Powered By Blogger

Pesquisar este blog

segunda-feira, 9 de abril de 2012

Lady Chatterley x Lawrence



 Viver próximo a natureza por um tempo mais longo traz uma dimensão melhor do seu processo sutil durante as estações do ano. O outono é o tempo das borboletas, das orquídeas, das quaresmeiras, dos lírios d'água e dos ipês em flor na mata. Ando em direcão a beira do rio e tenho que me agachar para passar debaixo de uma barreira de teias de uma senhora aranha, que brilha a luz do sol da manhã. Mas sou muito grande para ser dela uma presa, felizmente.
Ainda em 1960, a editora Penguin Books foi levada ao tribunal, em Londres, por publicar  "Lady Chatterley's Lover", e o livro foi finalmente absolvido da acusação de "pornografia" pelos jurados. Foi o último romance de D.H.Lawrence, escrito nos bosques perto de Florenca, três anos antes da sua morte no sul da França em1930. Foi feita em 1928 uma edição privada por um livreiro de Florença seu amigo, e nos EUA saiu também uma primeira edição resumida neste mesmo ano. Ele podia a distância escrever sobre sua gente e seu país, do qual se auto-exilara há muitos anos. Suas pinturas foram também na mesma época proibidas de serem vistas publicamente. A couraça moralista européia obliterou por três décadas a avaliação devida deste bela e multifacetada obra. Ele escreve sobre o que conhecia tão bem, a Inglaterra dos "Midllands", das minas de carvão. O romance se passa perto de Nottingham, região da mítica floresta de Robin Wood, onde ele nasceu e cresceu, filho de um mineiro e de uma professora. A história de Constance e de seu amante Mellors é um mergulho na estrutura de classes e na sociedade inglesa pós Primeira Guerra Mundial. Estamos em plena "era do jazz". Constance é uma jovem escocesa de classe alta, filha de intelectuais, casada com um "baronet" que volta da guerra numa cadeira de rodas para assumir a propriedade da familia, Wragby Hall, e as minas de carvão adjacentes. Connie e Sir Clifford tem uma relação afetuosa, de muitas trocas intelectuais, mas sem sexo. Vivem  juntos os rituais e as formalidades da sua classe. O marido está perfeitamente feliz com esta situacão, ela não. Um jovem dramaturgo em plena ascensão social em Londres, amigo do seu marido e que os visita sempre, se torna seu amante eventual. Sir Clifford também escreve contos de algum sucesso nos meios intelectuais britânicos da época. Lady Chatterley, entediada, explora a natureza nos bosques e campos ao redor da mansão em longos passeios. E é na floresta que ela descobre o guarda de caça da propriedade, de torso nú, lavando-se ao sol numa manhã, do lado de fora do seu chalé. Mellors é um homem recluso e celibatário, cansado de complicações com as mulheres. Separado há anos de um casamento tumultuado, com uma vida  pregressa de soldado nas colônias, nascido e crescido na comunidade mineira de propriedade do casal aristocrata. Tinha sido oficial do exército britânico no Egito, na Africa do Sul e na India. Eles começam uma relação de carga sexual intensa, que evolui para uma paixão inclusiva e duradoura. Ambos são deslocados, "gauches" no mundo das suas diferentes classes. E percebem o mundo em que vivem muito de acordo com os pontos de vista do próprio Lawrence, sem dúvida.
Constance vive em conflito com a feiura das pequenas cidades mineiras da região, as casas enegrecidas pela fuligem, a pobreza e os limites estreitos da vida dos "colliers", seu cotidiano insalubre, os corpos maltratados e sem beleza. Seu marido aceita tudo em volta como parte da ordem natural do mundo. Ela e o guarda-caça partilham um desprezo pela força  opressiva do dinheiro como parâmetro das vidas modernas, seja a dos mineiros ou a dos abastados e aristocratas. Mellors despreza a mesquinharia e o mundo espiritual pequeno da comunidade onde nasceu e onde se casou,  da qual tenta se isolar na floresta. Lawrence estava atento as relações de trabalho no mundo industrial moderno, o homem-cifrão na linha de produção, sua força usada apenas para produzir bens e valores, isolado e competitivo num mercado cruel - o homem "alienado" da sua própria vida, já tão bem teorizado no socialismo utópico marxista. Ele escreve longamente sobre as muitas e sutis formas do prazer e do orgasmo feminino, sobre a genitália dos amantes, sobre o corpo masculino e seu falo percebidos pelos olhos e pelo tato da mulher, sobre o corpo feminino como instrumento de prazer do homem. Os encontros furtivos do casal acontecem na cabana rústica junto aos viveiros de faisões, no meio da natureza atopetada da flores, com a chuva e os ventos marcando presença. Constance toma um banho de chuva nua na floresta, incorporando a força telúrica das bacantes clássicas. E junto ao êxtase do novo casal, finalmente vem todos os problemas que terão pela frente nas suas familias e no seu meio social. O romance não tem um final infeliz. Eles tem que ficar separados por um tempo indeterminado, resolver complexas situações de divórcio e aceitação social, de formas de sobrevivência. E tem juntos um filho em gestação - o fogo que acenderam vai continuar aceso. A chama dos amantes Lady Chatterley e seu guarda-caça permanece no tempo, e foi precursora dos novos tempos libertários que estavam já se anunciando no entre-guerras europeu. D.H.Lawrence, cujas cinzas supostamente repousam  em um memorial em Taos, Novo México, está também conosco. E sua obra vive.

Quem sou eu

Minha foto
São Paulo, São Paulo, Brazil