Maravilhas
Kurosawa
Boa noite,
macbook. Bons meninos e seus diários dormem cedo e tentam ter bons sonhos, mas
este não sou definitivamente eu. O frio é intenso no vale serrano. A noite clara sobre as montanhas propõe viagens estelares para qualquer olhar
cansado. Vejo um Kurosawa de 1951, O Idiota, uma adaptação bem fiel da novela clássica
de Dostoiewsky, que eu nunca li. De novo a beleza e a força do cineasta japonês
nos tomam de assalto. O "set" é o norte do Japão, Sapporo, e aqui não temos o país pobre
e desvastado dos seus outros
filmes da mesma época, mas uma
cidade com casas bonitas, pessoas bem vestidas, mulheres em casacos de inverno
elegantes. Dois homens voltam da guerra de trem para sua cidade natal. Um deles é um jovem rico, agressivo, másculo e charmoso, vivido pelo galã
Toshiro Mifune (no apogeu físico aos
30 anos), o outro é um homem timido, de sentimentos quase femininos, traumatizado
e violentado pela guerra - o "idiota" do filme. Também uma grande performance de Masayuki Mori, com seu rosto pálido e
as mãos enluvadas sempre humildemente juntas debaixo do queixo. Eles tem uma empatia imediata e iniciam uma relação
que vai sobreviver às peripécias do filme até o amargo final. Começam
disputando a mulher fatal da cidade,
uma beldade "dark" e de vida não convencional para os padrões morais
da época. Vivida por uma atriz que
foi também musa de Ozu, o outro
grande cineasta do Japão. A bondade transparente do "idiota" causa transtorno
na mesquinhez das pessoas ao seu redor, envolvidas nas suas tramóias ambiciosas e materialistas. Ele
se envolve também com a filha do seu "padrinho" na cidade, uma moça
linda e de gênio difícil. Um
elenco de atores maravilhosos, com a cinematografia clássica do cineasta, um
preto e branco um tanto expressionista, deslumbrante. A metragem original tinha mais de quatro horas, e a produção fez Kurosawa cortar mais de cem minutos do filme. Isto
deixa lacunas narrativas, claro, num filme que vai tão fundo nas tramas passionais dos personagens. A
neve caindo sempre, cascatas de gelo e pessoas minúsculas vagando pelas paisagens sempre brancas, dão o clima dostoiewskyano e
operístico desta obra-prima truncada. Ainda um espetáculo imperdível da
cinematografia de todos os tempos. Obrigado de novo, Kurosawa.

