Melancholia
Bom dia macbook. Um dia frio e nublado na serra, de volta da grande cidade.
Experienciei o últlmo Von Trier, Melancholia. Este cineasta pontuou o cinema
contemporâneo quando fez o magnifico Dogville. Foi a primeira vez que vi na tela
o que Bertold Brecht procurou intensamente no teatro - o distanciamento emocional e crítico. Brecht conseguiu isto, sem deixar de fazer uma obra apaixonante para o expectador e que não ficou datada com o passar de algumas décadas.
Em Dogville Von Trier trabalhou o habitat de uma comunidade com cenários
praticamente virtuais, coisa que só o teatro contemporâneo havia tentando até então. No filme, não nos projetamos nem nos identificamos com os personagens, antes refletimos sobre suas vidas e ações - pequenas vidas sem grandeza ou amor real, regidas por ações mesquinhas,e interesseiras, humanas contudo.
Verifico que quase sempre que gosto dos primeiros takes de um filme, vou gostar de todo o resto. Von Trier tem se revelado um mestre nas apresentações de suas obras. A de O Anti-Cristo é de tirar o folêgo, ao som da ária "Lascia ch' io pianga", da ópera Rinaldo de Hændel (1711), em imagens de tom noturno e azulado, que comentam a história do filme. Infelizmente, acho que a narrativa se perde e não chega a lugar nenhum, emaranhando numa floresta de violências sem sentido o casal em crise com a morte do filho.
Melancholia abre com a música envolvente e solene do prelúdio do primeiro ato de Tristão e Isolda, de Wagner, e com imagens oníricas e não realistas que comentam também a história que vai ser contada.
O filme funciona como uma ópera visual em dois tempos: Justine e Claire.
O tempo das imagens, da montagem, é dado pela tempo da música - uma lentidão suave, que flui ao som solene de Wagner. Mil anos longe de Hollywood e suas rotinas. No primeiro tempo, Justine, a jovem loira e bem sucedida, "desconstrói" o filme da sua vida, no evento mais emblemático da felicidade de uma mulher normal, o casamento com um homem apaixonado, vestida de noiva e em uma festa perfeita, em um palacete perfeito. Ela não participa realmente de nada daquilo - a união não se consuma, começa e acaba ali mesmo.
O segundo ato, Claire, é o mundo da irmã assentada no casamento, equilibrada,
com um filho pequeno e um marido, vivendo numa mansão com deslumbrantes jardins e arredores. Justine é resgatada pela irmã e trazida do seu torpor para o calor da família. Paira no ar a expectativa da aproximação de um enorme planeta, Melancholia, que pode passar ao largo do nosso, ou se chocar com ele. A família mergulha numa expectativa ansiosa . O pai monitora os céus com um poderoso telescópio. Claire internaliza o medo que envolve a todos. Só Justine permanence calma, enquanto revela sua alma de bruxa vidente, loira e desencantada. Correntes magnéticas escapam pela ponta dos seus dedos. A natureza dá sinais de desassossego, chuvas brilhantes caem do céu, os cavalos de montaria
se comportam estranhamente. O mundo está a beira do não prevísivel. Quase
como em nosso mundo real, tão cheio de catástrofes... Ironicamente, é um visor
tosco - uma argola de arame feita pelo menino - que dá a dimensão real da aproximação do imenso e belo planeta. O gramado, e os jardins geométricos da propriedade são o cenário ideal para vivenciar com grandeza
e estilo o Gran Finale. Von Trier disse que quis fazer um filme romântico.
Talvez sobre o romantismo possível nestes tempos estranhos do nosso planeta. Um calmo terror. O Universo é a nossa casa. Durmamos não tranquilos. Boa noite,
Cinderelas.

