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domingo, 29 de maio de 2011

Maravilhas Kurosawa


Maravilhas Kurosawa

Boa noite, macbook. Bons meninos e seus diários dormem cedo e tentam ter bons sonhos, mas este não sou definitivamente eu. O frio é intenso  no vale serrano. A noite clara  sobre as montanhas propõe viagens estelares para qualquer olhar cansado. Vejo um Kurosawa de 1951, O Idiota, uma adaptação bem fiel da novela clássica de Dostoiewsky, que eu nunca li. De novo a beleza e a força do cineasta japonês nos tomam de assalto. O "set" é o norte do Japão, Sapporo, e aqui não temos o país pobre e desvastado dos  seus outros filmes da  mesma época, mas uma cidade com casas bonitas, pessoas bem vestidas, mulheres em casacos de inverno elegantes. Dois homens voltam da guerra de trem para  sua cidade natal. Um deles  é um jovem rico, agressivo, másculo e charmoso, vivido pelo galã Toshiro Mifune  (no apogeu físico aos 30 anos), o outro é um homem timido, de sentimentos quase femininos, traumatizado e violentado pela guerra - o "idiota"  do filme. Também uma grande performance de  Masayuki Mori, com seu rosto pálido e as mãos enluvadas sempre  humildemente juntas debaixo do queixo. Eles tem uma  empatia imediata e iniciam uma relação que vai sobreviver às peripécias do filme até o amargo final. Começam disputando  a mulher fatal da cidade, uma beldade "dark"  e de vida  não convencional para os padrões morais da época.  Vivida por uma atriz que foi também musa de Ozu,  o outro grande cineasta  do Japão. A bondade  transparente do "idiota" causa transtorno na mesquinhez das pessoas ao seu redor,  envolvidas nas suas tramóias ambiciosas e materialistas. Ele se envolve também com a filha do seu "padrinho" na cidade, uma moça linda e de  gênio difícil. Um elenco de atores maravilhosos, com a cinematografia clássica do cineasta, um preto e branco um tanto expressionista, deslumbrante. A  metragem original  tinha  mais de quatro horas, e a produção  fez Kurosawa cortar mais de cem minutos do filme. Isto deixa lacunas narrativas, claro, num filme que vai tão fundo  nas tramas passionais dos personagens. A neve caindo sempre, cascatas de gelo  e pessoas minúsculas  vagando pelas paisagens sempre brancas, dão o clima dostoiewskyano e operístico desta obra-prima truncada. Ainda um espetáculo imperdível da cinematografia de todos os tempos.  Obrigado de novo, Kurosawa.

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