Do amor
que não dizia seu nome e de mentiras
Boa tarde
macbook. Frio seco na serra, sol bonito dourando o dia, antecedendo as noites frias.
Transplantei hoje uns lírios cor-de-rosa, raizes de
bulbos brancos e grandes, para compor o visual de uma pedra imensa a beira do
riacho. As flores só espoucam no fim do verão, me parece. Lembro da minha mãe
na sua bela voz de mezzo-soprano, citando a Bíblia quando falava dos seus lírios;
"Nem Salomão em toda a sua glória se vestiu como os lírios do campo." E
vejo um filme de William Wyler de 1961, em preto e branco, The Children's Hour ("Infâmia"),
baseado na peça de Lillian Hellman escrita no começo dos anos trinta, e um enorme sucesso na Broadway. Foi
a primeira peça dela, aos 29 anos, da época em que foi trabalhar em Hollywood como leitora de textos para
estúdios, e tinha acabado de conhecer Dashiell Hammett - o escritor policial de The Maltese Falcon, que virou um filme noir de John Huston. Ele a
ajudou bastante no redação final da peça, que foi proibido em várias cidades americanas e em Londres na época - fala da suposta relação homossexual de duas
jovens professoras que tem uma escola para meninas ricas na Nova Inglaterra. Mas
este não é o tema central da peça,
como disse a própria Lillian, ela é mais sobre o poder destruidor da mentira e da calúnia.
As professoras são acusadas por uma menina problemática e mentirosa de terem um caso
amoroso. A escola acaba sendo fechada. As moças recorrem na justiça, ficam
conhecidas na mídia do país, mas não conseguem se livrar da acusação até quase o final
do filme (ou da peça) - quando a mentira da menina e sua cúmplice é desmascarada. Mas aí já é
tarde demais. Uma delas (vivida no filme
por Audrey Hepbun) é noiva do médico bom-partido da cidade, estavam planejando
se casar, mas a relação não resiste ao escândalo. A outra professora (Shirley MacLaine) acaba
se suicidando. Na verdade esta última
ama profundamente a amiga desde os tempos da faculdade, mas a
paixão nunca chegou a ser concretizada. O filme chega a ser pudico. O próprio Wyler tinha dirigido
em 1939 outra versão da peça para cinema - onde
a denúncia é sobre uma das professoras estar tendo um caso com o noivo da outra,
já que nem a suposição de
lesbianismo seria aceitável na época em Hollywood. Lillian Hellman teve outras
peças de grande sucesso, como Little Foxes, que virou filme também. Ela e seu
parceiro Hammett, namorados eventuais
por toda uma vida regada a grandes bebedeiras, foram intelectuais
engajados na esquerda americana antes da Segunda Guerra Mundial. Ela visitou a Rússia, chegou a simpatizar
com Stalin, foi a Espanha durante Guerra Civil, a Paris, conheceu Hemingway na
Europa. Durante o macartismo tiveram
que comparecer no aterrorizante Comitê
de Atividades Anti-Americanas do senado americano. Nem ela nem Hammett denunciaram
ninguém. Hammett se recusou mesmo a depor, e foi mandado para a prisão por alguns anos. Lillian depôs, mas
se recusou a apontar o dedo para colegas de Hollywood e do teatro. Foi para a
lista negra, impedida de trabalhar "na indústria" por alguns anos.
O dramaturgo Arthur Miller (autor de The Crucible, A View from The Bridge) também foi intimado e não abriu o bico. Levou na audiência sua
estonteante esposa Marilyn Monroe, que roubou totalmente a cena da mídia em Washington.
Nos anos setenta Lillian Hellman, já velha, escreveu sobre a sua aventurosa
vida pessoal e profissional, foi muito lida, reconhecida e ganhou premios com An Unfinished Woman, Pentimento, Scoundrel Time. Tive o prazer de fazer a capa destes
livros na sua edição brasileira. Algumas peripécias que ela conta em Pentimento,
como a de Júlia (que virou filme com Jane Fonda fazendo seu papel), foram depois contestadas por vários intelectuais
como sendo apropriações de histórias que ela nem viveu. Seus livros são, contudo,
documentos pessoais ricos e bem escritos de uma época ímpar na cultura do
primeiro mundo no século XX. Lillian
Helman foi uma mulher corajosa, bem sucedida, de espírito brilhante e atenta a
seu tempo, feminista de fato antes do movimento explodir na cultura americana.Uma
vida que valeu a pena sem dúvida,
e deixou um legado artístico muito interessante até hoje.




