Transcendência:
dois mestres
Bom
dia macbook. O outono se instala
aqui nas montanhas, o sol aparece entre muitas nuvens, as noites e as manhãs são
frias.
O vale está
cheio de pequenas flores, de pequenas borboletas, de beija-flores, até os roedores
de cauda longa que não consegui identificar ainda deram o ar da graça, passando
rápidos e fugazes pela paisagem.
Quando vi há
muitos anos O Sacrifício, o filme de Tarkovsky, sabia
que tinha visto uma obra transcendental .Senti também um clima totalmente bergmaniano no filme, apesar de naquela na época ainda não ter visto
muito da obra do mestre sueco. Revendo o filme agora, confirmo a impressão
daquele primeiro encontro. Offret (O Sacrifício), foi o último filme de Tarkovsky, lançado em
1986 no mesmo ano em que morreu de cancer. Ficou como sua obra testamento.
Passa-se numa ilha na costa da Suécia, feito por uma equipe sueca. Um professor
de estética, jornalista e escritor, faz na ilha sua casa e vai viver lá com a familia: ele, sua mulher, uma
filha jovem e um filho pequeno de uns seis anos de idade. Mais as duas empregadas
da casa e dois visitantes ocasionais
- o médico da familia e o carteiro
da ilha. No dia do seu aniversário, o carteiro lhe traz presentes. Uma guerra nuclear eclode, a Europa está condenada.
Autoridades no rádio e na TV anunciam a tragédia, e sua única mensagem é pedir
a população para manter a calma e a ordem. Preocupações nada defasadas, me parece.
Ouve-se o ruido dos aviões de guerra sobre a ilha, os objetos tremem dentro da
casa. A familia e o professor estão à deriva. A mulher carente e cheia de
demandas tem uma crise de choro histérico. O professor, solitário dentro da
noite, faz uma oração a um Deus que ele aparentemente nunca invocara antes. E pede a salvação da familia,
se oferece em sacrifício. Lamenta a falta de espiritualidade e a selvageria da civilização
de consumo moderna, tão em desacordo com a natureza. O estranho carteiro vem
lhe visitar no meio da noite, e lhe comunica que a salvação possível está nas mãos
da empregada da casa, a lituana Maria, misto de santa e bruxa solitária. Ele
vai procurá-la no meio da noite, indefeso e frágil. A empregada o recebe na sua
casa lhe consola, acabam fazendo sexo
na cama humilde. Sonho e realidade na noite deserta da ilha. A cena do casal
levitando lentamente da cama, abraçados, é inesquecivel. A mítica figura da empregada
já tinha sido tão bem realizada por Bergman em Gritos e Sussuros, na figura de Ana, que no seu colo
farto e quente abriga a irmã moribunda da casa. O professor segue em
frente no seu delirio, veste seu quimono
japonês e ateia fogo na casa que tanto ama. Acaba sendo levado por uma ambulância
de sanatório, como a jovem psicopata Karen de Através de um Espelho, de Bergman. A fotografia, em tonalidades de cores
desbotadas, é de Sven Nykvist, o fotógrafo
marca-registrada de Bergman. As tomadas são longuíssimas, muitos planos abertos
onde as pessoas circulam minúsculas pela paisagem da ilha. O papel do intelectual
(e ex-ator também) é magistralmente vivido por Erland Josephson já maduro - um
dos atores bergmanianos preferidos. O cenário desolado da ilha também não
poderia ser mais bergmaniano. A bela
casa é cenográfica, construida para a filmagem, e foi realmente queimada no final.
Os negativos da primeira filmagem foram inutilizados. e teve que ser
reconstruida para ser incendiada de novo. A trilha mistura a Paixão Segundo São
Mateus de Bach com flautas japonesas. No início do
filme o professor planta a beira-mar uma árvore seca, junto do filho, que está
mudo temporàriamente depois de
operar a garganta. Lhe fala do milagre do monge budista que regou por anos uma árvore seca até o dia em que ela amanheceu cheia
de flores. No final, o menino volta
a se deitar perto da árvore morta, e fala pela única vez no filme: "No princípio
era o Verbo". O filme termina em uma longa tomada da árvore, que
aparentemente começa a mostrar
algumas folhas novas. Tarkovsky, que estava morrendo jovem e em plena maturidade criativa, dedica
o filme a seu filho real. Esperança no ar. Obrigado, Tarkovsky.



