intimados a prestar contas ao poder local, amedrontado e fascinado com os relatos sobre  a companhia: o cônsul, o chefe de polícia caricata e um médico arrogante. Passam a noite na  luxuosa casa do cônsul, interagem com  os criados da casa - aqui o lado mais comédia romântica, com as aventuras eróticas do cocheiro e do administrador da trupe e as empregadas sensuais, e os aprontes da velha bruxa. Na manhã seguinte acontece na mansão a performance que desencadeará eventos nada previsíveis. Os racionais e pseudo-científicos homens de bem da cidade oscilam entre o fascínio e a repulsa pelo carisma do estranho doutor e sua estranha trupe. Querem desmistificá-los como charlatões, mas deixam-se levar pelo mistério instaurado no seu pequeno mundo, especialmente a sensível e sofrida mulher do cônsul, apaixonada pelo Dr. Vogler. Bergman trata de novo das suas questões clássicas - o ilusório, o permanente, o efêmero, o transcendente, o que não tem explicação - mas de uma maneira sarcástica e menos pesada do que em filmes como "O Sétimo Selo". Apesar de alguns momentos bem ao estilo filme de terror no final, o tom é sempre divertido e fluente. O mendigo bêbado que aparece  brevemente  no filme para morrer nos braços acolhedores do Dr. Vogler diz: "O movimento em si  é a única verdade". Um show de atuações magníficas  e de cinematografia do mestre sueco e sua trupe. Obrigado de novo, Bergman.



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