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quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Do amor e de mentiras


Do amor que não dizia seu nome e de mentiras

Boa tarde macbook. Frio seco na serra, sol bonito dourando o dia, antecedendo as noites frias. Transplantei hoje uns lírios cor-de-rosa,  raizes de bulbos brancos e grandes, para compor o visual de uma pedra imensa a beira do riacho. As flores só espoucam no fim do verão, me parece. Lembro da minha mãe na sua bela voz de mezzo-soprano, citando a Bíblia quando falava dos seus lírios; "Nem Salomão em toda a sua glória se vestiu como os lírios do campo." E vejo um filme de William Wyler de 1961, em preto e branco, The Children's Hour ("Infâmia"), baseado na peça de Lillian Hellman escrita no começo  dos anos trinta, e um enorme sucesso na Broadway. Foi a primeira peça dela, aos 29 anos, da época  em que foi trabalhar em Hollywood como leitora de textos para estúdios, e tinha acabado de conhecer Dashiell Hammett - o escritor policial de The Maltese Falcon, que virou um filme noir de John Huston. Ele a ajudou bastante no redação final da peça, que foi proibido em várias cidades americanas e em Londres na época - fala da suposta relação homossexual de duas jovens professoras que tem uma escola para meninas ricas na Nova Inglaterra. Mas este não é  o tema central da peça, como disse a própria Lillian, ela é mais sobre o poder destruidor da mentira e da calúnia. As professoras são acusadas por uma menina problemática e mentirosa de terem um caso amoroso. A escola acaba sendo fechada. As moças recorrem na justiça, ficam conhecidas na mídia do país, mas não conseguem se livrar da acusação até quase o final do filme (ou da peça) - quando a mentira da menina e sua cúmplice é desmascarada. Mas aí já é tarde demais. Uma delas (vivida no filme  por Audrey Hepbun) é noiva do médico bom-partido da cidade, estavam planejando se casar, mas a relação não resiste ao escândalo. A outra professora (Shirley MacLaine) acaba se  suicidando. Na verdade esta última ama profundamente a amiga desde os tempos da faculdade, mas a paixão nunca chegou a ser concretizada. O filme chega a ser pudico. O próprio Wyler tinha dirigido em 1939  outra versão da peça para cinema - onde a denúncia é sobre uma das professoras estar tendo um caso com o noivo da outra, já que nem a  suposição de lesbianismo seria aceitável na época em Hollywood. Lillian Hellman teve outras peças de grande sucesso, como Little Foxes,  que virou filme também. Ela e seu parceiro Hammett, namorados eventuais  por toda uma vida regada a grandes bebedeiras, foram intelectuais engajados na esquerda americana antes da Segunda Guerra Mundial. Ela visitou a Rússia, chegou a simpatizar com Stalin, foi a Espanha durante Guerra Civil, a Paris, conheceu Hemingway na Europa. Durante o macartismo tiveram que comparecer no  aterrorizante Comitê de Atividades Anti-Americanas do senado americano. Nem ela nem Hammett denunciaram ninguém. Hammett se recusou mesmo a depor, e foi  mandado para a prisão por alguns anos. Lillian depôs, mas se recusou a apontar o dedo para colegas de Hollywood e do teatro. Foi para a lista negra, impedida de trabalhar "na indústria" por alguns anos. O dramaturgo Arthur Miller (autor de The Crucible A View from The Bridge) também  foi intimado e não abriu o bico. Levou na audiência sua estonteante esposa Marilyn Monroe, que roubou totalmente a cena da mídia em Washington. Nos anos setenta Lillian Hellman, já velha, escreveu sobre a sua aventurosa vida pessoal e profissional, foi muito lida, reconhecida e ganhou premios  com An Unfinished Woman, Pentimento, Scoundrel Time. Tive o prazer de fazer a capa destes livros na sua edição brasileira. Algumas peripécias que ela conta em Pentimento, como a de Júlia (que virou filme com Jane Fonda  fazendo seu papel), foram depois contestadas por vários intelectuais como sendo apropriações de histórias que ela nem viveu. Seus livros são, contudo, documentos pessoais ricos e bem escritos de uma época ímpar na cultura do primeiro  mundo no século XX. Lillian Helman foi uma mulher corajosa, bem sucedida, de espírito brilhante e atenta a seu tempo, feminista de fato antes do movimento explodir na cultura americana.Uma vida que valeu a pena sem dúvida, e deixou um legado artístico muito interessante até hoje.

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