Assisto recentemente dois documentários, sobre artistas importantes no século XX e começo deste século: PIna Baush e Bob Wilson.
"PIna" é o filme de Wim Wenders de 2011 sobre a obra da bailarina e coreógrafa alemã de Wuppertal. Dois mestres contemporâneos alemães, do cinema e da dança, e o resultado é magnífico. Wenders usa a cinematografia em 3D de uma maneira totalmente nova, mostrando corpos em movimento numa proximidade perturbadora, podemos ver e quase sentir seu suor, sua respiração, seus músculos em movimento. Ele nos coloca dentro do palco onde a ação acontece. Nada mais pertinente. Começa o filme com um teatro vazio e cinza, onde aos poucos a criação e as cores vão chegando. Uma bailarina com um acordeon, no clima de "cabaret" alemão, canta uma canção que fala das estações do ano e anuncia a primavera. Começa o espetáculo - a peça com a trilha de Stravinsky, a "Sagração da Primavera", os bailarinos interagindo sobre camadas de terra colocadas no palco. Pina e Wenders alternam cenários de palco sofisticados - rochas, flores, terra, água - com ambientes urbanos da Alemanha contemporânea como estaçoes de transporte, praças, fábricas, trens, parques, salões de baile convencionais e modernos prédios vazios. E também nos deslocam para paisagens naturais grandiosas e insólitas. As performances são em solos, em duplas, ou grupos de dançarinos. Wenders Intercala com as peças os depoimentos individuais dos bailarinos, gente de muitas nacionalidades, falando nas suas linguas originais. Uns são quase velhos, maduros, outros muito jovens, Todos com um olhar intenso e tranquilo, de uma beleza comovente quando encaram a câmera. PIna trabalhou com seu grupo por quase 40 anos, e alguns deles a acompanham desde a década de setenta. Se depreende dos depoimentos que ela observava muito e falava pouco nos ensaios, trabalhandora incansável com sua presença envolvente e carismática. Entre as obras mais conhecidas no filme, está "Café Muller", que ela própria dançava vestindo um tipo de camisola despojada de seda e, como conta, de olhos fechados, o que lhe ajudava a achar a sintonia perfeita do movimento. Vemos a maquete perfeita do salão cheio de cadeiras - dois atores em tamanho natural em volta dela - e somos então levados para dentro do ambiente, partilhando os movimentos nervosos e repetitivos dos bailarinos-atores, as entradas e saidas aparentemente desconexas, os embates e as sintonias entre eles. Os figurinos de PIna são sempre casuais, os homens de terno ou roupas cotidianas, as mulheres com vestidos longos e esvoaçantes, ou roupas de festa convencionais. Suas peças trabalham as pessoas, suas angústias, desejos e conflitos, em cenários que remetem ao mundo real, com toda a sua parafernália de objetos e luzes. Como diz Pina, as palavras apenas evocam o mundo, e é ai que entra a dança. Quase no final Wender faz uma citação do Fellini de "8 e Meio" (com quem Pina trabalhou em " E La Nave Va"), com todos os bailarinos evoluindo em fila indiana, num penhasco desolado, ao som de um jazz suingado. E finalmente, nos créditos, de novo o palco nu e sem cores, e do qual constituimos a platéia. Dança, dancar é preciso, para não sucumbir, é a mensagem final desta mulher de aparência austera e de olhar iluminado.
O documentário sobre a vida de Bob Wilson, o grande encenador de teatro americano, traz muitas luzes sobre a vida e a carreira deste criador do teatro moderno. Nascido no interior do Texas, cresceu nos sufocantes anos 50 em uma familia WASP, branca, protestante e conservadora, no território natural da Klu-Kluks-Klan, Era o único filho homem, e tinha apenas uma irmã. Vemos sua busca atabalhoada de jovem talentoso e angustiado, entrando na faculdade de Administração para agradar o pai, a qual abandona para ir tentar a vida em NewYork, onde decide estudar arquitetura. O começo da exploração dos palcos na Universidade, onde dançava, criava e dirigia os primeiros espetáculos (Pratt Institute, Brooklyn, NY). A tentativa frustrada de suicidio, a descoberta da sua homossexualidade. Em New Yok começa também a explorar sua imensa capacidade de entender crianças e adultos com problemas de aprendizado e relacionamento social. Ele mesmo foi uma criança com retardamento de aprendizado escolar e problemas de fala. Trabalha em instituições para crianças especiais, em hospitais de veteranos de guerra com traumas, e obtém resultados positivos surpreendentes na interação com estes seres especiais. Aí começa o diferencial do seu teatro radical, que vai além dos simbolos da comunicação cotidiana e formal, dando uma nova dimensão à fala e ao gesto no palco. Ele se adentra na esfera do não revelado, do insólito, do sutil, na contramão do teatro realista americano. Escreve, dirige, faz cenários e objetos de cena e a luz dos seus espetáculos, que duram as vezes até doze horas. Durante uma década foi um fracasso total de público nos Estados Unidos, mesmo tendo um grupo de seguidores fiéis na sua "Byrd Hoffman School of Byrds" em New York. Precisou mostrar seu trabalho para os europeus, franceses principalmente, já iniciados nas artes surrealistas, para ter a avaliação merecida : um inovador genial do teatro. No final dos anos setenta leva sua ópera "Eisntein on the Beach", em parceria com o músico Philip Glass, ao Metropolitan Opera House de New York. Apesar do espanto do público e da crítica, finalmente os americanos começam a ver o enorme alcance do seu talento. Hoje ele encena e faz parcerias com artistas do mundo todo, no Brasil inclusive. Tem trabalhado regularmente com o grupo criado na Alemanha por Bertold Brecht, o Berliner Ensemble. Um gênio incansável e multifacetado. Long live Robert Wilson.


