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quinta-feira, 5 de maio de 2011

Transcendência na ilha


Transcendência: dois mestres

Bom dia  macbook. O outono se instala aqui nas montanhas, o sol aparece entre muitas nuvens, as noites e as manhãs são frias.
O vale está cheio de pequenas flores, de pequenas borboletas, de beija-flores, até os roedores de cauda longa que não consegui identificar ainda deram o ar da graça, passando rápidos e fugazes pela paisagem.
Quando vi há muitos anos  O Sacrifício, o filme de Tarkovsky, sabia que tinha visto uma obra transcendental .Senti também um clima totalmente bergmaniano no filme, apesar de naquela na época ainda não ter visto muito da obra do mestre sueco. Revendo o filme agora, confirmo a impressão daquele primeiro encontro. Offret (O Sacrifício), foi o último filme de Tarkovsky, lançado em 1986 no mesmo ano em que  morreu de cancer. Ficou como sua obra testamento. Passa-se numa ilha na costa da Suécia, feito por uma equipe sueca. Um professor de estética, jornalista e escritor, faz na ilha sua  casa e vai viver lá com a familia: ele, sua mulher, uma filha jovem e um filho pequeno de uns seis anos de idade. Mais as duas empregadas da casa e dois visitantes  ocasionais - o médico da familia e o carteiro da ilha. No dia do seu aniversário, o carteiro lhe traz presentes. Uma guerra  nuclear eclode, a Europa está condenada. Autoridades no rádio e na TV anunciam a tragédia, e sua única mensagem é pedir a população para manter a calma e a ordem. Preocupações nada defasadas, me parece. Ouve-se o ruido dos aviões de guerra sobre a ilha, os objetos tremem dentro da casa. A familia e o professor estão à deriva. A mulher carente e cheia de demandas tem uma crise de choro histérico. O professor, solitário dentro da noite, faz uma oração a um Deus que ele aparentemente nunca  invocara antes. E pede a salvação da familia, se oferece em sacrifício. Lamenta a falta de espiritualidade e a selvageria da civilização de consumo moderna, tão em desacordo com a natureza. O estranho carteiro vem lhe visitar no meio da noite, e lhe comunica que a salvação possível está nas mãos da empregada da casa, a lituana Maria, misto de santa e bruxa solitária. Ele vai procurá-la no meio da noite, indefeso e frágil. A empregada o recebe na sua casa  lhe consola, acabam fazendo sexo na cama humilde. Sonho e realidade na noite deserta da ilha. A cena do casal levitando lentamente da cama, abraçados, é inesquecivel. A mítica figura da empregada já tinha sido tão bem realizada por Bergman em Gritos e Sussuros, na figura de Ana, que no seu colo farto e quente abriga a irmã moribunda da casa. O professor segue em frente no seu delirio, veste seu quimono japonês e ateia fogo na casa que tanto ama. Acaba sendo levado por uma ambulância de sanatório, como a jovem psicopata Karen de Através de um Espelho, de Bergman. A fotografia, em tonalidades de cores desbotadas,  é de Sven Nykvist, o fotógrafo marca-registrada de Bergman. As tomadas são longuíssimas, muitos planos abertos onde as pessoas circulam minúsculas pela paisagem da ilha. O papel do intelectual (e ex-ator também) é magistralmente vivido por Erland Josephson já maduro - um dos atores bergmanianos preferidos. O cenário desolado da ilha também não poderia ser mais bergmaniano. A  bela casa é cenográfica, construida para a filmagem, e foi realmente queimada no final. Os negativos da primeira filmagem foram inutilizados. e teve que ser reconstruida para ser incendiada de novo. A trilha mistura a Paixão Segundo São Mateus de Bach com flautas japonesas. No início do filme o professor planta a beira-mar uma árvore seca, junto do filho, que está mudo temporàriamente depois de operar a garganta. Lhe fala do milagre do monge budista  que regou por anos uma árvore seca até o dia em que ela amanheceu cheia de flores. No final, o menino volta a se deitar perto da árvore morta, e fala pela única vez no filme: "No princípio era o Verbo". O filme termina em uma longa tomada da árvore, que aparentemente começa a mostrar algumas folhas novas. Tarkovsky, que estava  morrendo jovem e em plena maturidade criativa, dedica o filme a seu filho real. Esperança no ar. Obrigado, Tarkovsky.

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