A grande corrida
Era como se fosse um longo fim de tarde, ou apenas um começo de noite. Reinava aquela paz respeitosa no mundo dos animais, cada bicho no seu canto nas suas ravinas, nas suas águas. Os leão olhando de longe a zebra ágil e arisca, o hipopótamo apenas com a visão estratégica da sua couraça pairando acima do limite da água, as corujas discretas bem quietadas no seu ninho nas rochas...Um céu baixo e cinza escuro foi varrendo o horizonte, engolindo toda luz do dia. Talvez os tordos e as doninhas enclausuradas nas suas tocas tenham sido os primeiros a sentir alguma coisa - um leve sussuro das profundezas, um som constante e abafado vindo lá do meio da terra, das grutas sem fim. Na campina os gansos, que facilmente se atordoam, correram em formação perfeita de duplas para as águas do charco, os esquilos subiram mais alto nas árvores, nervosos. Os dromedários do outro lado da grande água levantaram seus narizes insolentemente, tentando entender o que se passava. As grandes renas apareceram pela linha do norte em corrida desabalada e as vacas tranquilas levantaram os focinhos dando balidos pungentes para o nada. Os elefantes se reuniram em uma clareira, saindo sabe-se lá de onde, e logo começaram uma marcha volumosa e poeirenta pelos prados, rápidos, numa sinfonia metálica que acordaria todos os gigantes do outro lado do oceano.
Da caverna encantado onde ninguém nunca se atreveu a entrar saiu o branco e belo unicórnio, saltitando numa elegancia nunca vista naquelas plagas. Então foi um caudal, uma formação bizarra e compacta, surreal e cinematográfica, todos correndo em um mesmo ritmo,,,, Casais da mesma espécie iam se reconhecendo e formando pares, uma alegria selvagem do inusitado enchendo o ar, o ato de correr, o barulho surdo e grave das patas pisoteando a terra que se misturava a um som maior e aterrador, vindo lá das profundezas. As águas do céu caiam forte sobre tudo, misturavam lagos e rios e inundavam as campinas verdes e os campos floridos. O mundo submergia. Lá na frente só nuvens de poeira e cinza, o desconhecido: sem um abrigo seco, sem nada feito pelos prepotentes humanos, sem uma balsa para pairar sobre as grandes ondas que já desciam dos montes para as planícies...Era o fim do mundo.


