Uma trupe esotérica e sedutora
Bom dia macbook. Bom dia
borboletas amarelas e brancas, florezinhas, formigas, besouros, lagartos,
lagartixas, passarinhos, aranhas e suas teias complexas. Vejo de novo "O Rosto", filme da fase das
fábulas góticas de Bergman, de 1958. Ele conta no filme com alguns dos seus atores
preferidos: Max Von Sydow, Ingrid Thulin, Bibi Andersson, Erland Josephson e a
clássica velhinha de todos os seus filmes. A fotografia deslumbrante em preto e branco
expressionista é de Gunnar Fisher. Como disse a crítica americana Pauline Kael,
o filme tem uma estrutura de conto de fadas. Passa-se na metade do século
dezenove numa pequena cidade do interior da Suécia. A trupe ambulante de mágicas e curandeirismo - O Teatro da
Saúde Magnética do Dr. Vogler - chega na cidade no seu coche, fugindo de situações
complicadas com a lei em outras paragens. De novo Bergman dá o nome Vogler a um
dos seus problemáticos personagens. Que eu saiba este é o único homem a receber
o nome recorrente, os outros são
todos mulheres. Max Von Sydow jovem e com peruca e barba negras apresenta uma máscara
das mais impressionantes da sua carreira. A trupe consta do doutor, sua jovem
assistente travestida de rapaz
(Ingrid Thulin, para mim a mais mágica das musas de Bergman), a velha bruxa que
manipula poções e diz ter quase duzentos anos de idade, um faz-tudo bufão e um
jovem cocheiro. Na cidadezinha são intimados a prestar contas ao poder local,
amedrontado e fascinado com os relatos sobre a companhia: o cônsul, o chefe de polícia caricata e um médico
arrogante. Passam a noite na
luxuosa casa do cônsul, interagem com os criados da casa - aqui o lado mais comédia romântica, com
as aventuras eróticas do cocheiro
e do administrador da trupe e as empregadas sensuais, e os aprontes da
velha bruxa. Na manhã seguinte acontece na mansão a performance que
desencadeará eventos nada previsíveis. Os racionais e
pseudo-científicos homens de bem da cidade oscilam entre o fascínio e a repulsa
pelo carisma do estranho doutor e sua estranha trupe. Querem desmistificá-los como
charlatões, mas deixam-se levar pelo mistério instaurado no seu pequeno mundo, especialmente
a sensível e sofrida mulher do cônsul, apaixonada pelo Dr. Vogler. Bergman
trata de novo das suas questões clássicas - o ilusório, o permanente, o efêmero,
o transcendente, o que não tem explicação - mas de uma maneira sarcástica e
menos pesada do que em filmes como "O Sétimo Selo". Apesar de alguns
momentos bem ao estilo filme de terror no final, o tom é sempre divertido e fluente. O
mendigo bêbado que aparece
brevemente no filme para
morrer nos braços acolhedores do Dr. Vogler diz: "O movimento em si é a única verdade". Um show de
atuações magníficas e de
cinematografia do mestre sueco e sua trupe. Obrigado de novo, Bergman.