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quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

Memento


o Casarão


Memento

      Há muito tempo que  se falava naquela  região de um casarão na parte mais ao norte e mais alta da ilha. Nas pequenas vilas as vezes os homens comentavam nas rodas , os meninos principalmente, nos encontros  noturnos de inverno ao lado do fogo dos quintais, gostavam de falar sobre uma casa  muito rica e assombrada  nas montanhas do lado norte. Um deles se pavoneava dizendo que seu pai e seu avô tinham estado lá várias vezes, há muitos anos, quando jovens ainda. As mulheres também, as babás principalmente, assombravam as crianças antes de dormir contando histórias vagas sobre um castelo escondido nas montanhas e habitado por estranhos seres humanos. O casarão era assim um patrimônio da historia local, que todos prezavam e temiam, mesmo que não falassem abertamente sobre isto nas rodas de vizinhança... Alguns  o chamavam de  a "casa dos hippies", outros a “casa das almas”. Um menino dizia sempre na roda que seu irmão mais velho vira na web um site com fotos de um castelo em ruínas, com detalhes de quartos, salas e janelas sombrias que deveria ser aquele dos seus arredores,,,mas nada fora  realmente comprovado. 
O mundo anda assim: os lugares , as casas, as cidades, vão desaparecendo e mudando lentamente. O vento, a chuva ácida, as tempestades , os tornados e  as enchentes, os vandalismos,  vão colocando abaixo portentosas construções humanas, coisas que  para algumas gerações antes pareciam eternas. As pessoas que viveram e conheceram estes lugares  também desaparecem aos poucos, uma avó, um bisavô, um tio, e logo só ficam as histórias contadas pelos descendentes e sobreviventes. Se os lugares não são notáveis o suficiente para  estar em livros, documentários de cinema ou livros de fotografia, grandes são as chances de se perderem para qualquer  tipo de memória. Viram apenas fantasmas que  assombram  os sonhos dos  meninos e meninas mais sensiveis no grande mundo por aí. Este é o caso deste casarão. Ele realmente existiu, e as ruinas estavam lá ainda, mas não estariam por muitos anos a mais. Logo a floresta da montanha se fecharia sobre tudo, e haveria uma troca constante entre as coisas deixadas pelos homens e a natureza se perpetuando constante e furiosa. A vegetação rasteira, as heras embaixo e as  grandes árvores lá encima tomariam tudo, as madeiras fortes da estrutura cederiam de vez, e alguns cantos serviriam de  ninho e esconderijo para os pássaros e as corujas. As onças, jaguatiricas, as raposas,  os roedores, os veados e as cobras  e miríades de insetos  andariam por ali livremente.

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